terça-feira, junho 14, 2005

Glásgua

É uma cidade da Escócia.

domingo, junho 12, 2005

Júlio Dinis

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Correspondências #4 - Júlio Dinis à sua sobrinha, e futura mulher, Anitas

Anitas
Não te escrevi logo que cheguei, mas não te fiz esperar muito, porque é esta a terceira carta que mando para o correio.
Dizendo-te que cheguei a salvamento a esta vila de Ovar e que continuo gozando uma boa disposição de corpo e de espírito, dou-te a única notícia que neste momento me é possível dar-te; a não ser que desejes que eu te fale no tempo porque nesse caso dir-te-ei que anteontem e ontem choveu desenganadamente, coisa de que muito gostei por já estar mal habituado a essas finezas do inverno, do qual vou sentindo saudades.
Ontem de tarde parecia-me um dia de magustos, pela escuridão, pela chuva e até pelo tocar dos sinos a defuntos. Tinha morrido não sei quem e, em homenagem, todos os sinos da terra executavam cabriolas atordoadoras.
Hoje aparece o tempo com uma cara menos rabugenta, mas já se pode andar pelas ruas sem receio de morrer de calor ou de voltar para casa com uma cor semelhante à de uma batata assada na fornalha.
Tudo isto me indica que o verão anda fazendo as suas despedidas, porque em breve nos vai deixar. Que vá, que vá; para falar a verdade, eu não hei-de morrer de saudades.
Brevemente haverá cá em casa a primeira desfolhada; o outro sinal de que está o inverno à porta. Eu já vou vestindo o meu casaco grosso para o receber como é devido, no momento de ele vir para aí de um momento para o outro.
E tu que fazes? Quando principiam as tuas férias e que fazes depois delas principiarem? Vens a Ovar, vais tomar banhos ou em que outra coisa te ocupas? Responde-me a estas perguntas, quando me escreveres. Faze visitas à mamã, tia, manos e a toda a família e supõe que te dá um abraço
Ovar, 28/8/1863.
o teu tio e sempre muito amigo
Joaquim Guilherme Gomes Coelho.
Cartas e Esboços Literários, edição de Egas Moniz

sábado, junho 11, 2005

Different strings

Quando pensava que o chamado rock progressivo, tão da minha predilecção, já havia dado tudo quanto tinha para dar, por exaustão, por autoplágio ou simplesmente por natural deriva para outras realidades sonoras (v.g. Gabriel, Hammill, Fripp), apareceram-me uns canadianos de Toronto -- aliás, já com meia dúzia de anos de estrada -- e um álbum intitulado sintomaticamente Permanent Waves (1980), como a querer dizer que havia mais rock para lá da new wave (enfim, já ela então também agonizante, ou em mudança). Guitarra potente, baixo criativíssimo com laivos jazzísticos, bateria pronta para tudo, sintetizadores q.b., voz adequada e facilmente identificável. Não me canso de os ouvir, desde essa época.

Geddy Lee

Guitarra-baixo e voz dos Rush Posted by Hello

quinta-feira, junho 09, 2005

Caracteres móveis #19 - Raul Brandão e Júlio Brandão

[...] o mundo ri-se, põe-se a rir do que não entende e magoa e até mata... Ri-se do que é elevado, ri-se do que é sagrado!
A Noite de Natal
(edição de José Carlos Seabra Pereira)

Raul Brandão

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quarta-feira, junho 08, 2005

Antologia Improvável # 17 - Adalberto Alves

O lenhador caminha curvado pelo peso.
Leva às costas séculos de madeira:
Queima-la-á para se aquecer um instante.
Oriente de Mim

terça-feira, junho 07, 2005

Humanidade

A doçura daquela
voz a tristeza daqueles
olhos o calor da
trompete de
Armstrong o segregado
desmentindo o ódio

Acabei de ouvir o «My Bucket Get's a Hole in It», no Let's Jazz em Público, de José Duarte, colectânea dedicada a Satchmo.

Louis Armstrong

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segunda-feira, junho 06, 2005

Fabulástico

Fabulástico... A minha filha Joana chegou-se-me cá a casa com esta... Fabuloso? Fantástico? Espantástico!...

domingo, junho 05, 2005

Caracteres móveis #18 - Adolfo Casais Monteiro

(...) a miséria da erudição portuguesa é esta: que os eruditos, ou tratam apenas de averiguar coisas que não interessam a ninguém, a não ser a outros eruditos, ou então deixam ainda mais intricados os problemas sobre os quais pretendem fazer luz.
Sobre o Romance Contemporâneo

Querelas literárias

A propósito da leitura dos dois ensaios que compõem o voluminho Sobre o Romance Contemporâneo, publicado em 1940 e redigido um par de anos antes, na prisão:
Casais Monteiro, um poeta menor, foi um excelente ensaísta, dos melhores do seu tempo. Havia então uma querela entre a chamada literatura humanista, neo-realista, que tinha os mais estrénuos defensores em Mário Dionísio e Álvaro Cunhal e, doutra parte, aqueles que, acusados de «psicologismo», elitismo e até de desumanidade -- porque não punham os problemas materiais do homem na primeira, ou na segunda, linha das suas preocupações enquanto artistas -- gravitavam em torno da revista presença. A história veio dar razão a Casais, a Régio e a Gaspar Simões, directores da folha coimbrã, não porque o outro lado não tivesse autores de primeira água, que os tinha, simplesmente porque o que sobrevive hoje dessa literatura tem que ver com questões de todas as épocas: por um lado, o homem visto como um problema total, não só material mas também espiritual; por outro, os aspectos da técnica literária, principalmente narrativa, que uma boa parte dos escritores política e/ou socialmente empenhados dominavam muito bem. A querela aludida acima, se hoje (nos) é risível, causou então fortíssimas polémicas, interessantíssimas historicamente, mas que actualmente seriam, mais do que intoleráveis, ridículas...

ETC

Pelo http://almocrevedaspetas.blogspot.com (estou para ver como é que o link sai) soube da morte de Eduardo Teixeira Coelho/ETC/Martin Sièvre, pseudónimo que utilizou. Não é um autor da minha formação, conheço-o mal, o suficiente, porém, para reconhecer à distância o seu enorme talento. Poderia talvez ter sido um nome mais conhecido na Europa da BD se as circunstâncias que lhe condicionaram o percurso artístico (que em grande parte desconheço, para além da desvantagem da nacionalidade) tivessem sido outras. Não obstante, fez parte, este ano, da lista de autores estrangeiros nomeados para um prémio do Festival de Angoulême, o mais importante de todos. Aqui fica uma homenagem.
Vinhetas de Eduardo Teixeira Coelho Posted by Hello

sábado, junho 04, 2005

Correspondências #3 - D. Francisco de Portugal a D. Rodrigo da Cunha, bispo do Porto

V. Senhoria sempre me faz mercês: eu as tenho por tão infalíveis como quem conhece o ânimo de V. S. e como quem lho não desmerece com o seu ânimo. Por cá, tudo são desastres: Francisco Rodrigues Lobo morreu afogado no Tejo, que até nas águas há ingratidões! Na desgraça foi poeta. E enfim era entre nós só o que imprimia. Mortes de fogo também não faltarão. De dar e tirar a vida servem os elementos. A D. Rodrigo Caldeirão não faltam versos castelhanos nem portugueses, inda que maus. Eu também atirei ao alvo mas errei, como costumo. V. S. o verá neste soneto, porque vai de outra letra para que se leia bem. Fico ao serviço de V. S. como sempre. A quem Deus guarde e toda esta casa pede benção.
Lisboa, a 6 de Dezembro de 1621.
Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal

Antologia Improvável #16 - Antero de Quental

EVOLUÇÃO

(A SANTOS VALENTE)

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onde, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem -- e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Sonetos Completos, edição de Oliveira Martins

quinta-feira, junho 02, 2005

Pintura e bate-chapas

AutoAlmada não é um stand de automóveis, AutoColumbano não fica na avenida lisboeta, AutoManta não se especializou no mítico modelo da Opel; são simples abreviaturas de auto-retratos de alguns pintores n'«os meus documentos».

AutoAlmada

Posted by Hello Um auto-retrato de Almada Negreiros

quarta-feira, junho 01, 2005

Sol de Junho

O sol de Junho irradia,
sem se extinguir a moinha
a chover-nos dentro.

Somos atravessados pela melancolia,
choro intenso de lágrimas secas.

Trazemos em nós o próprio feto,
que continuamente violentamos.

VI-2001