segunda-feira, junho 10, 2019

«Vicious»

a propósito da morte de Luís Mourão

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Compro o jornal na loja da bomba de gasolina e vejo, na primeira página, a notícia da morte de Luís Mourão, um extraordinário ensaísta. Conheci-o há trinta anos, em contexto profissional, e tivemos um óptimo relacionamento. Tenho dois livros seus: Conta-Corrente 6 -- Ensaio sobre o Diário de Vergílio Ferreira (1990) e Um Romance de Impoder -- A Paragem da História na Ficção Portuguesa (1997).
Com ensaístas de gerações anteriores, como João Bigotte Chorão, recentemente falecido, aprendi que escrever sobre o que quer que seja -- e, por maioria de razão, sobre literatura -- exige que sejamos escritores; mais canhestros ou melhor sucedidos, não se pode partir para uma obra, literária ou outra, com vícios burocráticos e expectativas curriculares, sob pena de se negar o objecto de estudo e, já agora, ser portador de um razoável grau de indignidade. Com Luís Mourão aprendi que o ensaísta é também ele um criador, com todos os riscos que isso implica. Para mim, que sou de História, e valorizo os documentos -- sempre --, gostando pouco de fantasias, foi um ensinamento importante para escapar à condição de 'positivista utilitário', labéu que me foi atirado pedagogicamente por um bom professor, E. Gonçalves Rodrigues, em intento profiláctico dos meus arroubos radicais, prevenção de que nunca me esqueci.
Regressando a Luís Mourão, mal o reconheço nas fotografias; porém os depoimentos de amigos trazem-me a pessoa de há trinta anos. Tenho algumas cartas dele, talvez publique uma, no sítio próprio.

orquestrais & concertantes: Brahms, SINFONIA #2 (1877) - IV. Allegro con spirito / Chung

domingo, junho 09, 2019

Companhia Nacional de Bailado

vozes da biblioteca

«As nossas virtudes não são mais, na maior parte das vezes, que vícios mascarados.» François de La Rochefoucauld, Máximas (1664) (trad. Cristina Proença)

«Cada época histórica contempla-se no quadro e na mitologia activa do próprio passado ou de um passado tomado de empréstimo a outras culturas.» George Steiner, No Castelo do Barba Azul (1971) (trad. Miguel Serras Pereira)

«Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de acção.» E. M. Cioran, A Tentação de Existir (1956) (trad. Miguel Serras Pereira e Ana Luísa Faria)

orquestrais & concertantes: Chopin, CONCERTO para piano #2 (1830) - III. Allegro vivace / Rubinstein, Prévin

sábado, junho 08, 2019

vozes da biblioteca

«E mal o fogo destruiu o cadáver e as armas, / plantámos uma estrela num montículo, e, ao alto, / o seu remo de fácil manejo» António Barahona, Pátria Minha (1980)

«Lá fora, / Dizem que sou deste mundo.» José Pascoal, «A incerteza do poeta», Sobe Este Título (2017)

«Se o caminho é falso, é comigo... / Que linda voz me está a chamar!» José-Aurélio, «Primeiro poema do quarto assombrado», As Folhas de Poesia Távola Redonda (edição de António Manuel Couto Viana, 1988).

Orquestrais & concertantes: Dvorák, SINFONIA #9 (1893) - IV. Allegro con fuoco

erotica


Dahmane Benanteur

quinta-feira, junho 06, 2019

75 anos - 6 Junho 1944 - o Dia D

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vozes da biblioteca

«As irmãzinhas haviam-na abandonado num camarote sem ar e sem vigias: uma luz mortuária por cima da cabeça, sacos de plástico para o enjoo arrumados numa bolsinha fatídica, o beliche estreito e uma mistura dos cheiros que só existem nos barcos -- salitre, tintas quentes e o amoníaco entorpecente das latrinas muito próximas.» João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988)

«Como se as pupilas que todos os dias o viam o esmagassem: pupilas de escravos, pupilas de homens que temiam dizer o que pensavam -- homens mutilados.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959) 

«Quanto ao pequeno drama pessoal de Nacib, sùbitamente sem cozinheira, dele apenas seus amigos mais íntimos tomaram conhecimento imediato, sem lhe dar, aliás, maior importância.» Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela (1958)

terça-feira, junho 04, 2019

estampa CCCLXIV - Salvador Dalí


Jovem Virgem Auto-Sodomizando-se pelos Cornos da Própria Castidade (1954)

50 discos: 28. COMES A TIME (1978) - #7 «Already One»



segunda-feira, junho 03, 2019

Agustina Bessa Luís: a vida continua

Quando morrem os grandes escritores, a vida continua para eles. Agustina Bessa Luís está nesse clube: trabalhou a frase com a mestria de quem sabe que a literatura não tolera lugares-comuns e encorpou os livros com a sabedoria de quem vira a comédia humana do avesso; desde cedo que a sua obra teve ampla recepção crítica; mas mais importante que isso, ela pertence ao número restrito de romancistas que são objecto de conversa de sala e de café por parte dos leitores. Merecidamente, o tempo em que viveu será também o tempo de Agustina, uma inevitabilidade.

vozes da biblioteca

«A minha mãe, viúva, vendo-se sem marido e sem amparo, resolveu-se chegar aos bons para ser um deles, e foi viver para a cidade, onde alugou um buraco, e começou a fazer comida para os estudantes, e a lavar a roupa dos moços de estrebaria do comendador da Madelena, e assim começou a frequentar as cavalariças.» Anónimo, Lazarilho de Tormes (1554) (trad. Ricardo Alberty)

«Acontece que, como sabem, sou muito vulnerável à beleza feminina.» Philip Roth, O Animal Moribundo (2001) (trad. Fernanda Pinto Rodrigues)

«Winston Smith, de queixo fincado no peito num esforço para fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não tão rapidamente, porém, que pudesse impedir um turbilhão de terra entrar com ele.» George Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949) (trad. L. Morais)

sábado, junho 01, 2019

orquestrais & concertantes: CONCERTO DE BRANDENBURGO #1 (c. 1718)- IV Menuetto - Trio I - Menuetto da capo - Polacca - Menuetto da capo - Trio II - Menuetto da capo / Abbado

vozes da biblioteca

«O chefe da estação, um gordo com os queixos amarrados num lenço de seda preta, o bonnet  de galão sujo muito posto ao lado, apareceu então, à porta da sala de bagagens, de charuto nos dentes.» Eça de Queirós, A Capital! (póst. 1825)

«O povo, esmagado debaixo do peso dos tributos, dilacerado pelas lutas dos bandos civis, prostituído às paixões dos poderosos, esquecera  completamente as virtudes guerreiras de seus avós.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão.» Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães (1957)

sexta-feira, maio 31, 2019

«Whole Lotta Shakin' Goin' On»

livros que me apetecem

Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, de Natália Correia (Ponto de Fuga)
Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves (Companhia dos Livros)
Marcha para a Morte!, de Shigeru Mizuki (Devir)
O Exílio e o Reino, de Albert Camus (livros do Brasil)
Os Deuses Têm Sede, de Anatole France (Cavalo de Ferro)
Romanceiro Cigano, de Federico García Lorca (Quetzal)
Viragem aos Oitenta seguido de Viagem a uma Terra Antiga, de Henry Miller (Vasco Santos Editor)

quarta-feira, maio 29, 2019

«The Village Green Preservation Society»

à maneira do Xerife de Nottingham

A imagem de um homem a quem a Autoridade Tributária, com a colaboração da GNR, acabava de confiscar um atrelado,  levando um cavalo pelo cabresto na via pública, com uma criança atrás com outro animal, foi das coisas mais degradantes que vi o Estado perpetrar, tantas vezes caloteiro (basta lembrar a demora no pagamento aos fornecedores, as dívidas a particulares e a empresas, sempre tarde a más horas).
É fácil contrapor a parcimónia com a divulgação da lista dos grandes devedores à banca, no mesmo dia em que se revela que o mesmo Estado aí injectou nos últimos anos cerca de 24.000.000.000€ (vinte e quatro mil milhões de euros). É fácil, e é isso mesmo que deve ser feito, independentemente de haver 'grandes devedores' que o são porque a conjuntura económica assim impôs ou, na arraia-miúda, muito vígaro especializado em sacar e fugir -- a questão é de princípio, Não é este, porém, o ponto de que me apetece falar, mas antes a facilidade com que o Estado comete excessos de autoridade.
Tudo leva a crer que acção de ontem configura um abuso de poder, aliás inadmissível. Num país civicamente exigente e consciente, coisa que o nosso não é (não se passa impunemente da miséria de subsistência dos pais no Estado Novo para a indigência moral 5G dos filhos na UE), já teriam rolado todas as cabeças abaixo do Centeno, cujos agentes (os menos responsáveis) actuaram como sicários do Xerife de Nottingham.
O abuso de poder foi possível porque um dirigente qualquer das finanças quis mostrar serviço, contando para isso com a falta de discernimento de comandantes da GNR, cujas cabeças devem servir apenas para usar a boina; o abuso de poder foi travado porque, felizmente, vivemos numa sociedade democrática em que a imprensa é livre, convém nunca esquecer.

vozes da biblioteca

«Nas minhas mãos o violino alado percorre distâncias incalculáveis no sonho.» António Barahona, «Pássaro-Lyra», Pássaro-Lyra (2002)

«O outono é isto -- / apodrecer de um fruto / entre folhas esquecido.» Eugénio de Andrade, «Adagio», Primeiros Poemas (1977)

«Passividade suave e feiticeira / tentou-me, em tua boca mal pintada, / nos teus olhos azuis d'alucinada, / na estopa a rir da tua cabeleira.» Edmundo de Bettencourt, «Passividade», presença #1, 10-III-1927

terça-feira, maio 28, 2019

criador & criatura


Maurício de Sousa e Mônica


segunda-feira, maio 27, 2019

«O lenço da Carolina»

as eleições por cá

1. o desapontamento. Não tinha grandes ilusões sobre as possibilidades de êxito do Livre, embora alimentasse uma esperança mínima. O momento foi há cinco anos; agora será difícil, mas o projecto é interessante. Uma candidatura mobilizadora em Lisboa e noutras cidades grandes talvez possa ainda viabilizá-lo. Também lamento o insucesso do candidato do Aliança, mas só mesmo nestas eleições.

2. a indiferença. A vitória do PS, esperada (ouvir o cabeça de lista a falar na defesa da Natureza, depois de ter dado a cara pelo aeroporto em Alcochete, um atentado ambiental que a ser aprovado terá efeitos irreversíveis, deixou-me de sorriso amargo); a eleição do deputado do PAN: embora o reforço da ecologia seja importante, trata-se de um partido de fanáticos que têm nos despolitizados e nos patetas da humanização dos animais um pasto eleitoral inesgotável; a troca entre BE e CDU: bons candidatos, nada a dizer, o grupo a que pertencem, pela parte portuguesa ficou na mesma.

3. o contentamento. a derrota da falta de vergonha, especialmente do inenarrável cabeça de lista do PSD, péssima escolha do presidente do partido, como se viu pela campanha miserável; a derrota clamorosa do CDS, que chega a ser cómica. Talvez de manhã acorde e fique a saber que o CDS desceu para a casa dos cinco por cento, na companhia do PAN -- e não é essencialmente por culpa do cabeça de lista, já todos o conhecemos, mas antes daquela incrível líder. Nos dois casos, a derrota da política  dos casos e do mero oportunismo. Já agora, é também para rir o espetanço do candidato da cmtv e do inefável causídico de província. O povo foi sábio em ter ido para a praia, em vez de lhes dar o voto.  

sábado, maio 25, 2019

erotica


Alexey Tishevsky

orquestrais & concertantes: Debussy, O MAR (1905) - III. Diálogo do Vento e do Mar / Abbado

vozes da biblioteca

«Automaticamente os seus dedos nodosos iam enrolando novo cigarro, enquanto o ombro esquerdo procurava suporte no tronco rugoso dum sobreiro.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«E como a corroborar as últimas palavras da mulher, um criado passou pelo convés agitando uma grande campainha: -- miniatura de sino dobrando tristeza: -- avisando aos estranhos que estavam a bordo, que deviam abandonar o navio, porque este ia partir.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«Já então um pouco obeso, mas empertigado por aquela volúpia do próprio mérito, que é sugestiva como um cartaz, -- principiava a usar o seu famoso chapéu preto de grandes abas, que implantava um pouco à banda, com audácia, sobre penungens dizimadas pela seborreia.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

Varoufakis apela a voto no LIVRE e em Rui Tavares

sexta-feira, maio 24, 2019

lido


quarta-feira, maio 22, 2019

vozes da biblioteca

«Olhava lá do alto daquele combro / a melodia, / tão merencória na infância, ata- / viada de fitinhas no chapéu de palha» António Barahona, Noite do Meu Inverno (2001)

«Ontem entrei numa baiuca infame, / Numa taberna de bandidos reles -- / Pois que eu desci às espirais misérrimas / Do Lameiro de Job!...»  in Herberto Helder, Edoi Lelia Doura -- Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (1985)

«Trago palavras como bofetadas / e é inútil mandarem-me calar / porque a minha canção não fica no papel.» Manuel Alegre, Praça da Canção (1965) 

Camões, grande Camões


Chico Buarque, Prémio Camões 2019


terça-feira, maio 21, 2019

«Gluttony»

em quem vou votar

Só ontem, com pena, vi um debate por inteiro, mas espreitei os outros e tenho apreciado a postura correcta e segura de Pedro Marques, ao contrário das chinelices do Rangel que provocam vergonha alheia. Se fosse de direita, votaria em Paulo de Almeida Sande, apesar daquela ficção partidária que o apoia; e gostei do Vasco Santos, o tipo sensacional do MAS, apesar de mas. Há outros candidatos interessantes, em vários partidos, mas eu quero mesmo é votar em Joacine Katar Moreira, com quem aliás, devo estar em desacordo em várias coisas, mas creio que não no essencial.

«Drinkin’ Wine Spo-Dee-O-Dee»

segunda-feira, maio 20, 2019

vozes da biblioteca

«Eram lagartos enormes e tinham o pescoço enrugado como o do velho e os mesmos olhos miúdos e misteriosos.» José Eduardo Agualusa, «Dos perigos do riso», Fronteiras Perdidas (1999) 

«No ritmo do mundo nasceu a Perfídia envolvida pela volúpia.» Ruben A., «Sonho de imaginação», Páginas I (1949) / Antologia (2009)

«Uma poeirada medonha... tudo absolutamente seco, até mesmo a nossa pele velha e encortiçada.» Henrique Abranches, «Diálogo do Tempo Morto», Diálogo (1962)

sábado, maio 18, 2019

para que fique

Não trocava o Bruegel de Salgado por toda a Colecção Berardo.

«The Musical Box»

sexta-feira, maio 17, 2019

quinta-feira, maio 16, 2019

vozes da biblioteca

«Cansado da mesquinhez das terras arrendadas, o pai trabalhava agora na mina de volfrâmio dos ingleses como carpinteiro-escorador.» José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado (1948)

«Lamenta não poder ver a escuridão, porque lhe cobrem a vista novelos de claridade absurdamente negros: novelos ou passadeiras de matéria luminosa que, do que supõe o tecto, descem, pesados, para o que supõe o chão.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

«Uma cabeça pequenina, cabelo rapado e com o maxilar inferior tão largo e comprido que parecia impedi-lo de fechar completamente a boca.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

quarta-feira, maio 15, 2019

50 discos: 11. CHEAP THRILLS (1968) - #7 «Ball And Chain»



vozes da biblioteca

«O corpo a corpo do espaço e da escultura» Sophia de Mello Breyner Andresen, «Roma», Musa (1994)

«Tombo de joelhos no ruído da madeira, espero a boca acossada mordendo a minha nuca.» Ana Marques Gastão, «nuca», Lápis Mínimo (2008) / Leya Poemas (2009)

«E a vida vai tecendo laços / Quase impossíveis de romper: / Tudo o que amamos são pedaços / Vivos do próprio ser.» Manuel Bandeira, A Cinza das Horas (1917) / Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira (1984)

terça-feira, maio 14, 2019

segunda-feira, maio 13, 2019

«Mama»

vozes da biblioteca

«A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam.» José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (1995)

«O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão.» Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães (1957)

«Súbito uma revoada de vozes escapou-se em surdina do âmago da igreja e derramou pelos claustros o clamor inquietante duma dolência arrastada.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

domingo, maio 12, 2019

sexta-feira, maio 10, 2019

livros que me apetecem

As Pessoas Felizes, de Agustina Bessa Luís (Relógio d'Água)
Ficções da Memória, de Alberto da Costa e Silva (IN-CM)
Hotel Silêncio, de Audur Ava Ólafsdóttir (Quetzal)
Obra Reunida, de Manuel de Lima (Ponto de Fuga)
Santos e Pecadores, de Graham Greene (Livros do Brasil)
Sophia de Mello Breyner Andresen, de Isabel Nery (A Esfera dos Livros)


no papo:
Banhos de Caldas e Águas Minerais, de Ramalho Ortigão (Quetzal)

vozes da biblioteca

«-- dentro do poço, com sua febre; dentro da horta, sem ter seu curso; na longa espera de sua demora / Pedro Venâncio selava o selo de ser intruso no vão comércio de seu disfarce.» Mário Chamie, «Pedro Venâncio», Antologia da Novíssima Poesia Brasileira (ed. Gramiro de Matos e Manuel de Seabra, s.d.).

«eram belas as túnicas de argel e as velhas botas espanholas que te / dera o último amante.» José Agostinho Baptista, Deste Lado Onde (1976)

«Nós, os preguiçosos, dados ao sonho / Incomportável de uma ferida / Nas sociedades de consumo, somos / Aqueles que se lembraram das canções / Perdidas na falência dos campos.» Rui Almeida, Muito, Menos (2016) 

quinta-feira, maio 09, 2019

estampa CCCLXII - Camille Pissarro


No Bosque (1864)

quarta-feira, maio 08, 2019

a 'crise'

Quem não perceba peva de orçamentos e regimentos, como eu, que tenho assistido divertido ao desenrolar da crise, será útil assistir às entrevistas de Costa e Rio à tvi e tirar as suas próprias conclusões. Quem, a certa altura, me pareceu também divertido foi Jerónimo. Catarina Martins lembrou-me aqueles discos de histórias em 45 rpm que eu tinha em miúdo: falou em palco, e a actriz saiu de dentro dela. Já a Cristas de sábado tinha pânico naqueles olhos, e foi bem feito.

50 discos: 41. CAVALO DE PAU (1982) - #7 «Cavalo de Pau»



terça-feira, maio 07, 2019

segunda-feira, maio 06, 2019

lido


«O ouro era o banco onde a mulher minhota depositava os seus lucros» (p. 6)


vozes da biblioteca

«O meu conto é amador de sangue azul; adora a aristocracia.» Álvaro do Carvalhal, Os Canibais (póst. 1868)

«Quando, há muitos anos, o Sr. Trocato me contou as razões por que não acreditava na história que corria sobre a morte do Dr. Júlio Fernandes da Silva e da mulher, eu não tive dúvida de que aquilo foi um crime porque me lembrei logo da minha tia Suzana.» António Alçada Baptista, Tia Suzana, Meu Amor (1989)

«Todos o conheciam naquele bairro populoso, onde famílias mais que remediadas em ganhos ou rendimentos haviam instalado os seus lares.» Assis Esperança, «O Senhor de Morgado-Martins», O Dilúvio (1932) 

sábado, maio 04, 2019

lido


«os mares de Homero deixaram / de trazer, esbeltas, as suas naves // em nome dos sem nome, continua. / [...]» (p. 71)



orquestrais & concertantes: Beethoven SINFONIA #2 (1802) III. Scherzo: Allegro -IV. Allegro molto / Bernstein

lido


«O inferno é frio.» (p. 103)

sexta-feira, maio 03, 2019

quarta-feira, maio 01, 2019

terça-feira, abril 30, 2019

lido


«16 de Dezembro. Às 6h da manhã, do posto de observação dos morros, avistam-se ao longe, numa nuvem de poeira, numerosas forças que, trazendo os cavalos à rédea, se aproximam do Calueque, vindas do Sul. Oito minutos depois, a observação reconhece três peças de artilharia e mais cavaleiros em marcha na mesma direcção. Uma patrulha de dragões confirma a nova, -- Franck[e] chegou ao Cunene!» (p. 131)

segunda-feira, abril 29, 2019

estampa CCCLXI - Béla Cikos Sesija


Pranto na Morte de Cristo

vozes da biblioteca

«Até àquele dia de Junho de 1914 nunca fora pronunciado, em Vila Velha e no seu Concelho, o nome de Serajevo.» Álvaro Guerra, Café República (1984)

«Até hoje, e já lá vão muitos anos, nunca vi o mar, embora dele tenha ouvido contar muitas histórias, e, não sei porquê, parece-me que o conheço todo só por causa daquela fotografia.» Alves Redol, Fanga (1943)

«No seu entusiasmo, Lucinda inclinara-se, com o peito muito branco na abertura do roupão.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

domingo, abril 28, 2019

sábado, abril 27, 2019

Da vantagem de um Presidente culto

Leio deleitoso, no último JL, o discurso do Presidente da República na sessão comemorativa do centenário de Fernando Namora, no dia 15 de Abril, na sua Casa-Museu em Condeixa -- evento que desafortunadamente foi ofuscado pela tragédia do incêndio de Notre-Dame. Não sei se o discurso teve mão fantasma, nem isso é muito importante, pois reconhece-se a caneta de Marcelo naquelas palavras, que além disso foram acrescentadas por vários improvisos do orador, reza a notícia; o que me interessa relevar é mesmo uma noção assaz nítida que o PR mostra do património literário português, parcela das mais relevantes do património cultural do país, no seu todo.
A propósito de Namora e da efeméride, o Presidente referiu-se a José Rodrigues Miguéis, Ruben A., Ferreira de Castro, Miguel Torga, Carlos de Oliveira e Vergílio Ferreira -- ou seja, cerca de um terço do cânone ficional português do século passado --, a que juntou os norte-americanos John Steinbeck e Erskine Caldwell, e Óscar Lopes, como referência de autoridade.
Não é um ensaio, que seria descabido, mas um discurso de circunstância. que não deixa de ser reconfortante em face do zero das elites políticas, com as honrosas e parcas excepções. E porquê reconfortante? Por se esperar que o Presidente não seja apenas a muralha contra o populismo de que falou Ferro Rodrigues, mas também contra a barbárie instalada que não conhece, e portanto não quer saber do património cultural em sentido lato, a não ser que o mesmo lhe possa dar umas medalhinhas da Unesco para trazer à lapela (que podiam ser essas como as do Guiness, tanto faz, desde que em estrangeiro).

orquestrais & concertantes:: Bartók, CONCERTO PARA ORQUESTRA (1943) III. Elegia / Ozawa

vozes da biblioteca

«A vila, cercada de seus muros e torres.» Mário Avelar, Seduções do Infante (1995)

«Agradeciam quando eram os filhos das outras a morrer, / não os delas, mesmo que os filhos das outras / tivessem sido assassinados pelos seus próprios filhos.» Ana Luísa Amaral, Escuro (2014)

«E tudo se resumiu à evidência do pó.» José Agostinho Baptista, Agora e na Hora da Nossa Morte (1998)

terça-feira, abril 23, 2019

aviõezinhos

Parece que, na semana passada, o deputado do PAN interrogou António Costa sobre a possibilidade de o aeroporto de Beja ser alternativa ao 'Portela+1'. Parece que o chefe do Governo não respondeu, ou terá respondido afastando a hipótese sem mais. Esteve mal, pois o que se quer de um governante, entre outras coisas, é que veja para além da conjuntura.
Não me apetece nem tenho tempo para tecer considerações, necessariamente parcelares, sobre a insistência numa solução arranjada à pressa, que não só mantém os riscos para os residentes em Lisboa e concelhos limítrofes, como os acrescenta e que será uma catástrofe ambiental irremediável. A Zero está em campo desde o início, e ainda bem. A sua avaliação é demolidora: «Todo este processo tem sido pautado por uma flagrante falta de transparência por parte do Governo, mesmo com sonegação de informação, e não permitindo qualquer escrutínio por parte de terceiros, sejam os cidadãos ou mesmo outras entidades públicas, precisamente o inverso daquele que é o espírito da lei, que pretende que uma Avaliação Ambiental, seja ela uma AIA ou uma AAE, seja um instrumento técnico de suporte à decisão, no sentido de garantir a melhor decisão possível.»
Mas a resistência não pode ser apenas legalista e institucional, tem de ser de todos, a começar pelos que vão sofrer na pele esta arbitrariedade. E bem me parecia que o povo da Margem Sul não iria fazer figura de rebanho para abate sem estrebuchar. Resistência inteligente, não violenta, de preferência com humor, que é a mais eficaz.
A acção de ontem, levada a cabo pelo até agora por mim ignorado grupo Rebeldes pela Vida, será, certamente, a primeira de muitas destes e doutros cidadãos que se dão ao respeito (as fotos e o filme).
Que ela tenha ocorrido numa sessão de aniversário do PS, mostra bem aquilo em que o PS se tornou; e que nessa sessão, em que dois gorilas engravatados atiram pelo ar o activista que interpelava a assembleia, fosse de justa homenagem a Alberto Martins -- sem querer comparar momentos políticos incomparáveis --, não deixa de ser uma triste ironia.
em tempo: não eram gorilas, mas agentes da PSP - Corpo de Segurança.





LIVRE - fica aí ao lado, até ao dia das eleições


Nota: não sou militante nem candidato a nada, apenas apoio com o meu voto.

segunda-feira, abril 22, 2019

lido


quarta-feira, abril 17, 2019

lido

José Oiticica,


"um conflito entre entidades privadas e os motoristas"

Não faço ideia se os motoristas têm razão ou não; por feitio, pendo sempre para os trabalhadores contra os patrões associados, mesmo quando me lixam o programa da Páscoa, como será o caso.
No entanto, há coisas um pouco mais importantes do que as disputas entre trabalhadores e patrões, e uma delas é o funcionamento do Estado. Por isso, é sem paciência que ouço o primeiro-ministro dizer que a luta laboral em curso se trata de "um conflito entre entidades privadas e os motoristas", o que, não sendo mentira, não chega para um político que se assume socialista. O que deveria dizer é que o país não pode estar à mercê de privados, e que a política tem agir em conformidade.
É um socialismo de caricatura, sem outro rasgo que não seja a conquista e manutenção do Poder, e por isso condenado (a indigência dos cartazes às eleições europeias, tratadas como se fossem legislativas é um eloquente exemplo da falta de rasgo da politicalha aparelhística).  O problema é que para lá dele, PS, a nível macropolítico não há nada, ou o que há -- com excepções de escasso peso eleitoral --, é feio: os partidos à direita são meros títeres dos interesses e do financismo prevalecente; à esquerda, os mortos-vivos do marxismo e os inconsistentes das chamadas políticas de inclusão ["a todos e a todas", e outras parvoíces] -- algumas, só algumas, porém válidas.
Para além disto, um lúmpen primário e silvestre que se alimenta e alimenta a boçalidade mediática,  sempre aproveitada por espertalhões.
António Costa limitou-se a repetir o que Rui Rio disse ontem, com a agravante de ter o menino nos braços.  É pouquíssimo como discurso, e revelador do impasse político e ideológico a que chegámos.

terça-feira, abril 16, 2019

vozes da biblioteca

«À porta dois contratadores apenas, um polícia, e, sentada no último degrau sobre a rua, uma velhota, de tabuleiro à frente, coalhado de quanto há de mais pelintramente indigesto em matéria de doçura, com uma vela protegida por um cartucho de papel cor-de-rosa.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«Afeito à nudez sebosa das repartições, o recém-chegado abafou uma voz de espanto ao passar a uma saleta cujo requinte no arranjo descondizia com tudo o que vira em tão ingracioso edifício: era uma dependência fofa, não grande, toda de veludos vermelhos, lambris dourados, cristais e móveis reluzentes, onde, pelos reposteiros entreabertos, a luz, que do céu azul ferrete se derramava a jorros sobre a vila, vinha molemente esparrinhar-se num tapete de Arraiolos...» Jorge Reis, Matai-vos uns aos Outros (1961)

«Léguas e léguas andaram, como se fossem retirantes, de fazenda em fazenda, a pedir a um e a outro uma tigela de farinha que lhes matasse a fome, e pés roídos pelos espinhos e olhos fundos de sofrimento.» José Lins do Rego, Cangaceiros (1953)
«[...] o tempo restituiu à igreja, mais talvez do que lhe tirou, porque foi o tempo que espalhou sobre a fachada a sombria cor dos séculos que faz da velhice dos tempos a idade da sua beleza.» Victor Hugo, Notre-Dame de Paris (1831)

segunda-feira, abril 15, 2019

livros que me apetecem

Arquive-se, de Rita Almeida de Carvalho (Fundação Francisco Manuel dos Santos)
Carne Crua, de Rubem Fonseca (Sextante)
Homens de Pó, de António Tavares (D. Quixote)
O Poço e a Estrada -- Biografia de Agustina Bessa Luís, de Isabel Rio Novo (Contraponto)
Voltar a Ler -- Alguma Crítica Reunida, de António Carlos Cortez (Gradiva)

quinta-feira, abril 11, 2019

vozes da biblioteca

«A terra aguardava em / silêncio a chegada / das betoneiras, dos patos / bravos.» Mário Avelar, Cidades de Refúgio (1991)

«Como é maravilhoso o amor / (o amor e outros produtos).» Carlos Drummond de Andrade, Brejo das Almas (1934)

«Do lixo da esquina partiu / o último vôo da varejeira / contra um século convulsivo.» Carlito Azevedo, Sob a Noite Física (1996)

quarta-feira, abril 10, 2019

livros que me apetecem

A Gun in the Garland, de Madalena de Castro Campos (Companhia das Ilhas)
Escrito(s) a Vermelho, de Voltairine de Cleyre (Barricada de Livros)
Nova Gramática do Latim, de Frederico Lourenço (Quetzal)

no papo:
O Instinto Supremo, de Ferreira de Castro (Cavalo de Ferro)

terça-feira, abril 09, 2019

segunda-feira, abril 08, 2019

criadores & criatura



William Vance, Yves Duval e Howard Flynn



sexta-feira, abril 05, 2019

lido



quarta-feira, abril 03, 2019

vozes da biblioteca

«Chorava em fonte, e as suas lágrimas punham no fogo rijo das duas horas um doce refrigério de orvalhada.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Desde Abril do ano anterior que a tropa e os comunistas se aproximavam das fachadas dos prédios, erguiam o membro como animais para urinar, e abandonavam nas paredes um mijo de vivas e morras que se contradiziam e anulavam, logo coberto por cartazes de comícios e greves, fotografias de generais, propaganda de conjuntos rock, cruzes suásticas, ordens de boicote ao governo e convites de retrete, dedos de letras entrelaçadas num namoro que o Outono do tempo desbotava.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

«O Diogo combinara tudo com o mestre-negreiro, dera-lhe uma pepita de ouro, a única que possuía, toda a sua fortuna, escreveu-me, não suportava o Brasil sem mim, eu acreditei e senti-me agradecida, era o dinheiro do nosso futuro que ele jogava fora para me ter consigo, foi isso que fez que eu lhe perdoasse a Briolanja.» Miguel Real, Memórias de Branca Dias (2003)

«The One You Are Looking For Is Not Here»

terça-feira, abril 02, 2019

vozes da biblioteca

«Falamos das cidades / dos homens que de tão sós / as despovoam» Sebastião Alba, «As casas constroem-se de sombra», A Noite Dividida (1993)

«Faz frio, muito frio... / E a ironia das pernas das costureirinhas / Parecidas com bailarinas...» Mário de Andrade, «Paisagem N.º 1», Paulicéia Desvairada (1922) / Os Melhores Poemas de Mário de Andrade (ed. Gilda de Mello e Souza, 1988)

«Não te mudei o nome nem a face / nem permiti que nada transformasse / minha imagem de ti em forma de arte.»  Mário António, «Soneto», Amor (1960)

segunda-feira, abril 01, 2019

lido