terça-feira, novembro 07, 2017

uma carta de Manuel Laranjeira

...ou da franqueza e da lealdade nas relações e na escrita.

estampa CCLXV - Barend Cornelis Koekkoek


Retrato de Jovem (1846)

segunda-feira, novembro 06, 2017

ia-me esquecendo deste...


um filme de Étienne Comar (2017)

domingo, novembro 05, 2017

Catalunha: nacionalismos, internacionalismos, outras confusões e alguns farsantes

Sou um cosmopolita e aspiro a uma Europa confederal. Faço minhas as palavras do Mitterand, segundo o qual "o nacionalismo é a guerra". É, porém, evidente -- ou deveria sê-lo para quem se detivesse a pensar um pouco -- que este cosmopolitismo, ou mesmo um internacionalismo de qualquer espécie, só é aplicável a jusante da autodeterminação. Daí que sejam especialmente patetas as observações que pretendem condenar o independentismo catalão a pretexto de uma pretensa aversão aos nacionalismos, como ontem tive a infelicidade de ouvir a dois legumes. Seria como se condenássemos os nacionalistas angolanos, moçambicanos e guineenses, que pretendiam ver-se livres da tutela portuguesa, em nome de bonitos princípios.  Princípios de resto que estes indivíduos evocam conforme lhes apetece -- dando de barato, com alguma boa-vontade de que sabem do que falam, o que nem é certo.

E a propósito de princípios, gostaria que me demonstrassem de que modo alguém pode afirmar-se democrata, se endossa de bom grado ao poder vigente a possibilidade de impedir que um povo possa ser auscultado sobre a sua  autodeterminação. Não é claramente um democrata; não passa dum oportunista e dum farsante se se disser tal.

Mais: como pode alguém definir-se como liberal (um termo nobre, diga-se), liberal numa concepção de largo espectro, que pode ir dum certo conservadorismo não-reaccionário até ao liberalismo mais extremo, que é o anarquismo, como se pode definir esse alguém como liberal se pactua e aplaude o poder da força de um estado central? Será um liberal de acordo com as suas conveniências. É pouco, não serve, não interessa.

 (Curiosamente a luta pela autodeterminação catalã, não apenas lá, como cá, compreende um conjunto de defensores muito lato, precisamente do conservadorismo ao campo libertário. Do outro lado, por cá, descontando os que não sabem o que dizem, os autoritários, os argentários e suas derivações e uma categoria de criaturas que está comprometida com o poder, lesto em assinar por baixo as directivas de Rajoy.) 

estampa CCLXIV - Agda Holst


Vista do Meu Estúdio

sábado, novembro 04, 2017

sexta-feira, novembro 03, 2017

"Puigdemont no país de Hergé"

Tomás Serrano


Concentrar o foco no líder político Carles Puigdemont revela uma de duas coisas: ou uma pobreza analítica que confrange, como se a questão catalã pudesse ser reduzida a um homem -- um dentre muitos no seu próprio partido, o PDeCat, já não considerando a ERC, a CUP e principalmente aqueles que não têm partido...; ou mera caixa de ressonância, propositada ou involuntária, do espanholismo madridista, um pântano em que germinam os herdeiros políticos e judiciários do franquismo, e no qual vicejam e singram os interesses mais básicos* -- ai Deus do Céu, que radical e extremista me saí, pobre pai de família pequeno-burguês que acima de tudo quer que não o macem...  
Dito isto, denunciar a fuga de Puigdemont para Bruxelas como um abandonar de barco (aliás, os que o fazem de boa-fé, não manifestam mais do que uma convicção palpitante), é duma precipitação arriscada. Eu prefiro vê-la -- e até agora não tenho razões para crer no contrário -- como uma retirada estratégica de enorme inteligência e alcance de quantos estão à frente do processo independentista, como aliás se verifica pelos erros sobre erros que a facção madridista comete. Aliás a posição de Oriol Junqueras, o vice-presidente do governo catalão e dirigente da ERC, ominosamente preso em Madrid, indica de que é disso que se trata.   
(Ah, e viva Hergé!)


*(ler a entrevista do líder da associação patronal espanhola ao i de hoje, notável pelo que revela -- ainda não consegui o link).



Estúpido de seu natural, o franquismo vai mordendo os iscos

Sem prejuízo de análise mais fina, registo o enterranço do espanholismo, que se põe a si próprio numa posição insustentável: até 30 anos de cadeia?; quanto milhões de euros de fiança? Daria vontade de rir, se não fosse grave. Entretanto, o independentismo catalão quanto mais acossado, mais forte, neste jogo do gato e do rato, sem erros, com uma bem sucedida estratégia de internacionalização e ainda sem um morto, felizmente. O franquismo, estúpido de seu natural, a morder todos os iscos.

quinta-feira, novembro 02, 2017

uma carta de António Sérgio

Carta que espelha o ambiente das elites intelectuais no final da República: António Sérgio, elemento da Seara Nova, grupo que se situava na ala mais à esquerda de regime; António Sardinha, o membro mais destacado do Integralismo Lusitano, defensor da monarquia tradicional, cujo órgão era a Nação Portuguesa. No entanto, para além dos pólos opostos em que ambos os grupos se situavam no espectro político, por mais de uma vez convergiram na acção cultural, de que a revista Lusitânia foi um dos exemplos. Sérgio, escreverá o seu artigo polémico na Seara, mas já não obterá resposta de Sardinha, que entretanto falece. É muito interessante verificar que o jovem Castelo Branco Chaves (24 anos) é o mediador deste desentendimento, -- suscitado pelo livro de Manuel Múrias, O Seiscentismo em Portugal (1923) --, uma vez que fora monárquico integralista, sendo o seu primeiro ensaio, um livro sobre Fialho de Almeida, prefaciado por Sardinha. E como explica Luísa Ducla Soares, a editora desta correspondência, Sérgio, instigado pelo brilho do jovem intelectual, tomou a iniciativa de o conhecer, forjando-se uma amizade entre ambos que levaria Chaves para as fileiras da Seara Nova. (aqui)

50 discos: 35. REGATTA DE BLANC (1979) - #5 «Deathwish»



quarta-feira, novembro 01, 2017

caderninho

«Para o homem sábio toda a terra é utilizável, porque a pátria da alma excelente é todo o mundo».
Demócrito

segunda-feira, outubro 30, 2017

AFRICAN CHILDREN

pois, pois, que viva Espanha!...

Pois, para não se pensar que tenho algo contra os espanhóis.

domingo, outubro 29, 2017

sábado, outubro 28, 2017

o enxovalho

Se Portugal defende o direito à auto-determinação dos povos, princípio basilar do direito democrático e da carta das Nações Unidas, não podia nem devia assobiar para o lado quando esse princípio está posto em causa, e há mil e uma maneira de fazê-lo diplomaticamente. Pelo contrário, a forma como os líderes políticos se têm referido ao assunto, para agradar a Madrid, é indecente e indigna. Indecente, porque dão a imagem de um país de rabo alçado; indigna, porque se fossem políticos com princípios, tinham obrigação de nutrir alguma empatia pela vontade de autodeterminação dos catalães, sabendo-se pôr no seu lugar. Porque, se 1640 tivesse corrido mal, como correu aos catalães, poderíamos estar em situação semelhante: depois de séculos de domínio e repressão, prisão e morte dos líderes independentistas, proibição da língua, teríamos hoje de ouvir um primeiro-ministro a dirigir-se-nos em castelhano, a partir de Madrid, a insultar-nos e ameaçar-nos, e toda uma classe política, dum franquista prático como o líder do Ciudadanos a uma nulidade como o secretário-geral do PSOE, a perorar sobre a nossa aspiração à liberdade. Pior: poderíamos estar agora, na eventualidade de a Catalunha, bem sucedida então na guerra de independência, aparecer com líderes simétricos aos nossos, com comentários acintosos, como os vergonhosos proferidos pelo ministro Santos Silva, pessoa que até agora me merecia respeito intelectual.
Neste momento, já nem é vergonha o que sinto pela atitude do governo  e do PR; sinto-me enxovalhado por, em nome de Portugal -- também em meu nome, portanto -- se apressarem a dar a Madrid uma solidariedade de que ela não é credora.
Se a situação vier a evoluir no sentido correcto, o da autodeterminação, graças à coragem e perseverança dos catalães, com eles estará a razão da ética e da História (aliás, estará sempre, mesmo em caso de derrota); e quanto a nós ficará a nódoa, que poderá ser remediada ou esquecida, mas nunca apagada.

AND I LOVE HER

Catalunha, 27 de Outubro de 2017

Podem arranjar os argumentos que quiserem: a constituição espanhola, a economia, a União Europeia; podem fazê-lo com a simplicidade de quem está de fora e não saiba avaliar o peso da História; podem fazê-lo com o cinismo e a desonestidade intelectual de quem pensa primeiro na bolsa, e depois na bolsa, e só depois na bolsa. Uma coisa é insofismável: esta é uma data histórica em que um povo, desapossado de um estado desde o século XV, se vê restaurado na sua dignidade -- independentemente do que aconteça amanhã. Os castelhanos podem vir por terra, mar e ar, podem sufocar a libertação pelo sangue (mas só pelo sangue). E mesmo que o absurdo prevaleça, mesmo que seja apenas mais uma etapa, nem assim conseguirão apagar este dia. 

quinta-feira, outubro 26, 2017

KONGUROI

o inverno é um balanço espesso / uma lama que cerca o coração
Manuel Afonso Costa