terça-feira, julho 10, 2007

Figuras de estilo - Maria Archer

E frágil de corpo, enfermiço, não deixava nela a dor fascinante do esmagamento, a violência sedutora de ter ido na dianteira dum vendaval irresistível. Sim, era ardente no amor, vibrante, sedento das horas infinitas que se não contam. Mas largava-a insatisfeita, intacta na sua ansiedade, inquieta e aterrada perante o deus que descia à terra e regressava ao seu trono de nuvens sem deflagrar o milagre.


Ida e Volta duma Caixa de Cigarros

O Vale do Riff - Deep Purple, «Child In Time»

Antologia Improvável #239 - António Botto (3)

PALAVRAS DUM AVESTRUZ TODO GRIS

Arrancam-me as penas
E eu sofro sem dizer nada:
-- Sou ave
Bem educada.

E, se quisesse,
Podia
Morder-lhes as mãos morenas
A esses
Que sem piedade
Me roubaram estas penas que me cobrem.

E, no entanto,
Sem o mais breve gemido,
O meu corpo
Vai ficando
Desguarnecido.

E elas,
Aquelas
Que se enfeitam, doidamente,
Com estas penas formosas
-- Que são minhas! --
Passam por mim, desdenhosas,
Em gargalhadas mesquinhas.

Sim, eu sofro sem dizer nada:
-- Sou ave
Bem educada


Motivos de Beleza / Líricas Portuguesas. 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

segunda-feira, julho 09, 2007

O Vale do Riff - The Moody Blues, «Nights In White Satin»

os últimos 5 livros

O meu velho Amigo Réprobo quis saber quais tinham sido as minhas cinco últimas refeições. Respondi-lhe que nem sequer me lembrava do jantar, quanto mais do almoço de anteontem... Gosto de comer bem, mas as refeições ou são para conversar em família ou para, em restaurante, ler o jornal. Por isso, aproveito a generosa possibilidade que ele me dá para falar dos últimos cinco livros que li. E são estes:

Estou a terminar uma das primeiras obras da prolífica Maria Archer, Ida e Volta duma Caixa de Cigarros, Lisboa, Editorial O Século, 1938. Maria Archer é uma das nossas grandes autoras da primeira metade do século XX. Estilo apurado, fluente, seguro, servindo uma fortíssima personalidade de escritora e de mulher. Uma figura interessantíssima e uma obra romanesca a resgatar.
Estou também a concluir este álbum do grande Hal Foster, Príncipe Valente, com pranchas correspondentes aos anos de 1943-44, editado pela Livros de Papel, Lisboa, 2005. Edição primorosa de Manuel Caldas e José Manuel Vilela que parece nem os americanos têm... O traço de Foster e a saga de Valiant bem o mereciam.
Com argumento de João Paulo Cotrim, autor do magnífico Salazar -- Agora e na Hora da Sua Morte -- e desenhos cheios de jive de Pedro Nora, Anita O'Day, para a colecção «BD Jazz», uma ideia das Éditions Nocturne, secundada em Lisboa pela Corda Seca (2003). O grande triunvirato das cantoras negras Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan fez esquecer injustamente esta branca excessiva e plena de swing.
Um livro de poemas de paulo da costa, Notas de Rodapé, Livros Pé d'Orelha, Vale de Cambra, 2005. Poesia auto-referencial (qual a que o não é?), acusando a tensão do afastamento e da fragmentação de quem vive há quase vinte anos no Canadá, sem inteira pertença aos mundos de cá e lá.
Finalmente, um grande xarope: Artur Portela [Pai], O Trapeiro Russo e Outras Histórias, Lisboa, Livraria Clássica Editora, s.d. Portela foi um jornalista exímio, repórter e chefe de redacção do Diário de Lisboa, o melhor jornal português que alguma vez existiu (refiro-me aos anos de Joaquim Manso, com Portela, e de Norberto Lopes, com Mário Neves). O que este livro demonstra, se fosse preciso, é que não basta escrever sem mácula e ter conhecimento da língua para se ser escritor, sequer mediano. A escrita faz-se com nervo, com as entranhas e não com lugares-comuns nem achados "originais" insólitos ou pesados. Arrastei a leitura até ao fim pela estúpida repugnância de deixar um livro a meio. Mas com que penas...

O pincel agora para alguns dos meus blogues favoritos, ainda não encadeados: Artes Plásticas , Aurelia (se houver tempo e disposição...), Cine-Australopitecus, Escola dos Ferroviários e Ma-Shamba.


sábado, julho 07, 2007

estampa CXIII

Juan Gris, O Livro
Museu Picasso, Paris


Tiveste a sorte de ter alguém / na tua vida a quem é tão difícil dizer / adeus?
Jorge Gomes Miranda

quinta-feira, julho 05, 2007

A entrevista de Zita Seabra

Retenho da entrevista de Zita Seabra à RTP, a propósito das suas memórias, apresentadas hoje, a ausência de uma atitude de autojustificação do percurso como militante e dirigente do PCP. Zita assumiu-se como uma militante disciplinada, sectária, fanática, que através dum doloroso processo de ruptura acaba por pôr em causa as ideias por que se bateu, classificando-as como erradas na sua essência. Todos quantos estávamos de fora sabíamos que assim era; os que convictamente lá militavam, não viam nem queriam ver. Ela o disse, referindo-se a si mesma, e assim vale(rá) a pena ler o que se assume de um passado, com todos as luzes e sombras. O período do PREC será de certeza interessantíssimo, para ver onde acaba a acção dos grupúsculos da extrema-esquerda e como esta se integra na (ou aproveita a) estratégia do PCP. Só espero que o estilo seja escorreito, ao contrário de alguns dos seus ex-camaradas, que escreveram memórias nos moldes de um relatório, como se fose uma espécie de informe ao c.c....

Acordes nocturnos

imagem pilhada aqui

Caracteres móveis - Geneviève de Gaulle Anthonioz

Tento rezar, o Pai-Nosso, a Ave-Maria, fragmentos de salmos. Do fundo do abismo, também eu clamo por Deus, como fizeram tantos outros. Tento entregar-me à misericórdia do Pai, juntar-me à agonia de Jesus no Horto das Oliveiras. Nem sequer é um silêncio que me responde, mas o miserável rumor da minha angústia.


A Travessia da Noite
(tradução de Artur Lopes Cardoso)

O Vale do Riff - Sheila Jordan, «Autumn In New York»

quarta-feira, julho 04, 2007

Antologia Improvável #238 - José Régio

PEQUENO POEMA

Quando eu agonizar, Senhor,
Vencido sob a cruz que me impuseste,
Não permitas que seja de amargor
O derradeiro instante que me reste.

Tenta-me, até ao fim com toda a provação!
Só essa, Pai! só essa não.

Para tanto, bastara que deixaras
Que a criança mais nova da família,
Por um acaso extraordinário,
Desses que tu preparas,
Velasse inconsciente a minha última vigília
No frio quarto solitário.

Já cego, eu poderia, então, inda sonhar
A minha última lágrima aquecida
Por seu sorriso, seu olhar...

Isso me bastaria, Pai! para acabar
Sem maldizer a vida.


In Líricas Portuguesas. 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

O Vale do Riff - Frank Sinatra, «I've Got You Under My Skin»

terça-feira, julho 03, 2007

torradas

a vida seria pior sem elas

é sempre assim

Depois da leitura dum romance do nordeste brasileiro, tenho de dessedentar-me (raio de palavra!) numa narrativa do norte europeu. Depois do sertão, uma floresta de abetos.

O Vale do Riff - Crosby, Stills & Nash, «Our House»

segunda-feira, julho 02, 2007

Smudja

A não perder os trabalhos do sérvio Gradimir Smudja, autor de BD apaixonado pela pintura e, em particular, pelo impressionismo. Aqui