domingo, outubro 14, 2007

Casa do Dragão

A casa que João Gaspar Simões mandou construir em Cascais exibe um catavento invulgar: em vez do tradicional galo, ostenta um inusitado dragão: o motivo desta originalidade começa a ser desvendado aqui.
(foto de Guilherme Cardoso)

esta semana, Outros Tons






sábado, outubro 13, 2007

Snakes And Ladders


Cantor discreto, voz de veludo, Gerry Rafferty é um excelente songwriter e um óptimo melodista. A música deste escocês tanto se filia no rock como na canção tradicional britânica, na linha, por exemplo, dos Beatles e de McCartney, em particular. É seu um dos grandes hits da década de setenta: o empolgante «Baker Street», do álbum City To City (1978).
Snakes And Ladders (1980) trilha o percurso da nostalgia, do amor e da infância. Disco muito equilibrado, é difícil destacar composições. De qualquer modo, arrisco o love-blues «Bring It All Home», com um sax maravilhoso tocado por Raphael Ravenscroft; «The Garden Of England», com uma melodia angustiosa que é charge aos nostálgicos do Império; «Café Le Cabotin», saudosa também, mas dos tempos dos ballroom dancings; e o extraordinário rag que é «Syncopatin' Sandy», nome de um estranho pianista movido a whiskey, que Gerry terá conhecido na juventude, e que cometia a proeza de tocar noite e dia sem demonstrar cansaço...
Snakes And Ladders tem, portanto, as virtudes do seu autor: sem modas, é susceptível de ser fruído em qualquer ocasião, tempo e lugar.

sexta-feira, outubro 12, 2007

A guerra derrotava os vitoriosos, nem pedra sobre / pedra para consumo, ruínas nem sequer de ossos
António Barahona

O Vale do Riff - Joe Pass & Niels Pedersen (NHOP), «Donna Lee»

quinta-feira, outubro 11, 2007

capismo

Bernardo Marques
capa de Imagens de Actualidade, de Julião Quintinha
Editor Nunes de Carvalho, Lisboa, 1933

Antologia Improvável #259 - João Cabral de Melo Neto

O URUBU MOBILIZADO

Durante as secas do Sertão, o urubu,
de urubu livre, passa a funcionário.
O urubu não retira, pois prevendo cedo
que lhe mobilizarão a técnica e o tacto,
cala os serviços prestados e diplomas,
que o enquadrariam num melhor salário,
e vai acolitar os empreiteiros da seca,
veterano, mas ainda com zelos de novato:
aviando com eutanásia o morto incerto,
ele, que no civil quer o morto claro.

2.

Embora mobilizado, nesse urubu em ação
reponta logo o perfeito profissional.
No ar compenetrado, curvo e conselheiro,
no todo de guarda-chuva, na unção clerical,
com que age, embora em posto subalterno:
ele, um convicto profissional liberal.


A Educação pela Pedra

O Vale do Riff - Cannonball Adderley, feat. Nat Adderley & George Duke, «Straight No Chaser»

quarta-feira, outubro 10, 2007

Caracteres móveis - Fidelino de Figueiredo

Partir e voltar -- todos os grandes homens de Portugal o fizeram.


...um pobre homem da Póvoa de Varzim...

O Vale do Riff - Elvis Costello, «Every Day I Write The Book»

segunda-feira, outubro 08, 2007

Antologia Improvável #258 - Florbela Espanca (3)

A NOITE DESCE

Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos castanhos, carinhosos,
A noite desce... Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim mãos de bondade me embalassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braçadas de lírios e mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe-me embriagada, louca!

E a noite vai descendo, muda e calma...
Meu doce Amor, tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha boca!


in Poesia da Noite
(edição de Urbano Tavares Rodrigues)

O Vale do Riff - Jefferson Airplane, «White Rabbit»

domingo, outubro 07, 2007

Figuras de estilo - José Gomes Ferreira

[...]ateísmo por humildade diante do mistério.




A Memória das Palavras I ou o Gosto de Falar de Mim

esta semana n'O Vale do Riff






sábado, outubro 06, 2007

estampa CXXI

Sarah Affonso, Menina Sentada com Limão
colecção particular
Jesus já cansado de tanto pedido / dorme sonhando com outra humanidade.
Carlos Drummond de Andrade

Acordes diurnos


quinta-feira, outubro 04, 2007

Antologia Improvável #257 - Delfim Guimarães

A PAIXÃO DE SOROR MARIANA

VII

Não ames ninguém mais!... deixa que diga,
E este conselho atende, porque, em suma,
Tu não encontrarás mulher nenhuma
Que seja, como eu sou, tão tua amiga!

Dos meus dotes não julgues que presuma,
Embora evoque essa existência antiga.
Quando tu a esta pobre rapariga
Lhe chamavas bonita!... Sim, alguma

Bem mais formosa podes encontrar,
Mas não outra capaz de te votar
Um amor tão intenso e desvelado...

E não será por certo a formosura
Que te leve a esquecer toda a ternura
Que te deu o meu seio apaixonado!


A Paixão de Soror Mariana

O Vale do Riff - INXS, «Mystify»

quarta-feira, outubro 03, 2007

Figuras de estilo - Raul Brandão

Há existências inúteis, para quem a vida se reduz ao estreito âmbito formado pelas paredes que as cercam. Vivem por hábito. Sabem apenas exprimir-se com seis palavras rançosas. São um misto de papelada, de números, de ideias estúpidas e vãs, de frases gastas e falsas.


A Farsa

O Vale do Riff - Kid Creole, «Wonderful Thing Baby»

terça-feira, outubro 02, 2007

Portugal era nessa altura um Salazar de lés a lés e Deus um padrasto a quem se devia prestar contas.
Armando Silva Carvalho

O Vale do Riff - Art Farmer et allii, «Just Friends»

domingo, setembro 30, 2007

Antologia Improvável #256 - Eugénio de Castro (3)

PELAS LANDES, À NOITE

Pelas landes e pelas dunas
Andam os magros como pregos,
Os lobos magros como pregos,
Pelas landes e pelas dunas.

Olhos de fósforo, esfaimados,
Numa pavorosa alcateia,
Andam, andam buscando ceia,
Olhos de fósforo, esfaimados.

Nas landes grandes, junto às dunas,
Um menino perdido anda,
Anda perdido, a chorar anda,
Nas landes, junto às brunas dunas.

Senhor Deus de Misericórdia,
Protegei o róseo menino,
Protegei o róseo menino,
Senhor Deus de Misericórdia.

Porque nas landes e nas dunas
Andam os magros como pregos,
Os lobos magros como pregos,
Nas grandes landes e nas dunas.


Poesia da Noite
(ediçãop de Urbano Tavares Rodrigues)

esta semana n'O Vale do Riff






sábado, setembro 29, 2007

estampa CXX

Henri de Toulouse-Lautrec, Divan Japonais
Colecção particular, algures

Figuras de estilo - Miguel Real

[...] Félix de Sousa pagava fortunas aos fradinhos de São Coscurão, o Mandrião, o primeiro escravo alforriado a tornar-se santo, para que mantivessem um eremitério na praia de Ajudá, estes iam e vinham entre São Paulo de Luanda, São Tomé e os entrepostos da Costa dos Escravos, baptizando pretos por atacado, faziam o sinal da cruz e rezavam um pai nosso em latim, os escravos iam-se enfileirando, a cada um o frade soletrava-lhe o nome cristão, tu chamas-te Pedro, como o primeiro apóstolo, tu passas a chamar-te Tiago, irmão do Senhor, tu Madalena, a senhora do Senhor, mim Mimba, reclamava um dos escravos, não és, já foste, agora és João, o amigo do Senhor, mim ser Mimba, rerreclamava o escravo, e o feitor, ao lado do frade de São Coscurão, espetava-lhe um murro entre os olhos, és João e mais nada, e continuava, João, ouviste?, nada de Mimbas e Pimbas, o preto-língua calmava o capataz, que já alçara a botarra para desferir uma pontapezada entre as costelas do João, este anuía, mim ser Joau, o língua rectificava, não Joau, João, certo é João [...]

O Último Negreiro
(foto: Nuno Fox)

acordes diurnos


sexta-feira, setembro 28, 2007

dos deveres dum blogue preguiçoso

Não me apetece falar do grande Santana (mas que bem feito!), nem duma ridícula criatura minha homónima.
Não me apetece falar dos Police no Estádio Nacional (gostei mais dos Fiction Plane...), nem do revivalismo cretino dos meus coetâneos.
Não me apetece falar dos dias da Birmânia. Mas devia.

O Vale do Riff - Anita O'Day, «Sweet Georgia Brown»


quinta-feira, setembro 27, 2007

Antologia Improvável #255 - Eugénio de Andrade (3)

CONSELHO

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.


Os Amantes sem Dinheiro

O Vale do Riff - Billy Eckstine, «Lonesome Lover Blues»

quarta-feira, setembro 26, 2007

Figuras de estilo - Marcello Duarte Mathias

O que mais me assusta na morte é a grande morte depois dela, essa imensidão de vazio a encher o nada.
O Destino Velado

O Vale do Riff - Annie Lennox, David Bowie & Queen, «Under Pressure»

terça-feira, setembro 25, 2007

porque sim (as minhas mulheres)

Charlotte Rampling

O Vale do Riff - Phil Collins, «In The Air Tonight»

Antologia Improvável #254 - Manuel Bandeira

RENÚNCIA

Chora de manso e no íntimo... Procura
curtir em queixa o mal que te crucia:
o mundo é sem piedade e até riria
da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
e será, ela só, tua ventura...

A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e d'alma sobranceira,
sem um grito sequer, tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira,
e pede humildemente a Deus que a faça
tua doce e constante companheira...


Poesias

domingo, setembro 23, 2007

sábado, setembro 22, 2007

Caracteres móveis - Octave Mirbeau

Um dia, na confissão, a senhora explicou o seu caso ao cura e perguntou-lhe se poderia fazer batota com o marido...
--Que entende por fazer batota, minha filha? -- indagou o cura.
--Não sei ao certo, meu padre -- respondeu a senhora, embaraçada. -- Certas carícias...
--Certas carícias!... Mas, minha filha, não ignora que... certas carícias... isso é um pecado mortal!...
--Exactamente por esse motivo, meu padre, é que solicito a autorização da Igreja...
--Claro, claro!... Mas enfim, vejamos... certas carícias... Muitas vezes?...
--O meu marido é um homem robusto... muito saudável...... Duas vezes por semana, talvez...
--Duas vezes por semana?... É muito... é demasiado... é uma devassidão!... Por muito robusto que seja um homem, não necessita duas vezes por semana de... de... de certas carícias...
Ficou alguns segundos perplexo e depois concluiu:
--Bem, seja... Autorizo-a a entregar-se a... certas carícias duas vezes por semana... mas com a condição... primo, de não tirar disso nenhum prazer censurável...
--Oh, juro-lhe meu padre!...
--Secundo, terá de dar, todos os anos, duzentos francos para o altar da Santíssima Virgem...


Diário de uma Criada de Quarto
(tradução de Adelino dos Santos Rodrigues)

sexta-feira, setembro 21, 2007

acordes nocturnos


capismo

Alfredo Morais, capa de
Paixão de Maria do Céu, de Carlos Malheiro Dias
Portugal-Brasil Sociedade Editora, Lisboa, s. d.
quanto maiores as pegadas / mais invisível és
paulo da costa

O Vale do Riff - Leonard Cohen, «Suzanne»

quinta-feira, setembro 20, 2007

Antologia Improvável #253 - Martins Fontes (3)

GOYESCA

III FANTASTIQUE. GRANADOS.

Eu, para o encontro daquela noite,
Vesti-me todo de sedas roxas...
E, ao enjoiar-me, só de ametistas,
A opa violácia flori de opúncias...

Lilás e goivos e heliotrópios
Embalsamavam-me... E havia, em tudo,
A frigidice da cera-virgem,
Do almíscar fofo, do incenso velho...

Apaguei, uma por uma, as luzes...
Deitei-me, à espera da minha amada...
E, há meia-noite, precisamente,
Ela, de leve, bateu-me à porta...

Vinha gelada... Beijou-me a boca...
Ungiu-me os olhos... Cerrou-me os lábios...
As mãos cruzou-me... Compôs-me o rosto...
E, para sempre, dormimos juntos...


A Flauta Encantada / Poesias Completas

O Vale do Riff - Django Reinhardt & Stephane Grappelli, «I Will Wait»

quarta-feira, setembro 19, 2007

3 Mestres

Ferreira de Castro, António Sérgio e Aquilino Ribeiro
à porta da Livraria Bertrand, Agosto de 1941

Quando dois espíritos se encontram




Chego atrasado. Ruy de Carvalho (haverá actor maior?) lê passagens de O Malhadinhas. A acústica não ajuda. É pena.
António Valdemar, Jaime Gama e Cavaco Silva fazem os discursos de circunstância. E fazem-no bem. O de Cavaco revela até algum conhecimento de problemática aquiliniana. Teria graça que a alocução fosse de sua lavra. Já não seria mau -- e porque não pensá-lo? -- a ocorrência de anotações do seu punho apostas ao «borrão» de assesoria...
O Estado em peso e o peso do Estado: os altos dignitários, presidentes dos Tribunais todos, Sampaio, ex-presidente, Sócrates + 4 ministros: cumpre nomeá-los: Isabel Pires de Lima, Augusto Santos Silva (presenças naturais), Teixeira dos Santos e Correia de Campos. Deputados: vislumbro Alegre, Jerónimo de Sousa, Zita Seabra, Fernando Rosas, Helder Amaral, Luís Fazenda, José Junqueiro, Agostinho Lopes e outros.
Mais importante: na fila da frente da ala em que me encontro, a família de Aquilino, a começar pelo filho sobrevivente, Aquilino Ribeiro Machado; apercebo-me de netos, bisnetos e até, certamente, trinetos. Alguns revelam os traços fortemente marcados do seu antepassado. Vejo-o em especial numa senhora jovem, que julgo seja neta, com um facies magnífico.
Ainda importante: perto de mim está Artur Portela (que, se a memória me não atraiçoa, dedicou um dos volumes de A Funda ao Mestre); e, tão significativa quanto discreta, a presença de um dos nosso maiores escritores vivos, Mário de Carvalho.
O que me fez, porém, alinhavar estas notas, foi a circunstância de, pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida por Cesário Costa, Luís de Freitas Branco ter pontuado esta cerimónia com a sua grande música, sabiamente escolhida. O maior escritor e o maior compositor do tempo de ambos, encontram-se nesta ocasião cheia de significado. Ainda ontem me referi a Luís de Freitas Branco como um dos criadores cuja obra é patrimóno nacional. Espero agora que o Panteão, magnificado com os despojos de Aquilino, venha a acolher um grande compositor português, e que esse seja Luís de Freitas Branco.

O Vale do Riff - Herbie Mann, «Sonyos»

terça-feira, setembro 18, 2007

Aquilino no Panteão

Os restos mortais de Aquilino serão trasladados amanhã, 19 de Setembro, para o Panteão Nacional. Não sei se ficarão na melhor companhia, se ao escritor lhe seria grata a ideia, nem isso é especialmente importante. Aquilino já em vida não se pertencia, como deixou de ser pertença da sua família após a morte. Aquilino, a sua obra, que é a do maior prosador português do século XX, há muito que é património nacional. Com o gesto de amanhã, o Estado mais não faz do que consagrar algo que é pacificamente apreendido pela comunidade. O monumento literário que o autor de Andam Faunos pelos Bosques nos legou aprofunda-nos e dá-nos mais consistência enquanto portugueses, do mesmo modo que as crónicas de Fernão Lopes, Os Lusíadas e Mensagem, as obras de Camilo e Eça; tal como sucede com o Mosteiro da Batalha e a Torre de Belém, os Painéis de Nuno Gonçalves e os retratos de Columbano, a Sinfonia n.º 1 de Luís de Freitas Branco e os Verdes Anos de Carlos Paredes. É densidade desta que o milagre do talento de Aquilino nos acrescenta como povo e como pátria.
É por isso, neste caso, duma total irrelevância saber se Aquilino era de esquerda ou de direita, monárquico ou republicano, hetero ou gay, casto ou dissoluto, preto ou branco ou outras ninharias. É um grande escritor, um dos maiores cultores da nossa língua, disso deixando abundante testemunho ao longo de meio século de livros publicados.
E eu, que não sou nada nacionalista, acho muito bem que a Pátria de Aquilino, depois de em vida lhe ter feito mais mal que bem, reconheça através desta homenagem o muito que lhe deve -- que será sempre incomensuravelmente mais do que todo e qualquer preito que se lhe possa fazer.


retrato de Aquilino por Diogo de Macedo
tirado daqui

O Vale do Riff - Yes, «Into The Lens»

segunda-feira, setembro 17, 2007

estampa CXIX

Paul Delvaux, Mulher ao Espelho

Clolecção Thyssen-Bornemizsa, Lugano


Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Pablo Neruda

O Vale do Riff - Foreigner, «Juke Box Hero»

domingo, setembro 16, 2007

Caracteres móveis - George Steiner

Nada é mais religioso, nada se aproxima mais do furor extático de justiça dos profetas, do que a visão socialista da Gomorra burguesa e da criação para o homem de uma nova cidade pura.


No Castelo do Barba Azul
(tradução de Miguel Serras Pereira)