sábado, agosto 08, 2009

O meu encontro com Raul Solnado

Há vinte anos eu era estagiário no semanário Se7e. Celebrava-se então o vigésimo aniversário do mítico «Zip Zip» e, para assinalar a efeméride, fiz uma série de entrevistas aos autores do programa: Solnado, Fialho Gouveia, Carlos Cruz e José Nuno Martins, o responsável pela lufada de ar fresco musical que então se verificou na estação dirigida por Ramiro Valadão.
Entrevistei o Raul Solnado na sua casa do Bairro Azul. Estava nervosíssimo. Era novo e tinha desde criança uma enorme admiração por ele. Ainda guardo um single, salvo erro intitulado «Cirurgia Plástica» -- Solnado ao melhor nível. Apreciava as suas posições políticas, sempre muito sensatas e verificara que era um homem culto e fino. Era uma estrela sem o menor pedantismo. A recordação dessa tarde é talvez a mais grata que guardei da minha curta carreira de jornalista. Raul Solnado foi de uma grande afabilidade e tudo fez para deixar há vontade um rapaz que não se sentia muito bem no papel de intruso, mesmo quando a intrusão era agendada.
Estive com ele mais algumas vezes, no Estoril, onde viveu por alguns anos. Mas essa tarde em que conversámos no Bairro Azul é que me ficou de lição. A grandeza nunca se exibe.
Retrato de Raul Solnado por Maluda.

Músicas grandes - Franz Joseph Haydn, Sinfonia #94 -- Adagio - Vivace assai


Filarmónica de Berlim / Mariss Jansons

Caracteres móveis - Jack London

Dormiste em camas fofas, vestiste bons fatos, e comeste boas refeições. Quem fez essas camas? E esses fatos? E essas refeições? Não foste tu, não. Tu nunca fizeste nada com o teu próprio esforço. Vives de rendimentos que o teu pai ganhou. És como o albatroz, que rouba o peixe que as outras aves caçaram. Pertences ao número dos homens que impuseram aos outros aquilo a que chamam governo, que são donos de todos os outros homens e que comem a comida que os outros ganham e que gostariam de poder comer. És tu quem usa as roupas quentes. São eles que as fazem, mas tiritam nos seus farrapos e pedem-te emprego a ti, ao teu advogado ou ao teu procurador.


O Lobo do Mar
(tradução de João Guerreiro Boto)

sexta-feira, agosto 07, 2009

quinta-feira, agosto 06, 2009

Antologia Improvável #393 - J. Santos Stockler

PANORÂMICA I

Para o bracarense
Dr. Victor de Sá

Do aroma das estevas
da raiz do vento
da voz do silêncio
do voo das aves
da mansidão dos rios
da poeira dos caminhos
das brasas do choro
da gravidez do sol
das manhãs sepulcrais
e das asas da felicidade que não temos

de tudo isso ressurgirá amanhã
o mundo que há muito pisa
a nossa ausência

Poemas do Meu Tempo

O Vale do Riff - Goldmaster Allstars, «Starvation»

Tenho as minhas horas do ska. Tata-tarara-tarara-tarara-tara-ta-ta-ta!

Teresa

Espelho, espelho meu,
Haverá alguém com mais sorte do que eu?...
Je t'aime!

quarta-feira, agosto 05, 2009

caderninho

O capitalista embolsa com a mesma indiferença o dinheiro molhado de lágrimas, o dinheiro manchado de sangue ou o dinheiro coberto de lama. Paul Lafargue
A Religião do Capital (tradução de J. Mega)

O Vale do Riff - Blood Sweat & Tears, «You've Made Me So Very Hapy»

A melhor fusão. Cita-se Erik Satie. The Voice, aqui, é David Clayton-Thomas.
qué linda época / aquella en que decíamos / revolución
Mario Benedetti

terça-feira, agosto 04, 2009

O Vale do Riff - Anita O'Day, «Love For Sale»

O'Day, a maior branca da idade de ouro do jazz. Faz o que quer e canta como quer o standard de Cole Porter. (Vejam o maxilar inferior, como mexe.)

segunda-feira, agosto 03, 2009

Caracteres móveis - Harold Pinter

Futebol Americano
Uma reflexão sobre a Guerra do Golfo

Aleluia!
Funciona.
Rebentámos-lhes com aquela merda toda.

Rebentámos-lhes com a merda pelo cu acima
Até lhes sair pela porra das orelhas.

Funciona.
Rebentámos-lhes até com a merda.

Eles sufocaram na própria merda!

Aleluia.
O Senhor seja louvado por todas as coisas boas.

Desfizemos aquela porra toda em merda.
Estão a comê-la.

O Senhor seja louvado por todas as coisas boas.

Rebentámos-lhes os tomates em estilhaços de pó,
Na porra de estilhaços de pó.

Conseguimos.

Agora quero que venhas aqui e me beijes
na boca.



Guerra
(tradução de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão)

O Vale do Riff - Gerry Mulligan, «Walking Shoes»

Lindo. Há quem considere Gerry Mulligan o maior sax barítono de sempre do jazz. Foi provavelmente o mais alto. Swing do princípio ao fim.

Antologia Improvável #392 - David Mourão-Ferreira

SERENATA DO ADOLESCENTE

Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!

Passo na rua e nada vejo
senão a luz, a luz e a grade.
Ó lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.

Se tens trint'anos? ou cinquenta?
Quis lá saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome da luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda -- ante o teu seio --
queimar tão pobre mocidade!


Os Quatro Cantos do Tempo

domingo, agosto 02, 2009

cartoon

William Hannah & Joseph Barbera, «Cue Ball Cat» (1950)

o grau abaixo de zero

imagem daqui

caderninho

Se alguma vez acontecer que te empenhes nas coisas exteriores, com intenção de agradar a alguém, fica sabendo que perdeste o rumo da tua vida. Alegra-te, por isso, em ser perante tudo um filósofo; e se também quiseres ser visto como tal, mostra a ti mesmo o que és, e de facto conseguirás sê-lo. Epicteto
A Arte de Viver (tradução de Carlos A. Martins de Jesus)