errâncias
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*«O *Sr. Not, tão pobre de gestos e expressões como de letras é o seu nome,
aponta, na soleira da porta, um cão ladrando furiosamente para o céu, onde
os...
Há 1 hora
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005

Em 1979, os Aerosmith preparavam-se para entrar no vigésimo ano de existência. Em 2004 publicaram um álbum de covers , Honkin' on Bobo, uma revisitação a um património blues que nunca lhes foi alheio. Hoje quero falar deste meu LP, datado daquele ano. Primeiro, porque é do melhor bluesy-hard-rock americano da época, ainda muito pouco contaminado pela tralha mtv; depois, porque marca um fim de ciclo, a fase final dessa inocência do grupo de Boston, puros músicos duma certa América. Esta é a formação clássica dos Aerosmith, um quinteto composto por Steven Tyler (voz, harmónica, piano), Joe Perry (guitarras), Brad Whitford (guitarras), Tom Hamilton (baixo) e Joey Kramer (bateria). Tyler e Perry são dois executantes e dois compositores de excepção, funcionando regularmente em dupla. Nos nossos dias são peças do star system musical, mas do mais competente, mesmo assim, que este sistema tem. O mergulho nos blues e nos espirituais negros acima referido, mostra-nos essa fidelidade às raízes musicais.
Estou a passear pelos meus blogues favoritos e leio a notícia brutal num texto belo e triste. A Cristina Futscher Pereira, autora de «O Divino Almeida Garrett»
Tão calão, meu deus, e estupidamente distraído, que não tive a sensatez de escrever as duas linhas que se me impunham sobre o Jorge Reis, há dias enterrado no Père-Lachaise, e com quem privei várias vezes aqui em Cascais, onde ele tinha uma casa. Que figura!, que histórias!, que cultura!, que vida! O Matai-vos Uns aos Outros, prefaciado pelo Aquilino Ribeiro, é o seu livro mais conhecido, um thriller interessante, a escrita cuidada, noblesse oblige, pois então... Encomendem e leiam A Memória Resguardada (Editorial Escritor): o exílio e a clandestinidade: sobre a nudez forte da fantasia, o manto diáfano da realidade... Jorge Reis (pseudónimo de Atilano dos Reis Ambrósio), militante do PCP nos anos 40, muito indisciplinado ao que parece; sempre compagnon de route; amigo até às lágrimas de Vasco Gonçalves; maçon de grau trinta e... Uma vez convidei-o para falar, numa conferência cá em Cascais, sobre o autor de Andam Faunos pelos Bosques, que ele muito justamente idolatrava. «Paris, berço da língua de Aquilino?», era a pergunta e a tese dessa palestra, noite memorável na velha Torre de São Sebastião (Museu Condes de Castro Guimarães), casa cheia, Aquilino Ribeiro Machado presente, o Jorge Reis a falar sabiamente, apaixonadamente, calorosamente. Durante a conferência tirou uma pequena garrafa de uísque do bolso, e durante toda a sessão, enquanto falava com os circunstantes, tinha-a bem segura nas mãos, despejando de vez em quando o conteúdo no copo destinado à água do Luso.... Esta conferência está publicada, felizmente. O espólio dele -- o Jorge era de Vila Franca de Xira, terra de escritores!... --, espera-se que vá para o Museu do Neo-Realismo, que oportunamente lhe consagrou uma merecida exposição. Lembro-me doutra conferência memorável dele sobre o Dom Quixote, que pelo menos está gravada. Adorava os filetes de pescada do «Correio», na Areia, os melhores do mundo, dizia-me. O Jorge Reis deixou uma grande obra por fazer, notam os comentadores. Em quantidade, certamente. O que se dirá daqui a cem anos do Matai-vos Uns aos Outros e de A Memória Resguardada? Não estaremos cá para ler...
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.