domingo, abril 30, 2006

Antologia Improvável #127 - Lourdes Borges de Castro

E A MORTE À ESPERA

A vida a correr...
...E a morte à espera
Que a corrida acabe...

A vida a sorrir...
...E a morte à espera
Que o riso se apague...

A vida a cantar...
...E a morte à espera
Que o canto emudeça...

A vida a sonhar...
...E a morte à espera
Que o sonho feneça...

A vida a chorar...
...E a morte a rir...
Porque a vai levar...

Eterna no Tempo

sábado, abril 29, 2006

Diálogo

EU-- Vamos ver o Bambe?
FILHA + NOVA (desdenhosa) -- Não é Bambe!
EU -- Então?
FILHA + NOVA (assertiva) -- ...é o Baaami!!

Norton de Matos

Correspondências #43 - Norton de Matos a «um ilustre português»

[14 de Agosto de 1948]

Ex.mo Sr.

Vindo do Norte após alguns dias de parcial repouso, bem necessário depois de dois meses de grandes trabalhos, encontro a carta de V. Ex.ª.
Do meu Manifesto à Nação conclue-se o seguinte, quanto aos fins da caminhada política que iniciei:
a) Apresentar a minha Candidatura à Presidência da República e fazer dentro da lei o possível para que ela vingue;
b) Se ela vingar, nomear um Governo, cujos principais e quase únicos fins serão tomar as medidas necessárias para se passar ràpidamente de um regime de características totalitárias para outro que nem sombras delas tenha. A única maneira de se conseguir isto será realizar no mais curto praso a eleição de uma Câmara Constituinte.
Ora se a eleição dessa Câmara fôr, como não poderá deixar de ser sendo eu Presidente da República, inteiramente livre, estou convencido de que nela haverá deputados monárquicos, cuja eleição resultará de livre propaganda monárquica e que por certo nela proporão o que mais conveniente julguem para o restabelecimento do nosso país.
Como republicano liberal e parlamentar que sou, apenas me limito a aspirar a que a Constituição Política que essa Câmara der à nação, seja uma Constituição Republicana e que, consequentemente, em Portugal se entre numa 2.ª República, parlamentar e liberal, único regime que julgo capaz de lhe trazer a prestigiante, justa e humana grandeza pela qual sempre tenho trabalhado.
Mas nunca essa aspiração provocará em mim quaisquer actos que afastem a liberdade da eleição e das discussões ou deliberações da Câmara Constituinte.
Pode V. Ex.ª fazer o uso que quiser desta carta.
Sou, de V. Ex.ª, com a maior consideração,
M.to At.to e Obg.do
Norton de Mattos
In Os Dois Primeiros Meses da Minha Candidatura à Presidência da República

Boas maneiras

Elton John

sexta-feira, abril 28, 2006

Figuras de estilo #28 - Vergílio Ferreira

Pensar que um minuto depois de morto é igual a uma eternidade depois de morto -- que é igual ao tempo em que já não houvesse homens sobre a Terra. Tudo tão absurdo quando a ilusão se retira. Mas todos os actos se referenciam não tanto a quando se está vivo como a quando se está morto. Que significa a «dignidade» com que viveram os biliões de anónimos de há cem, mil, dez mil anos? Porque os que deixaram nome, deixaram ainda o nome para nos serem. É igual a não terem deixado.
Conta-Corrente 1

Vergílio Ferreira

quinta-feira, abril 27, 2006

estampa XXXIX

Georges de La Tour, São José, Carpinteiro
Museu do Louvre, Paris

Antologia Improvável #126 - Alexandre O'Neill (3)

PERFILADOS DE MEDO

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...

Poemas com Endereço / Poesias Completas

O'Neill
















Fotografia tirada daqui.

quarta-feira, abril 26, 2006















Que Camilo, o deste Tòssan!

estampa XXXVIII

Fernando Botero, Natureza Morta com Alaúde
Colecção particular
Quem não faz bem a uma pessoa, faz-lhe mal...
Gorki
Que ficará duma vida tão plenamente cumprida, prolongada nos filhos e nos netos, da bondade para além das vazias palavras de circunstância, praticada cada dia sem olhar a quem? Que ficará, senão a memória do terno riso sofrido da minha Mãe? Bondade e eternidade, imperfeitíssima rima.

Quase perfeito















Filmaço, também.

terça-feira, abril 25, 2006

Oh!

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que varridela!,
mas que vassoirada!!...

25 de Abril

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...é que nesse dia, o país começou a
viver

Rosto humano

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Salgueiro Maia
um homem grande
num país minúsculo

segunda-feira, abril 24, 2006

Antologia Improvável #125 - Carlos de Oliveira (4)

A ILHA

para a Ângela

A ilha era deserta e o mar com medo
de tanta solidão já te sonhava:
ia em vento chamar-te para longe
e longamente em espuma te esperava.

À cinza dos rochedos atirava
na grande madrugada adormecida,
já saudosos de ti, os braços de água,
sem ter acontecido a tua vida.

Sim, meu amor, antes de Zarco vir
provar o sumo e o travo à solidão,
no litoral de pedra pressentida
o mar imaginava esta canção.

E as lúcidas gaivotas desse tempo
talhavam como um voo o teu amor:
o início de lava e sal que deixa
(talvez) neste poema algum esplendor (1).

(1) A ilha hoje é um paraíso inglês
de orquídeas e renques orvalhados:
mister X e a cana do açúcar
mister Y, bancos, luz, bordados.

Ó Cesário, pudesses tu voltar
e deste cais onde não há varinas
ver os garotos na água a implorar
(sir, one penny) o oiro das neblinas.

Terra de Harmonia / Trabalho Poético

Carlos de Oliveira

domingo, abril 23, 2006

estampa XXXVII

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Almada Negreiros, Auto-retrato com Grupo
Centro de Arte Moderna (FCG), Lisboa