«eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou para me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente;» Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)
«Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)
«"Pare, escute e olhe", lê-se nelas em letras desvanecidas. Precaução que agora parece absurda, mas que também antes já o era, pois por dia passavam ali apenas dois comboios: o que "subia" até Duas Igrejas e o que "descia" até ao Pocinho, onde entroncava na linha do Douro.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
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1 comentário:
«A certa altura dos Comentários de Correia, deparam-se-nos razões fortes que levam a crer que Luís de Camões não saiu de Lisboa, pelo menos para estudar. Este Manuel Correia planta-se perante nós como a Esfinge perante Édipo, pois, quando poderia ter deixado tudo em evidência, enturvou o mais que pôde. Estar-lhe-ia no ânimo. Era com efeito um homem fechado, de poucas falas, salvo quando tangia a sua tiorba de comentador em que dedilhava primorosamente as árias da mitologia e as fábulas da Antiguidade. Todavia há ocasiões com ele, como aliás com toda a espécie de patos-mudos, em que o silêncio equivale a uma confissão. Onde isso sucede mais vezes é à barra dos tribunais, o silêncio significando um testemunho, afirmativo ou negativo, consoante a maneira como é formulado o quesito.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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