quinta-feira, janeiro 10, 2019

vozes da biblioteca

«Na curta viagem do comboio suburbano, escutando a nossa conversa, a menina, que não teria dez anos e veio a morrer de tuberculose tempos depois, fitava-me sem falar, com uma expressão de angústia infantil nos grandes olhos claros, ao mesmo tempo que em vão puxava para baixo, nos joelhos friorentos, a barra do vestidinho demasiado curto.» José Rodrigues Miguéis, Uma Flor na Campa de Raul Proença (1979) [1985]

«O António Pedro, um bocado na senda do Dalí, garantia ter recordações do útero materno.» Alexandre Babo, Recordações de um Caminheiro (1993)

«Uma mão que se apertou, umas palavras que se trocaram, uma amizade que aflorou, aqui, ali, a norte, a sul, neste país, neste e naquele continente, para cá e para lá dos oceanos.» Ferreira de Castro, «Delfim Guimarães» (1934) [1996]

50 discos: 14. LIVE AT LEEDS (1970) - #6 «Substitute»



vozes da biblioteca

«Depois aproximou-se do soldado ferido deitado no chão, com um dos pés transformado numa bola de massa onde se misturavam o coiro preto da bota, a terra castanha empapada em sangue e donde emergiam tendões brancos desligados dos ossos.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Encostando o ombro a uma esquina do velho Teatro Nacional, onde tantas vezes fora aplaudido e ovacionado, pôs-se a ouvir o movimento surdo e enrolado da cidade.» João de Melo, Lugar Caído no Crepúsculo (2014)

«O escritório do Medeiros, director da Comarca, era escuro e desconfortável; uma vulgar secretária de pinho, dois ou três cadeirões com almofadas de palha, um quebra-luz de missanga na lâmpada do tecto e montes de jornais aos cantos; cheirava a pó como num caminho de estio.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)

quarta-feira, janeiro 09, 2019

a prepotência com falinhas mansas

A história, verdadeira, dos 50 anos para decidir da construção de um novo aeroporto dá imenso jeito para justificar uma solução mal amanhada, isto é, de recurso. Esperar meio século por um remendo é demasiado mau. Mais valia esperar 52, e fazer o que nunca se fez: estudar, primeiro; decidir depois. Deixo de lado todas as questões em torno da solução Montijo, nem volto a falar de Beja, embora gostasse de ter sabido da sua ponderação, e nem sequer percebo como se põe de lado um aeroporto às moscas, a quarenta minutos de Lisboa, se tanto, em comboio de alta velocidade. Nem a continuação, e alargamento, do aeroporto no centro da cidade, quando o que se devia fazer era tirá-lo de lá.
O que me aborrece, desgosta e enfurece é o desrespeito pelas populações, de que falou João Joanaz de Melo, ao celebrar-se um protocolo para um aeroporto no Montijo sem a conclusão do estudo de impacto ambiental: é uma prepotência com falinhas mansas, e no fundo antidemocrática.
Um filme, aliás, que já vimos: eu tinha uma razoável opinião sobre António Costa, até ao lamentável caso do Infarmed. (Quer dizer, ela já tinha vindo a mudar, com seu comportamento toca-e-foge em relação a António José Seguro ou o calculismo um bocado impudico na questão Sócrates.)
O filme é portanto o mesmo: ideias generosas, desenvolvimento sustentável, descentralização  e outras patranhas que se lêem aos meninos para dormir, mas no fim o que é preciso é facturar politicamente. Um artista, como dizia o outro, que Deus tem -- e que, por acaso, das poucas decisões decentes que tomou durante os seus dois penosos mandatos foi a liquidação do aeroporto na Ota, já decidido pelo governo de então e potencialmente catastrófico, como explicou na altura um piloto da TAP no «Prós & Contras» a um país atónito -- atónito por descobrir-se governado por irresponsáveis, chega-se à conclusão. Para mim, Costa politicamente, e em condições normais, já está há muito que está riscado: se é assim, sem maioria, como seria (ou será) com ela?

terça-feira, janeiro 08, 2019

estampa CCCXLVIII - Júlio Resende


Retrato de Marta Maria (1954)

vozes da biblioteca

«Cada dia / promete o infinito em meia dúzia / de palavras -- o amor, / a vida, o tempo, a morte, a esperança, / o coração.» Fernando Pinto do Amaral, «Palavras», Pena Suspensa (2004)

«Não sabiam, / porque viviam no centro do seu tempo, / e o centro do tempo não sabe nunca o que lhe irá ser percurso, / como um rio que corre não conhece a sua foz, / só as margens por que passa e o iluminam, ou ensombram.» Ana Luísa Amaral, «Entre mitos: ou parábola», Escuro (2014)

«sim, Ana / morreremos loucos / mas / esta noite / dormiremos / juntos» Ademir Assunção, «5 dias para morrer», Na Virada do Século -- Poesia de Invenção no Brasil (2002) (edição de Claudio Daniel e Frederico Barbosa)

«Welcome To The Jungle»

domingo, janeiro 06, 2019

vozes da biblioteca

«Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Meneses, fidalgo de linhagem e um dos mais antigos solarengos de Vila Real de Trás-os-Montes, era em 1779, juiz de fora em Cascais, e nesse mesmo ano casara com uma dama do paço, D. Rita Teresa Margarida Preciosa da Veiga Caldeirão Castelo Branco, filha dum capitão de cavalos, neta de outro, António de Azevedo Castelo Branco Pereira da Silva, tão notável por sua jerarquia, como por um, naquele tempo, precioso livro acerca da Arte da Guerra.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

«Era, agora, mesmo mais difícil do que ficar indiferente àquela água que o céu despejava, torrencial, e que não seria suficiente para lavar-lhe a consciência maculada.» José de Matos-Cruz, Os Entre-Tantos (2003)

«No dia em que saí de casa, pondo fim a uma vida em comum de oito anos,, encontrei no caixote do lixo o exemplar de Os Versos do Capitão, de Pablo Neruda, que há muito tempo, apaixonado e previsível, oferecera a Sara.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

12 sinfonias: 9. Dvorák, SINFONIA #8 (1890) - IV. Allegro ma non troppo

mérdia 1, mérdia 2 e mérdia 3


mérdia 1: Vi hoje uma notícia de grande significado numa zona da Europa em que estamos política e militarmente envolvidos, e muito mal, diga-se. Trata-se da quebra do vínculo secular entre a igreja ortodoxa ucraniana e a russa, deixando aquela de estar sob a influência patriarca de Moscovo para passar à alçada do de Constantinopla. A cerimónia, de enorme importância a todos os níveis, teve lugar em Istambul, com a presença, e discurso, do presidente da Ucrânia.
Escusado será dizer que vi esta notícia na BBC e não na RTP, que prefere ocupar o espaço com três mortos num incêndio doméstico em Barcelona. A indigência dos telejornais da RTP não difere, na substância, das dos outros canais. É mais contida, mas paupérrima, e nem é preciso, para atestá-lo, haver um pivot que nos pisca o olho e locuta as notícias como se estivesse a falar para criancinhas. Ou para atrasados mentais.

mérdia 2: O episódio da tvi, do Goucha e do nazi. Nem merece comentários adicionais. Vale tudo, como se sabe. No outro dia falei da sic, a propósito doutra coisa; agora são os espertalhões da tvi. É muito cansativo perder tempo com estas porcarias, mas, que diabo, é preciso chamar nomes a estes bois. Vi aqui que um membro do governo se indignou, e bem. Mas não chega a indignação, há que apertar com eles -- e quando escrevo eles, ainda não me estou a referir à meia dúzia de nazis que por cá refocilam, embora, em nome da higiene pública, devam andar devidamente açaimados e com idas periódicas ao veterinário. Refiro-me a esta corja das televisões, que há anos transformam em pocilgas o espaço público. É claro que não vão fazer nada. A ERC para nada serve, e foi para isso mesmo que foi criada, nem querem arranjar chatices, eles ou quem os tutela.
Ameaçá-los de lhes revogar as licenças de emissão e de não lhes renovar a concessão, seria preciso que na cúpula do Estado democrático houvesse estadistas, mas o que mais há é artistas. E não digo isto especialmente por causa do nazi, que é uma mera decorrência da selvajaria em que se tornou o espaço merdiático.

mérdia 3: passaram cem anos sobre o nascimento de Eduardo Teixeira Coelho. Não fora o JN, e a data teria passado em branco na imprensa. Felizmente, há blogues.

sábado, janeiro 05, 2019

vozes da biblioteca

«No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.» Gabriel García Márquez, Memória das Minhas Putas Tristes (2004) (trad. Maria do Carmo Abreu)

«O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez e que essa repetição se há-de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito!» Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser (1983) (trad. Joana Varela)

«Sim, meu amigo, tu tens por certo razão, os homens teriam pesares menos agudos se... (Deus sabe porque eles são feitos assim...), se concentrassem toda a força da sua imaginação em renovar sem cessar a lembrança dos seus males, em vez de tornarem o presente suportável.»  J. W. Goethe, Werther (1774) (trad. João Barreira)

12 sinfonias: 8. Tchaikovsky, SINFONIA #4 (1878) - IV. Finale. Allegro con fuoco

criadores & criatura

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Jean-Michel Charlier, Jean Giraud (Moebius) e Blueberry

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sexta-feira, janeiro 04, 2019

a minha cadela Bolota, a crise do Benfica e a pança da sic-notícias

Maravilhoso passeio que dei ontem com a Bolota, a minha cadela, já perto da meia-noite. Um frio de entrar pelos ossos adentro, nevoeiro e uma humidade marítima de enregelar. Ela é que beneficiou da bandalheira que grassa por esses canais de televisão, alegadamente de notícias. Como a «Quadratura do Círculo» nunca mais começava, apesar de anunciado, porque os toscos que dirigem o canal preferiram continuar a ruminação do momentoso problema da saída do Rui Vitória do SLB -- um mastigar que vinha já da noite anterior, em que o programa do Gomes Ferreira, salvo erro director-adjunto de informação daquela chafarica pretensiosa, também saltara, apesar de igualmente anunciado -- (como nunca mais começava a «Quadratura») andei a fazer zapping pelos canais internacionais, detive-me um pouco na Euronews e, em seguida, na TPA, onde fiquei a saber dos problemas na área da saúde em Malange. Depois, aventurei-me no frio com a cadela.
Diante deste pobre espectáculo de ausência de brio, de critério e de respeito pelos espectadores como pelos seus próprios colaboradores, ocorre-me perguntar: 1) para que serve a ERC?; 2) como não foi a primeira, nem a segunda nem a terceira, nem... que a sic-notícias se borrifa em Pacheco Pereira, Lobo Xavier e Jorge Coelho, até quando estão eles dispostos a aturar este tratamento, que nem classifico?

quinta-feira, janeiro 03, 2019

vozes da biblioteca

«Ao tempo da sua partida, quando os pais o foram despedir a bordo da galera América, ele era um minhoto atarracado, de largos ombros, biceps de atleta, tórax saliente, e o pescoço curto e grosso, como o dos valentes bois do Barroso.» Luís de Magalhães, O Brasileiro Soares (1886)

«E, pelos rasgões do chambre, um seio branco, rechonchudo, com mais vergonha que se o Padre Santo António lhe publicasse os segredos, mostrava o mamilo, tão rubro, tão jucundo como o morango primeiro que pinta no morangal.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Não mais o frio das noites frias, a esteira, no chão, a fazer de cama para ela e para os irmãos, "cobertas de farrapos" a cobrirem-nos, por mantas quentes os jornais que a mãe estendia entre coberta e coberta: dispunha, agora e para sempre, de um leito nupcial, de príncipes, almofadas e almofadões a adornarem-no.» Assis Esperança, Servidão (1946)

50 discos: 22. BURNIN' (1973) - #6 «Small Axe»



o problema índio e a insolência intelectual

Embora a política do Bolsonaro seja de temer (de Temer?...), estou na generalidade de acordo com o que escreve Luís Teixeira no Observador, no que respeita ao relativismo cultural, que a propósito de bons sentimentos (preservação cultural e étnica) acaba por ter uma atitude paternalista em relação aos povos indígenas.
Sou, aliás, particularmente sensível à indesejável subsunção do indivíduo a uma categoria grupal, seja étnica, política, religiosa, sexual.
Fui espreitar a página da FUNAI. O jargão usado é assustador, entre outras coisas, pelo irrealismo. Leia-se a pérola:
«A Funai entende que conhecer as regras de organização, de conduta, os pontos de vistas, valores, anseios e o tipo de relação que os povos indígenas querem estabelecer com a sociedade nacional é o primeiro passo para uma relação respeitosa e, consequentemente, para a elaboração de leis e para a implementação de políticas que atendam à construção de um Estado verdadeiramente pluriétnico.»

"A FUNAI entende"... A FUNAI é um mero organismo estatal, e não tem que entender nada. É a Constituição do estado de direito democrático que entende, e, em obediência à lei fundamental, o governo democraticamente empossado. O resto é paternalismo puro -- para não dizer racismo --  e inútil. Ter a veleidade de achar que os povos indígenas podem ser «preservados», não só é duma insolência intelectual abominável, como totalmente inexequível no mundo contemporâneo.

A pergunta é (deveria ser) esta: quem sou eu (quem és tu), para determinar que uma comunidade tem de estar afastada de outra para não ser contaminada? O quê ou quem te investiu nessa prerrogativa? Por que razão devo considerar-te outra coisa (uma cobaia), que não um ser humano por inteiro, e se pertenceres a uma comunidade com determinadas práticas a ética e o bom senso considerem nocivas, se o teu povo pratica a excisão genital, a decapitação dos inimigos, a menorização da mulher a todos os níveis ou a predação do planeta em nome de um alegado crescimento económico insustentável -- quem sou eu, quem és tu, para dizer que, como integras um povo com uma mundividência própria, estás autorizado a que as tuas meninas sejam sujeitas à ablação do clitóris, que os teus inimigos sejam torturados, mortos e desfigurados, que as mulheres do teu povo tenham de estar em sociedade parcial ou totalmente veladas, que podes continuar a delapidar o planeta em nome do crescimento económico, do bem-estar de curto prazo, do contentamento dos mercados, pois a tua índole é a da livre iniciativa

Podíamos prosseguir a análise do parágrafo, até acabar com os votos pios de «um Estado verdadeiramente pluriétnico», o que com os pressupostos anteriores qualquer um vê que tal é irrealizável. A não ser que pretendamos acabar com o Estado (não parece ser o caso da FUNAI), e aí já seria outra a conversa.

Um bocado menos de ideologia de conserva e emprenhada pelos ouvidos e um pouco mais de bom senso e inteligência indicaria que a melhor forma de as sociedades preservarem as suas identidades é estarem munidas de todos os instrumentos que têm ao seu dispor para se defenderem -- pois que correm perigos evidentes, decorrentes da cupidez capitalista --, como certo líder activista índio que vi há tempos, com o seu telefone satélite.  O resto é para atirar ao caixote do lixo da História.

quarta-feira, janeiro 02, 2019

vozes da biblioteca

«Cuido não andar longe da verdade se afirmar que a minha Aventura Poética começou aí por volta de 1908, tinha eu os meus oito anos, no dia em que reparei (ou procedi como se reparasse) na existência das palavras, extraídas da vaza da algaraviada comum por homens estranhos, incumbidos da missão especial de dizerem o que mais ninguém ousava.» José Gomes Ferreira, A Memória das Palavras I ou o Gosto de Falar de Mim (1965)

«Mesmo antes de despertar -- um sonho me alvissarou que era hoje; um sonho em contorções e desesperos de pesadelos; seringas que se quebravam nas mãos, agulhas que me fugiam por entre os dedos, frascos de droga que se esvaziavam, por diabólico ilusionismo -- no próprio instante da picada.» Reinaldo Ferreira (Repórter X), Memórias dum Ex-Morfinómano (1933)

«Sentei-me a uma das carteiras e, não tendo coragem de levantar os olhos, fixei-os no abecedário, que crescia e se deformava constantemente.» Ferreira de Castro, «[Memórias inéditas»] (1931)

o mistério Bolsonaro

Como todos os portugueses, e talvez muitos brasileiros, só ouvi falar no Bolsonaro quando o homem produziu aquela lamentável declaração de voto nesse mau carnaval que foi o golpe de destituição da Dilma Rousseff, aliás uma mácula que o acompanhará sempre, pelo menos enquanto não se retratar. Algo, já agora, pelo qual a sua mui cristã mulher, Michelle Bolsonaro -- com uma certa piada, devo dizê-lo com frontalidade -- deveria velar, pois duvido que o Senhor Jesus tenha achado graça à tirada. A alma em risco.
O grande mistério Bolsonaro, para mim, que vejo de fora, não é a sua eleição -- quem já viu Trump, viu tudo --, mas a sobrevivência política durante quase trinta anos dum gajo que, pelos vistos, não fazia nada no parlamento, inscrito num partidículo cujo nome ainda não consegui fixar.
(Saltar daqui para a incompetência das esquerdas, que parece ter sido vasta, é outro assunto.)

terça-feira, janeiro 01, 2019

estampa CCCXLVII - Rembrandt


Mãe Lendo (c. 1629)