quinta-feira, janeiro 21, 2016

doença talvez não

«Doença talvez não. Mas o furto tinha para Silvino qualquer coisa de sensual, de lúbrico, o prazer dos amores proscritos e ameaçados, a excitação do corpo e dos sentidos -- e depois aquele moleza boa de animal saciado.»

Mário Zambujal, Crónica dos Bons Malandros (1980)

50 discos: 27 - DARKNESS ON THE EDGE OF TOWN - #1 «Badlands»


quarta-feira, janeiro 20, 2016

amamentar de esperança

«E, enquanto pausava, ficava num sorriso cheio de enlevo materno como que amamentando Henrique, ainda que só de esperança, mesmo depois de ele ter focado homem.»

Manuel Rui, Crónica de um Mujimbo (1989)

terça-feira, janeiro 19, 2016

50 discos: 26 - SONGS FROM THE WOOD (1977) #1 «Songs From The Wood»


no rescaldo duma greve derrotada

«De fora chegava um silêncio inquietante. Nem estoiro de bomba, taque-taque de metralhadora, nem ruído de veículos ou de patas de cavalo. Nada.» 

Ferreira de Castro, O Intervalo [1936] [in Os Fragmentos, póstumo, 1974]

50 discos: 25 - MEUS CAROS AMIGOS (1976) #1 «O que Será (À Flor da Terra)»


segunda-feira, janeiro 18, 2016

há, e motiva-se na 'vontade de poder'

«Haverá um pessimismo da força? Uma propensão intelectual para o que é duro, horrível, malvado, problemático na existência feita de bem-estar, de transbordante saúde, de abundância existencial? Haverá talvez um sofrimento  devido à própria sobreabundância?»

Friedrich Nietzsche, O Nascimento da Tragédia (1871)

sábado, janeiro 16, 2016

só uma música

Um disco histórico, uma daquelas obras que nos define como comunidade cultural. O resto é conversa fiada. Gravado no exílio em Paris, saído em 1971, na agonia do salazarismo sem Salazar, proibido no país (ah ah ah!, a pré-história...), aparece às escusas com olho camoniano. A emigração, a Guerra Colonial, a pobreza endémica, o marialvismo polltrão, a charlatanice social e política, o sebastianismo imobilista,  a censura castradora e ofensiva, a repressão policial a um povo ignaro, o desafio final num verso do Trinca Fortes, por isso rajada de metralha naquela apagada e vil bisonhice -- oh, plano de ajustamento & metas do défice mais a puta que os pariu.
Difícil a escolha de uma música neste Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades? Para mim, em por isso. Tomar balanço em toada quase medieval para o Angola (e o resto) não é nossa, com  a «Cantiga do Fogo e da Guerra». A letra, o poema -- pois les beaux esprits -- é de Sérgio Godinho.

BEATLE TRIBUTE



quinta-feira, janeiro 14, 2016

um momento da campanha

Quando um delegado sindical, salvo erro da Peugeot-Citroen de Mangualde, militante do PSD, recebendo  um folheto das mãos de Edgar Silva, lhe disse qualquer coisa como "nós sabemos quem é que nos defende", respondendo o candidato do PCP, visivelmente sensibilizado, com a pergunta "Posso dar-lhe um abraço?". 
E deram.
y lloro de ateísmo al vislumbrar / que las muchachas se pondrán viejitas

Mario Benedetti

50 discos: 23. CRIME OF THE CENTURY (1974) - #1 «School»


Parece que o Rick Davies não deixa que os álbuns dos Supertrampapareçam no YouTube. Fica, por isso, uma actuação a solo do Roger Hodgson.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

do princípio do mundo

«[...] Januário de Sousa, filho de Ana Maria e de pai incógnito, etc.; bastava deitar o rabo do olho à sua pele morena, lisa e macia, que nem a água passada a ferro na popa dos barcos, para ver que ele não tinha mais de vinte anos, apesar de os seus olhos parecerem exaustos por não se sabia quantas madrugadas do princípio do mundo.»

Ferreira de Castro, A Experiência (1954) 

2 + 2 = 5



terça-feira, janeiro 12, 2016

elogio dos livros de cavalaria

[...] a graça de tecer e historiar as aventuras, o decoro de tratar as pessoas, a agudeza e galantaria das tenções, o pintar das armas, o betar as cores, o encaminhar e desencontrar os sucessos, o encarecer a pureza de uns amores, a pena de uns ciúmes, a firmeza em uma ausência, e muitas outras cousas que recreiam o ânimo e afeiçoam e apuram o entendimento.»

Francisco Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia (1619)

spielberguiano



Eu ainda atravessei a Cortina de Ferro, e o lado de lá não tinha piada. A Ponte dos Espiões: apesar de algumas debilidades no argumento e de não ser um Spielberg de topo, faz-lhe jus. Tom Hanks, também, a si próprio. Para quem viu, a(s) minha(s) cena(s): o saltar do muro e o pular da cerca, observada(s) sobre carris.

50 discos: 22. BURNIN' (1973) #1 «Get Up, Stand Up»


segunda-feira, janeiro 11, 2016

David Bowie

De David Bowie (1967) a Black Star (2016), vão 49 anos (!) e, se bem contei, 26 álbuns de originais. Desses, tenho, hoje, 11-I-2016, cerca de um quarto, seis discos (2 LP + 4 CD), o que faz de mim um apreciador modesto, mas não indiferente. A saber: Aladdin Sane (1973), Low (1977), "Heroes" (1978), Scary Monsters And Super Creeps (1980), Heathen (2002) e The Next Day (2013). Todos os anteriores ao Aladdin Sane são para comprar, e tenho, pelo que li e já ouvi, muita curiosidade pelo Black Star.
A persona  de Bowie deixa-me indiferente, não é o meu universo, embora reconheça que há nela uma construção coerente com a música. Esta é que me interessa, pelo que tem de inconformismo entusiasmante, mesmo que haja cenas com Eno que não me comovem,ou os desastres de excessivo comercialismo (Let's Dance, 1983) que dele me afastaram, talvez por demasiado tempo.
Mas como me estreei com o pé direito, em 1980, com o Scary Monsters, o primeiro disco seu que comprei, ficar-me-á sempre esse som pouco resignado, que partilhou com outros nomes dessa geração, e que tal como ele permanecem interessantes: Peter Gabriel, Peter Hammill, Robert Fripp, Robert Wyatt.