sábado, maio 16, 2026

o que está a acontecer

«Se vivesse ainda com os pais, não haveria na sua expectativa lugar para dúvidas: receberia, prenda única de aniversário, os afagos e as lamurientas falas da mãe, penitente do mal da pobreza: -- "Nem uma blusinha te posso dar, filha!"» Assis Esperança, Servidão (1946)

«Próximo da ponte de tábuas, um milhafre dá três voltas vagarosas ao rés da terra, imobiliza-se no espaço e baixa-se repentinamente, como tocado por um tiro. Daí a nada, levanta-se num esticão, e leva um pinto no bico. Por um momento, o voo da ave de rapina é um traço negro na paisagem morena da planície. E só o homem, pela janela, vê o assalto.» Antunes da Silva, Suão (1960)

«As virtudes civis e, sobretudo, o amor da pátria tinham nascido para os Godos logo que, assentando o seu domínio nas Espanhas, possuíram de pais a filhos o campo agricultado, o lar doméstico, o templo da oração e o cemitério do repouso e da saudade.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

1 comentário:

Manuel M Pinto disse...

«Quem fala é Camões pela boca de Paulo da Gama, da estirpe dos Vidigueiras. Seja qual for o intérprete, o pensamento é sempre do poeta. Ora aqui afigura-se-nos uma linguagem bastante criticista e, debaixo do ponto de vista de vinculação espiritual de indivíduos dum clã, muito pouco ortodoxa.
Que se deve concluir? Se, por um lado, Luís de Camões se nos entremostra nesta atitude reversa para com a fidalguia; por outro, se na vida se achou sempre desamparado, batido pelo infortúnio -- preso, primeiro, no Tronco de Lisboa, sem nenhum graúdo lhe acudir, tendo de alistar-se na milícia do Oriente a troco da libertação; depois no Tronco de Goa, por insolvência, cousa duns reles xerafins, com o célebre 'Fios-Secos'; morrendo à fome em Moçambique, a ponto de ter de comer de amigos -- nenhuma solidariedade encontrou na classe que então oferecia maior unidade e coesão: a aristocracia, a começar pelo rei, sempre mãos rotas para seus áulicos e gentis-homens.»
  Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)