Quando uma ditadura recua, abre um precedente que se instala como um vírus. Não recuando e mantendo-se o braço-de-ferro, pode a China dar-se ao luxo de qualquer coisa parecida com Tiananmen? Que ela tem poder para enfrentar o mundo, tem-no, decerto; mas terá poder para enfrentar os mercados sobre os quais tudo perigosamente assenta? E, por outro lado, exercendo a sua milenar sabedoria, e fazendo jus ao mote de Deng Xiaoping um país, dois sistemas, terá margem para justificar esse recuo? Irá ainda a tempo?
terça-feira, setembro 30, 2014
segunda-feira, setembro 29, 2014
RUSSKIY KOVCHEG / A ARCA RUSSA, Aleksandr Sokurov
“ Uma captura de eternidade ("Estamos condenados a viver eternamente" -- voz off final); "os vivos eternos" referidos numa cena de quotidiano na "Galeria dos Flamengos". ”
a propósito das primárias do PS
Deixa-me cá ver o que ficou da noite de ontem:
* Uma vitória esmagadora de António Costa, muito para além do que eu esperava;
* O entusiasmo de Ferro Rodrigues (já disse aqui que foi o melhor s-g do PS? Já, e digo outra vez);
* A dignidade de Seguro na hora da derrota, que não apaga a péssima campanha que fez;
* O brilho de Ana Catarina Mendes (ACM para líder parlamentar, já: tem o estofo e a solidez);
* O ar bonacheirão de Jorge Coelho; o trabalho da Comissão Eleitoral;
* Os adesivos do costume, que apareceram a saudar a "grande vitória do camarada António Costa", e os habituais compagnons a fazerem-se notados. Cáfila.
* O descaramento de Jerónimo de Sousa e a "farsa" eleitoral. Não está mal, para um partido que tenta manipular eleitorado (de forma muito canhestra, é verdade) com uma vigarice política chamada PEV; s-g do partido que enviou condolências ao povo norte-coreano pelo passamento da camarada ditador anterior (como se sabe, na Coreia do Norte as eleições não são uma farsa).
crónica de outro mundo
Sou da infância como se é de um país -- escreveu o grande Saint-Exupéry, que cito de memória. Um país distante, de que permanecem, nos mais afortunados, as reminiscências da descoberta da vida e do mundo, na presença rediviva dos que nos foram (nos são) queridos.
Este Terra Mãe, que traz o subtítulo Crónicas da Idade Menor, faz-nos participar dessa revelação jubilosa dos primeiros anos, ainda no conforto da segurança (e da disciplina) familiar. É, no conjunto, um relato na primeira pessoa da vida aldeã de lavradores humildes de Maceira, Leiria, saborosíssimos quadros contados com sabedoria, aprumo e instinto literários. E refiro-me expressamente a esse aprumo e a esse instinto, pois trata-se de um livro inicial de alguém que, por profissão, lidou durante anos com a linguagem árida dos códigos do Direito. Nada dessa sintaxe obscura nem dessa semântica labiríntica perpassa por aqui; antes um fio de água pura, uma singeleza que não é simplória ou desprovida de humor. Das pequenas transgressões aos medos infantis, umas e outros tomando proporções gigantescas ao palmo-e-meio que o narrador nos deu a conhecer em pouco mais de centena e meia de páginas; o fascínio diante dos oficiais de vários ofícios, de práticas ancestrais (a aldeia portuguesa da década de 1950 permanece, em muitas situações, num contexto de Antigo Regime [não confundir, por favor, com alusões ao Estado Novo!...]); as evocações impressivas da marginalidade, assumida ou forçada, dos pedintes, dos bêbados, dos deficientes mentais; o gozo das prendas da Natureza, a estesia dum nascer do Sol, o impacte do primeiro avistamento do mar, o universo bem delimitado da floresta, com os seus segredos e zonas de sombra; o convívio com pais, avós e demais família que connosco é partilhado.
Dum ponto de vista mais utilitário, registe-se ainda a fonte que um livro como este é para quem, historiador ou antropólogo, se debruce sobre a vida rural duma aldeia da Estremadura em meados do século XX, facilitado pelo extremo rigor com que são mencionados artefactos, práticas culturais e espécimes animais e vegetais, na sua relação com o homem e no uso que deles se faz, ou fazia.
Crónicas de outro mundo, outro tempo, outro país, escritas por quem, sendo deste mundo, tempo e país logrará, disso estou certo, projectá-los no futuro, já que um livro como este tem um destino marcado, invejável destino: ser periodicamente revisitado ao longo dos tempos, como repositório de património imaterial da comunidade de que se originou.
Nota: para que se saiba, conheço e tenho estima pelo Autor, circunstância que, mesmo involuntariamente, esteve sempre presente enquanto o lia. Credite-se, porém, a apreciação do texto acima, aos méritos do livro e ao espírito crítico de quem o recenseou.
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Fernando Faria
domingo, setembro 28, 2014
sexta-feira, setembro 26, 2014
quadros de cor rica
«O rapaz magro esteve um momento raspando o chão com a bengalinha -- e foi andando devagar ao comprido da plataforma. Reparara agora no rapaz do campo, que supunha ia a Lisboa embarcar para o Brasil: e, sensibilizado pela face tão desolada da velha, ia pensando que o Emigrante seria um motivo tocante de poesia social: daria quadros de cor rica -- os vastos azuis do mar contemplados duma amurada de paquete, as noites saudosas longe, numa fazenda do Brasil, quando a lua é muito clara e os engenhos estão calados; e aqui no casebre da aldeia, os pais chorando à lareira e esperando os correios... Entrevia mesmo os primeiros versos:
Ei-lo que deixa o lar, a mãe chorosa,
Os verdes campos, o casal risonho...»
Eça de Queirós, A Capital! (póstumo, 1925)
quinta-feira, setembro 25, 2014
para a história da infâmia
As imagens repulsivas do montanhista Hervé Gourdel, homem franzino, manietado e a instantes de ser degolado, ficarão como documentos de uma das muitas infâmias que homens perpetraram contra outros homens.
Parece-me que está na altura de os muçulmanos, nomeadamente os que vivem na Europa, se sobressaltarem e começarem a dar caça a estes animais raivosos nas suas próprias comunidades, sob pena de se tornarem ainda mais vítimas deles do que já são; e sob pena, ainda, de se tornarem duplamente vítimas: imagino a sede dos neo-nazis, dos cabeças-rapadas da Frente Nacional & demais tresloucados...
Se as próprias comunidades islâmicas não tomarem a iniciativa de exterminarem a serpente que já há muito saiu do ovo, não tardará a que assistamos na "civilizada" Europa à perseguição ao muçulmano e a feios desacatos, cujas primeiras vítimas serão pessoas inocentes, com a religião errada na cidade errada.
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Hervé Gourdel
quarta-feira, setembro 24, 2014
conversações cruzadas
«Às quintas e aos domingos ia aos chás de Adrião. Ficávamos tempo estirado cavaqueando -- e era para mim verdadeiro prazer tomar parte em duas conversações cruzadas sobre moda e câmbio. Algumas vezes Luísa falava de contos, versos, novelas. O marido ferrava no sono. Ou então, com enormes bocejos, lá se ia claudicando, a lamentar que a enxaqueca não lhe permitisse saborear um enredo tão filosófico. Ele entendia bem de comércio; o resto era filosofia.»
Graciliano Ramos, Caetés (1933)
onde, a propósito do frente-a-frente Costa-Seguro, se prefere falar da miséria política
Não vou gastar grande latim com o debate de ontem, até porque não sou eleitor. É claro que prefiro Costa, por óbvias razões, e não apenas pela inanidade de Seguro.
Costa tem o melhor e o pior do PS a acompanhá-lo. É o preço que pagam os potencialmente vencedores, transportarem consigo as lapas, os parasitas, os carreiristas, o que não acrescenta ou retira um átimo às suas qualidades e aos seus defeitos. Não tenho grandes ilusões, mas alimento alguma esperança, apesar de tudo.
Registo apenas, como toda a gente, um óptimo sinal: a barragem de críticas a Costa por parte dos comentadores esportulados, e os ataquezinhos dos outros partidos: do CDS, tornado uma excrescência do seu líder, logo risível, patético e perigosa; ao PSD, o partido mais português de Portugal, manhoso, boçal e desenrascado (muito parecido, aliás, com o PS segurista); e ao PC, uma revivescência do Portugal salazarista -- a contrario, é claro, mas para pior (a Coreia do Norte, meu deus...). Quanto ao BE, nem sei; mas o BE não serve para nada, como já há bastante tempo dissera o próprio Costa.
Todos gostariam que Seguro ganhasse, e querem-no tanto que nem conseguem disfarçar. Mais uma boa razão para votarem em António Costa no domingo.
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terça-feira, setembro 23, 2014
as vozes dos deuses
«Os deuses falam aos homens com vozes diferentes, conforme eles são capazes de entender. Os jovens ouvem essas vozes no estrépito das batalhas ou no acto do amor, os velhos aprendem a escutar de outra maneira.»
João Aguiar, A Voz dos Deuses (1984)
para caber onde ia
«Ao recordar acontecimentos daquela época tão distante, ainda hoje desfila diante de mim a figura paquidérmica do pai do velho Joaquim Cardoso, marmeleiro na mão esquerda, quinzena desabotoada, e as abas largas a abanar, braço direito estendido e a mão espalmada, no gesto de arredar meio mundo para caber onde ia.»
João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão (1962)
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João Sarmento Pimentel
domingo, setembro 21, 2014
sábado, setembro 20, 2014
sexta-feira, setembro 19, 2014
conspiração de cães
«Viu no fundo duma cova uma conspiração de cães à volta do cadáver dum homem; alguns saltaram para o lado assim que ele apareceu mas logo retomaram a presa; outros nem isso, estavam tão apostados na sua tarefa que se abocanhavam entre eles por cima do corpo do morto.»
José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)
o exemplo da Escócia: civilização e barbáries de diferente jaez
Nestes tempos em que a barbárie nos é posta a todas as horas diante dos olhos, o referendo escocês foi altamente higiénico e retemperador, um exemplo para todo o mundo de como as questões políticas, por magnas que sejam, podem ser dirimidas de forma civilizada -- grandemente civilizada --, como o demonstraram escoceses e ingleses. Já houvera outros casos, como o do Quebeque e o da secessão da Checoslováquia. Mas este, pela hipermediatização que protagonizou, constituiu-se como acto político que não deixará de ser lembrado em processos semelhantes -- a começar pela Espanha, aqui ao lado, pese embora a diferença do enquadramento legal.
A verdade é que o eleitorado da Escócia se manifestou, e esse é que é o ponto. O resto é ignorância, estupidez e má-fé -- a começar pelo alívio dos mercados, como, acriticamente, já se papagueou hoje -- sem que percebam (ou queiram perceber) que pôr a política dos interesses permanentes dos povos nas mãos da especulação sem rosto nem pátria, e muito menos valores, só pode conduzir ao desastre -- como tem sucedido e continuará a suceder.
No fundo é um outro tipo de barbárie, menos sanguinária, mas igualmente destrutiva.
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quinta-feira, setembro 18, 2014
quarta-feira, setembro 17, 2014
anões velhos
«As palmeiras de pouco porte incharam tanto que fazem pensar em anões velhos, doentes, com as suas cabeleiras, as suas folhas emaranhadas, caindo em arco até ao chão.»
Carlos de Oliveira, Finisterra (1978)
é dizer ao Sr. Putin que me agarrem ou vou-me a ele, ok?
Isto, quem o escreve, é o embaixador José Cutileiro -- homem culto, porém largamente obtuso --, a propósito de Putin. A estes transportes belicistas, a esta diplomacia galharda e pundonorosa, a este entendimento macho das relações internacionais, prefiro a não menos culta, porém sagaz, opinião de Jaime Nogueira Pinto, que percebe o que está em causa.
(http://www.sol.pt/RedeSOL/Autores/?autor=Jaime Nogueira Pinto)
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mais um Woody Allen
Allen gosta de gozar com tudo o que gira à volta dos espiritismos e demais temas mediúnicos; quase tanto quanto troça dos enfatuados. O encontro entre uma charlatã engraçada e inofensiva e um cromo presunçoso mas simpático são motivo que baste para uma comédia, sempre agradável quando se trata de um filme seu. Colin Firth e Emma Stone, esplêndidos.
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Woody Allen
taciturnos
«Seguiam sem pressa, um pouco vergados sobre as próprias figuras, olhando mais o piso da estrada do que os amplos horizontes à sua volta. Grave preocupação os prendia, diferente das que lhes atribuiria quem por noivos enleados erradamente os tomasse.»
Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)
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