Galeria Naródni, Praga
segunda-feira, setembro 10, 2007
Sobre o livro de Zita Seabra

Zita Seabra está longe de ser uma escritora aceitável, mas foi uma memorialista competente.
O seu livro não me desapontou, em especial na parte que mais curiosidade me suscitava, a época do prec. Responsável máxima da UEC, vinda da clandestinidade, mais tarde elevada à Comissão Política do Comité Central, o seu testemunho confirma como as cúpulas do PCP encaravam a democratização do país com reserva mental, sendo porém alheias aos desmandos da extrema esquerda, cujo radicalismo assustava a maioria silenciosa, que pouco distinguia uns dos outros. A ideia de que os esquerdistas seriam uma espécie de cães-de-fila servindo objectivamente uma estratégia do Partido, como por vezes se diz, não me parece ser sustentável, a partir deste depoimento.
Também me impressionou o relato da clandestinidade -- boa parte dela passada a desempenhar o papel de doméstica inofensiva, conspirando dentro de portas --, bem como a fibra obstinada que revelou nesta situação de grande pressão psicológica e isolamento dos familiares e amigos mais próximos, fortaleza que se fará sentir já no caminho da dissidência.
Estas são igualmente memórias do choque com a realidade, quando, já dissidente, percebe a miséria moral do embuste que foi o «socialismo real». Só em ruptura com o Partido, na sua última viagem à União Soviética -- e também mercê da glasnost de Gorbatchev --, Zita Seabra esteve disponível para verificar o que de facto se passava dos países ditos socialistas. A admissão da recusa em ver, com a constatação do logro que fora o seu percurso até aí, é exposto com uma clareza e uma coragem admiráveis.
Os relatos dos dois «julgamentos» que conduziram à expulsão da Comissão Política e depois do Comité Central, são, apesar do dramatismo, hilariantes, pela feição de tragicomédia de que se revestiram: a natureza humana em todo o seu esplendor. Porém o tom muda, quando Cunhal, no decurso do segundo conclave que conduziria a militante à expulsão, interpela todo o C.C., perguntando a quem ali se encontrava, quantos teriam a coragem de Zita Seabra, de estarem sozinhos naquele confronto....
O retrato de Cunhal é outro dos aspectos mais interessantes do livro. Zita Seabra trata a generalidade dos antigos camaradas -- em especial os velhos resistentes dos cárceres da pide -- com o devido respeito. Pressente-se, para quem está de fora, um ou outro remoque, em relação aos quais a consideração já não será tão grande, como parece passar-se com o actual secretário-geral, referido duas vezes de raspão, mas com significado. Mas o tom geral do livro é elevado. Cunhal, que obviamente a marcou, aparece com as qualidades que geralmente lhe são reconhecidas, mas também com defeitos -- os defeitos de quem, pela sua própria biografia e pela cultura e brilho intelectual, detém sobre os outros um ascendente que não deixa de ser exercido, com crueza e desprendimento se necessário. O histórico líder do PCP apareceu-me aqui desmitificado como eu nunca vira a partir duma fonte directa; e, ao mesmo tempo, humanizado, na sua grandeza como nas suas pequenas misérias. E isso, por paradoxal que pareça, é ainda uma forma de homenagem.
domingo, setembro 09, 2007
capismo
capa para A Minha Pátria, de Ana de Castro Osório
Livraria Editora «Para as Crianças», Setúbal, 1906
sábado, setembro 08, 2007
Caracteres móveis - Joseph Conrad
sexta-feira, setembro 07, 2007
o nome e a coisa
Os anarquistas sempre tiveram um grande respeito pela classe política, globalmente considerada. Vejo essa consideração devidamente impressa no último número do jornal A Batalha -- título histórico do anarco-sindicalismo que editava um excelente suplemento cultural hebdomadário, colaborado por nomes como Ferreira de Castro, Jaime Brasil, Roberto Nobre, Julião Quintinha, Mário Domingues ou, mais esporadicamente, Raul Brandão, Rocha Martins, Assis Esperança e José Régio, entre muitos outros.
Fiel aos seus pergaminhos, A Batalha, agora publicado pelo Centro de Estudos Libertários, traz nesta edição de Julho-Agosto -- mais estival, portanto --, uma curiosa lista de anagramas de actuais e antigos dirigentes partidários de todo o espectro parlamentar.
O PSD, não sendo o mais votado, ocupa a Presidência da República. Antes do primeiro magistrado, refira-se um dos seus dirigentes mais emblemáticos, PEDRO SANTANA LOPES, com direito a dois anagramas: «SATANÁS PLENO» e «ASNAL ESPANTO»; ANÍBAL CAVACO SILVA dá «LAVABO NA CASA CIVIL».
Passemos ao PS, de todos os partidos, o menos antipático a uma boa parte dos libertários. O PS surge com quatro nomeações: MÁRIO SOARES, «ISSO ERA AMOR»; JORGE SAMPAIO, «O MAJOR PIEGAS»; ANTÓNIO GUTERRES, «OUTRO RESIGNANTE»; e ALMEIDA SANTOS, com direito, tal como Santana, a um carinho especial, com duas possibilidades gostosíssimas: «SALADA SEM TINO» e «MISTELA DANOSA».
Segue-se um arqui-inimigo, o PCP, que surge com a única mulher da lista, justa presença para os animadores do MDM: ODETE SANTOS, também ela com duas combinações, relativamente benignas: «TESTA DE SONO» e «DOTE SENSATO».
Uma outra espécie de inimigo, a beatice e o ultramontanismo eclesial, têm no CDS o melhor encaixe: não propriamente TELMO CORREIA, que surge na lista como «O MOLE RECITAR», mas sim PAULO PORTAS, magnificamente mudado para «O SURTO PAPAL».
Deixo para o fim mais um arqui-inimigo, o trotskismo, aqui personificado por FRANCISCO LOUÇÃ; «LUFAR CONCISO».


quinta-feira, setembro 06, 2007
Antologia Improvável #250 - paulo da costa
GELO CANADIANO

Notas de Rodapé
uma década decorrida, a noite ainda prometedora e eu, mais delapidado, recordo os primeiros passos no gelo canadiano -- acácias da rússia à esquerda, árvore do lis dobrada ao vento -- subi os frios degraus de pedra, 238 avenida scarboro, números e letras mudos sob o xaile de dezembro ao pousar o saco verde no soalho de cerne; uma década a reiventar alento, esse saco vazio e desfalecido no canto obscuro, lágrimas a espalhar pedras preciosas, amigos, irmã, bolinhos de bacalhau, pai, mãe, um búzio, a língua abandonada num aeroporto de confusões, voltas intermináveis sem música no carrossel da bagagem, os dentes a apodrecer pela raiz, a dor de me exprimir, esta miragem de voar através de continentes e crenças, o caloroso braço erguido, uma asa que se estende do topo da figueira à árvore do lis, aterrando, acreditando que a terra chega tão longe, tão perto de algo sonhado

Notas de Rodapé
quarta-feira, setembro 05, 2007
Caracteres móveis - Charles Baudelaire
terça-feira, setembro 04, 2007
segunda-feira, setembro 03, 2007
Antologia Improvável #249 - Miguel Torga
VOZ
Era uma voz que doía
Mas ensinava.
Descobria
Mal o seu timbre se ouvia
No silêncio que escutava.
Paraísos, não havia.
Purgatórios, não mostrava.
Limbos, sim, é que dizia
Que os sentia,
Pesados de covardia
Lá na terra onde morava.
E morava neste mundo
Aquela voz.
Morava mesmo no fundo
Dum poço dentro de nós.

Libertação / Líricas Portuguesas. 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)
Era uma voz que doía
Mas ensinava.
Descobria
Mal o seu timbre se ouvia
No silêncio que escutava.
Paraísos, não havia.
Purgatórios, não mostrava.
Limbos, sim, é que dizia
Que os sentia,
Pesados de covardia
Lá na terra onde morava.
E morava neste mundo
Aquela voz.
Morava mesmo no fundo
Dum poço dentro de nós.

Libertação / Líricas Portuguesas. 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)
domingo, setembro 02, 2007
Figuras de estilo - Almeida Garrett
Não me lembra que Lord Byron celebrasse nunca o prazer de fumar a bordo. É notável esquecimento no poeta mais embarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o enjoo, a mais prosaica e nauseante das misérias da vida! Pois num dia destes, sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água, enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo.
Fumemos!

Viagens na Minha Terra
(retrato de Garrett por Columbano Bordalo Pinheiro, pormenor)
Fumemos!

Viagens na Minha Terra
(retrato de Garrett por Columbano Bordalo Pinheiro, pormenor)
sexta-feira, agosto 31, 2007
Na morte de Alberto de Lacerda
Do muito que se passou nestes dias de férias, a morte de Alberto de Lacerda foi o que mais me tocou. Era o meu poeta preferido, dos vivos, & agora um entre os mortos. Autor da palavra justa, precisa, essencial, musical, oficinal como encaixes perfeitos. As palavras, «quase todas a mais» no meio da adiposidade verbal contemporânea, da banalidade, do lugar-comum que carregamos, como um castigo. Tive a honra de o antologiar, com José Duarte, no Poezz ; e a desfaçatez de incluí-lo aqui, na «Antologia Improvável», onde continuará a aparecer, e um pouco por todo o blogue.
sexta-feira, agosto 17, 2007
sublime porta
Amolece-te a vontade
o vapor do banho turco.
A memória de há pouco
todo o querer já passou.
o vapor do banho turco.
A memória de há pouco
todo o querer já passou.
quinta-feira, agosto 16, 2007
Tele-tabloidismo
Passo os olhos pelos telejornais e vejo um alinhamento inane no da RTP1: ao Iraque segue-se a ambulância de Arcozelo, mais o fogo-posto em Macinhata que antecede o alarme do Dow Jones. O da RTP2, depois que liquidaram o interessante projecto de Henrique Garcia (síntese do dia, seguido de tema de desenvolvimento com entrevista), está remetido à irrelevância do seu formato e das suas apresentadoras. Os da RTPN, pese embora o profissionalismo de Ana Fonseca, não descola do pecado original daquela informação do Monte da Virgem, que aos vinte minutos já está a tratar das transferências futebolísticas. Paupérrimo. Depois há o da tvi, que nem sei como é. Quando, à terça, me lembro de Miguel Sousa Tavares, oiço-o, sempre com interesse, faço outra coisa nos intervalos e quando ele acaba desando, que não tenho pachorra para as duas jarrinhas que o pontuam (do Peres Metelo, esqueço-me sempre...). Resta a sic, a negregada sic, com o refocilar na lama das desgraças alheias. E o pior, é que fazem aquilo por puro arrebanhar de audiências, com ar tristonho, cabisbaixo, resignado; sem o entusiasmo grunho da tvi, que julga estar a informar, tal como pensava que podia dar (e deu) notícias do big brother no seu simulacro de telejornal. Mas o que me compunge verdadeiramente é aquela prosápia de grande jornalismo a que a sic-notícias deita mão, para depois se ficar por mais umas mortes no ip3, nas criancinhas maltratadas, nos doentinhos miseráveis. Não fora o Mário Crespo no jornal das 9 (quem (me) diria!?), e não haveria nada apresentável em serviço diário noticioso nos canais portugueses. Mas eu a essa hora estou a jantar, e não vejo televisão.
quarta-feira, agosto 15, 2007
domingo, agosto 12, 2007
Antologia Improvável #248 - Francisco Bugalho
OBSESSÃO
Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.
Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...
Sobre um lago onde, em sossego,
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego...
E ao longe o cantar morreu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim.

Margens / Líricas Portuguesas. 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)
Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.
Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...
Sobre um lago onde, em sossego,
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego...
E ao longe o cantar morreu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim.

Margens / Líricas Portuguesas. 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)
sábado, agosto 11, 2007
Figuras de estilo - Antunes da Silva
As terras, com o decorrer das horas, ficam empapadas de água, sufocadas de um mistério destemido por um largo intervalo, e as nuvens, como que guiadas por um vento de almas, vêm de casco de rolha à desfilada, juntando-se todas por cima da herdade, manchando-a de negume. Fogem os bichos das encostas, acoitando-se na largura da paisagem; encolhem as aves os bicos nas ramagens. Ao longe, com a névoa da tarde o dia fez-se noite por um espaço de minutos, e um vento leonardo regouga ao rés da terra, uh! uh! uh!, num vaivém preverso, inquietante -- e parece que o vento insulta os homens que estão no monte, reunidos num almoço tranquilo.

Suão
sexta-feira, agosto 10, 2007
quinta-feira, agosto 09, 2007
Antologia Improvável #247 - Armindo Rodrigues (2)
JORNAL
De ponta a ponta do jornal
percorro o mundo de ponta a ponta.
Por toda a parte,
por toda a parte,
há ódios, vergonhas, assassinatos,
traições, misérias, desastres, guerras,
chapadas de sol e pastas de esterco,
pessoas que morrem com medo ou com esperança,
que valem o mesmo à hora da morte,
crianças que nascem alheias a tudo
e em breve andarão no mesmo tumulto.
Por toda a parte,
por toda a parte,
a vida me chama
com milhões de vozes.
Voz Arremessada ao Caminho
De ponta a ponta do jornal
percorro o mundo de ponta a ponta.
Por toda a parte,
por toda a parte,
há ódios, vergonhas, assassinatos,
traições, misérias, desastres, guerras,
chapadas de sol e pastas de esterco,
pessoas que morrem com medo ou com esperança,
que valem o mesmo à hora da morte,
crianças que nascem alheias a tudo
e em breve andarão no mesmo tumulto.
Por toda a parte,
por toda a parte,
a vida me chama
com milhões de vozes.
Voz Arremessada ao Caminho
quarta-feira, agosto 08, 2007
Figuras de estilo - João Sarmento Pimentel
-- Como?!
-- Pois é verdade, Senhor Major. Aquele refinado tratante fez mal aqui à minha filha, e agora, pelos modos, está-se nas encolhas para o que prometeu.
-- Não diga! e voltando-se para a cachopa que, de olhos baixos e lenço embiocado fingia vergonha: a menina como se chama?
-- Casimira, uma sua criada, senhor Major.
-- Boa fazenda, não há dúvida nenhuma, boa fazenda! mas estraga-se muito entre as pernas. Todavia eu vou já mandar chamar esse grandíssimo putanheiro e se ele não reparar o bem que fez, qual mal, nem qual carapuça, que lhes soube, a ambos a favos de mel, adivinho eu e a menina Casimira com essa afoiteza o confirma! leva correccional pelo lombo, olá se leva, pois um bocado destes, quem é o safado que atreve a passá-lo ao estreito sem a vaselina da Santa Madre Igreja?!

Memórias do Capitão
terça-feira, agosto 07, 2007
Esta luta pelo poder no bcp entre dois membros do opus dei -- os tais que procuram alcançar a santidade pelo trabalho -- é tudo menos beatífica. Se houvesse dúvidas a respeito da natureza humana, o espectáculo que dá o banco, urbi et orbi, no meio de muitas persignações e genuflexões, calculo, seria suficientemente esclarecedor. O mando, o doce mando é que nos move; nas tintas para nosso senhor, ámen. Se calhar foi ELE, enjoado, que deu cabo do sistema informático na ag de ontem. Muita vez terão de cingir o cilício para remissão, deus lhes valha.
segunda-feira, agosto 06, 2007
domingo, agosto 05, 2007
Antologia Improvável #246 - Sidónio Muralha
ROMANCE
Depois daquela noite os teus seios incharam,
as tuas ancas alargaram-se;
e os teus parentes admiraram-se
e falaram, falaram...
Porque falaram duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural?
Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval...
Mas tudo terminou porque falaram.
Tu fraquejaste e tudo terminou.
-- Os teus seios desincharam,
só a tristeza ficou.
Ficou a tristeza duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural...
-- Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval...

Passagem de Nível
(desenho de Fernando Lemos)
Depois daquela noite os teus seios incharam,
as tuas ancas alargaram-se;
e os teus parentes admiraram-se
e falaram, falaram...
Porque falaram duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural?
Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval...
Mas tudo terminou porque falaram.
Tu fraquejaste e tudo terminou.
-- Os teus seios desincharam,
só a tristeza ficou.
Ficou a tristeza duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural...
-- Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval...

Passagem de Nível
(desenho de Fernando Lemos)
sábado, agosto 04, 2007
Caracteres móveis - E. H. Gombrich
É mais importante conhecer Shakespeare ou Miguel Ângelo do que «fazer investigação» a respeito deles. Pode a investigação não fazer surgir nada de novo, mas do conhecimento brota sempre prazer e enriquecimento. Parece mil vezes lamentável que as nossas universidades estejam tão organizadas que não se dê por esta diferença. Muito do mal-estar das ciências humanas poderia desaparecer do dia para a noite se se tornasse claro que não precisam imitar as ciências exactas para continuarem a ser respeitáveis. Pode haver uma ciência da cultura, mas pertence à antropologia e à sociologia. O historiador cultural quer ser um académico, não um cientista. [...] Podemos ter desconfiança quanto às intepretações actuais de Shakespeare ou ao modo como Bach é hoje executado e querer chegar à verdade nessas matérias. Todavia, em toda esta investigação o que o historiador cultural verdadeiramente ambiciona é servir a cultura, e não alimentar a indústria académica.

Para uma História Cultural
(tradução de Maria Carvalho)
sexta-feira, agosto 03, 2007
quinta-feira, agosto 02, 2007
Antologia Improvável #245 - João de Barros (5)
POEMA D'AMOR
Não me andais vós a enganar
olhos que tanto me olhais?
Quase que morro ao pensar
se é meu vosso doce olhar
ou se comigo brincais.
Abandonei meus cuidados
ao ver-vos, Senhora minha;
julguei de todo passados
os dias amargurados,
duma tristeza daninha...
...Que não podia cuidar
que os olhos com que me olhais,
me pudessem enganar,
ou me pudessem matar
não me olhando nunca mais.
Descuidoso e alegre via
só risos no pensamento;
o meu coração vivia
sem sombra de dor sombria,
sem sombra de sofrimento.
Vivia só para amar
vosso olhar com que me olhais,
não me podendo lembrar
que se podiam tornar
vossos olhos desleais.
Um dia -- porquê bem sei --
imaginei-vos traidora;
meus cuidados retomei,
a minha tristeza achei
por vossa causa, Senhora.
Hoje sofro ao duvidar
-- olhos que tanto me olhais --
se é meu vosso doce olhar
ou se me andais a enganar
ou se comigo brincais.

Algas
Não me andais vós a enganar
olhos que tanto me olhais?
Quase que morro ao pensar
se é meu vosso doce olhar
ou se comigo brincais.
Abandonei meus cuidados
ao ver-vos, Senhora minha;
julguei de todo passados
os dias amargurados,
duma tristeza daninha...
...Que não podia cuidar
que os olhos com que me olhais,
me pudessem enganar,
ou me pudessem matar
não me olhando nunca mais.
Descuidoso e alegre via
só risos no pensamento;
o meu coração vivia
sem sombra de dor sombria,
sem sombra de sofrimento.
Vivia só para amar
vosso olhar com que me olhais,
não me podendo lembrar
que se podiam tornar
vossos olhos desleais.
Um dia -- porquê bem sei --
imaginei-vos traidora;
meus cuidados retomei,
a minha tristeza achei
por vossa causa, Senhora.
Hoje sofro ao duvidar
-- olhos que tanto me olhais --
se é meu vosso doce olhar
ou se me andais a enganar
ou se comigo brincais.

Algas
quarta-feira, agosto 01, 2007
Figuras de estilo - Eugénio de Andrade
Em frente da porta de entrada havia uma arca enorme. Sei que nessas arcas arrumam os pobres tudo o que têm: a roupa do corpo, a roupa da cama, o milho para moer, o pão e a faca embrulhados num pano de linho grosseiro. Lembro-me do cheiro que sai da arca ao abrir -- e é um cheiro forte, são, de frutos naturais que a terra dá.

Prefácio a Os Amantes Sem dinheiro
terça-feira, julho 31, 2007
segunda-feira, julho 30, 2007
domingo, julho 29, 2007
Tug of War
Quando se fizer uma grande antologia do trabalho a solo de McCartney, será necessário algo equivalente aos antigos álbuns duplos «vermelho» e «azul» dos Beatles.Ele não foi apenas o mais popular dos «Fab Four», como o mais dotado de génio melódico. Autor de «Yesterday» a «Let It Be», passando por «Michelle», «Hey Jude» e inúmeras outras, foi dos quatro de Liverpool aquele que teve um percurso mais rico, embora cheio de altos e baixos, mas com composições que o redimem das tentações mais oportunisticamente comerciais. «Jet», «Band On The Run», «Silly Love Songs», «We All Stand Together» são alguns dos marcos assinaláveis desse caminho pejado de pequenas obras-primas, por vezes esquecidas num lado B dum single ou perdidas no meio da dezena ou dezena e meia de um Lp ou de um CD. Mas quem compôs «My Love» ou «Mull Of Kintyre» tem direito a todos os perdões e ao reconhecimento de todos os amantes da pop. Embora Lennon e Harrison tenham contribuído com o seu quinhão para manter acesa a chama mágica dos Beatles, é a McCartney que devemos a circunstância de ela continuar shining brightly -- pelo que fez, repito, antes e depois deles.
Tug Of War (1982) é um dos seus mais conseguidos trabalhos, não sendo alheia a esta constatação o concurso do produtor, George Martin, a quem já chamaram o «quinto Beatle»...
A música de McCartney costuma oscilar entre as evocações nostálgicas (musicais, líricas, vivenciais..) e a necessidade de intervenção em grandes temas da actualidade contemporâneas. Foi assim, por exemplo, com «Give Ireland Back to The Irish», em 1970. Neste LP são talvez mais abundantes as composições com carácter de intervenção: o racismo («Ebony And Ivory»), a Guerra Fria («Tug Of War»), a especulação bolsista («The Pound Is Sinking»). Em simultâneo, topamos com as sentidas evocações, directas ou indirectas, de outros tempos, em que Paul convida o seu ouvinte a aderir em conjunto às memórias evocadas. É o caso de «Ballroom Dancing», com um soberbo início num puxado piano quase ragtime; a presença de Ringo Starr em «Take It Away»; a piscadela de olho aos Beatles com a inclusão do refrão do velho «She Loves You» em «What's That You're Doing?» (única música em co-autoria, neste caso com Stevie Wonder); o dueto com o rocker Carl Perkins (autor de «Blue Swede Shoes») em «Get It» (o rock'n'roll foi sempre uma inspiração para McCartney); e, por todas, a sentida evocação, a amrgurada invocação de John Lennon, em «Here Today» -- propositada reminiscência de «Yesterday» --, em que se percebe a comoção diante do irreparável, após o assassínio daquele com que fez a dupla mais importante de toda a música popular, como se as coisas pudessem ter corrido de outra maneira entre ambos: «What about the night we cried? / Because there wasn't any reason left / To keep it all inside / Never understood a word / But you were always there with a smile // And if I say I really loved you / And was glad you came along / Then you were here today / For you were in my song / Here today». Referira-se ainda a colaboração de Andy Mackay, dos Roxy Music, de Denny Lane, ex-Moody Blues e ex-Wings, e, fazendo também a ponte com a segunda banda de Paul, da sua mulher, a malograda Linda McCartney, que soube ser ao longo de mais de duas décadas, não apenas a companheira devotada, como uma música indispensável pelo claro enetnedimento que ela possuía da personalidade musical do seu marido.
Termino falando de «Tug Of War», a já referida faixa inicial que dá título ao álbum, com um portentoso arranjo orquestral tão ao gosto de McCartney e Martin, perfeitamente harmonioso com a guitarra de Lane e com a secção rítmica; de «Wanderlust», um tema antológico com colorações épicas, uma espécie de rock-tambourin em que a percussão e os metais do Philip Jones Brass Ensemble quase nos transportam aos tempos de Monsieur Jean-Baptiste Lully, o compositor preferido de Luís XIV; finalmente, o aclamado «Ebony And Ivory», que para além das boas intenções conseguiu marcar o ano. Nem é um grande tema, mas não foi característica dos Beatles, nomeadamente de Paul McCartney, tornar o trivial sublime?
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