sábado, dezembro 16, 2006

Figuras de estilo - Fernando Grade

Nas costas de Spínola, cerraram o portão do quartel. Os minutos correram nervosos. E já, novamente, o mesmo portão se abre: vê-se agora, no túnel, o Marcelo, prisioneiro, entrar no carro de combate. Ouvem-se vaias, maldições. Chovem cuspidelas para a carapaça do blindado que rompe por entre a multidão. No interior do veículo, o Marcelo vai verde, leva o rosto destruído, vê-se-lhe nos olhos que não entende ainda o que acontece agora-agora e já é página da História; o ditador mostra uma carantonha siderada de um verde eterno, como as fardas da sua apalhaçada Mocidade Portuguesa.
A Minha Quinta-Feira 25 de Abril

Fernando Grade

quinta-feira, dezembro 14, 2006

«Tão próximo do Natal»

A não perder a fantástica crónica de Ruben de Carvalho no DN de hoje, 5.ª feira. Vale todo o jornal, incluindo a pretensiosa revista.

Antologia Improvável #187 - Jaime Rocha

LACRIMATÓRIA 10

Uma ilha ao longe marca o terreno para o corpo
da morta, uma ilha em ruínas, ladeada por
rochedos acastanhados pelo tempo, escondida
entre altos ciprestes. De noite, uma pequena barca
surge da água trazendo duas mulheres esguias
iluminadas pela lua. Os remos transformam as
silhuetas em animais mágicos, vestidos de cor verde.
A mulher vem deitada num lençol e das falésias
ouve-se um cântico como se ali habitassem os seres
mais antigos do mundo. A ilha vive fora do horizonte,
desfeita pela chuva. Quando a barca fica presa a uns
ganchos, os ciprestes viram-se para dentro mostrando
diversos degraus de pedra. Alguém aguarda o momento
em que o homem se atira para as frestas e contempla o
corpo dela a ser levado pelo vento.

Lacrimatória

Jaime Rocha

O Vale do Riff - Garry Brooker (feat. Peter Frampton), «Conquistador»

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Doenças

É verdade que Israel não tem ajudado muito, mas é repugnante ver o Irão patrocinar um congresso negacionista do Holocausto. O racismo e o nacionalismo continuam a ser doenças por debelar.

Foi bem feito

A ministra da Defesa do Chile foi vaiada nas exéquias de Pinochet. Tratando-se de um criminoso que usurpou a chefia do Estado chileno durante 17 anos, não sei porque razão um governo democraticamente eleito se rebaixou enviando um representante àquele acto. Eu sei que a democracia por si só tem uma superioridade ética e moral relativamente às ditaduras. Mas há gente que não merece sequer um gesto de indulgência.

estampa LXXXVI

Amedeo Modigliani, O Violoncelista
Colecção Particular, Paris

Van Morrison e The Chietains, «The Star of County Down»

terça-feira, dezembro 12, 2006

Caracteres móveis - Victor Hugo

Desde as seis e meia da manhã que se ouviu pelas ruas o toque de chamada. Às onze, saio. As ruas estão desertas, as lojas fechadas; vê-se, lá de longe a longe, passar uma velhota. Sente-se que Paris inteiro se derramou para um dos lados da cidade, como um líquido num recipiente inclinado.
O Funeral do Imperador
(tradução de Luiza Neto Jorge)

Hugo

O Vale do Riff - Bing Crosby e Louis Armstrong, «Now You Has Jazz»

estampa LXXXV

Pieter Bruegel, o Velho, Caçadores na Neve
Kunsthistorisches Museum, Viena

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Antologia Improvável #186 - Teresa Guedes

O MEU LÁPIS

É impossível pintar
a canção do vento
ou o choro das árvores
quando são abatidas.
É possível, diz o meu lápis
habituado a tantas vidas.

Real...mente

Teresa Guedes

O Vale do Riff - Woody Herman, «Jazz Me Blues»

Na morte de Pinochet, um Mobutu sul-americano

Salvador Allende no palácio presidencial de La Moneda
durante o golpe de 11 de Setembro de 1973



É triste ver morrer um traidor sem julgamento. Nomeado por Salvador Allende comandante do exército chileno, enganou-o de tal maneira que quando o Presidente estava sitiado em La Moneda perguntava com ansiedade pelo estado do seu general durante a insurreição que corria: «Coitado do Pinochet», lamentava Allende...
É triste ver morrer um facínora sem julgamento. Não são apenas os três mil mortos e desaparecidos que vão atormentar o esbirro no inferno. É a perfídia, a tortura, os requintes de malvadez dos torturadores, cuja responsabilidade política ele há dias assumiu, sabendo-se impune e livre de recorrer ao abjecto número de circo da cadeira de rodas.
Há quem diga que ele salvou o Chile do comunismo. Mesmo que essa deriva se viesse a confirmar -- o que ficou por demonstrar (e recorde-se que Allende pertencia ao Partido Socialista chileno) --, mesmo que aceitássemos a hipótese, o Chile foi em seguida condenado ao Pinochet. E não são os alegados bons resultados da economia (tão louvados por uns pseudo-liberais imbecis) que redimem a personagem. Para a História, Pinochet ficará como um mero peão da Guerra Fria, um Mobutu latino-americano, igualmente ladrão e carrasco. O Chile não ficou como o Zaire/Congo, podem argumentar; mas a história das instituições nos dois países não é comparável.
Na morte de um assassino e de um traidor, presto homenagem à sua mais conhecida vítima, que não recorreu a números de circo para salvar o pêlo: Salvador Allende.

domingo, dezembro 10, 2006

Luís Cardim

Correspondências #71 - Luís Cardim a Roberto Nobre

Porto, 11 de Setembro de 1949
Meu prezado e bom Amigo Ex.mo Snr. Roberto Nobre
Na página literária do «Janeiro» de 4ª feira passada veio uma extensa e muito elogiosa notícia crítica do meu livrinho, subscrita pela letra A.; fui lá agradecer, e soube que era do snr. Jayme Brazil, a quem vou portanto agradecer também, para o que pedi a morada dele em Paris.
Mandei um recorte ao Dr. Câmara Reys, nosso comum amigo, e não [sei] se ele lho mostrou, ou se VExª terá visto a crítica no próprio Janeiro. Começa por fazer referências muito generosas às minhas actividades em filologia germânica, e em especial quanto a Shakespeare, acrescentando que me devia ser dada uma bolsa de estudo para estudar e investigar em Inglaterra, e em seguida passa em revista todo o livrinho, com bastante minuciosidade e compreensão. A única nota discordante -- embora também amável -- é chamar «monumental» à minha obra «Shakespeare e o Drama Inglês»; eu reconheço, sem falsa modéstia, que ela é bastante completa, bem informada, actualizada e... muito condensada; mas daí a «monumental», vai um bocado, e quem ler a crítica e conhecer o livro, estranhará talvez um pouco o epíteto.
Mas é uma crítica extremamente bondosa, tanto pela extensão como pelo fundo, e como sei que a devo em grande parte à iniciativa gentilíssima de VEx.ª, é a VEx.ª que primeiro agradeço. Em Outubro irei a Lisboa, e lá fá-lo-ei pessoalmente. Eu tenho andado a traduzir para inglês uns trabalhos de psicotecnia; tive, é claro, que estudar o assunto, e como me deram pouco tempo, o esforço foi grande, e dura há um mês, pouco mais ou menos. O que vale é que me rende uns três contos; é pouco ainda para o número de horas que me levou, mas... pecuniàriamente é melhor que «Os Problemas do Hamlet», que nada me renderam, aliás por proposta minha inicial. Agora gostava de escrever sobre «As tendências actuais dos estudos shakespeareanos», ou coisa parecida -- um tema em que cabia muita coisa; mas tenho actualmente a vida muito embrulhada, e sinto-me velho e cansado, além do que o assunto demandava grande bibliografia, que não sei se poderei obter. «Os Problemas do Hamlet» foram uma deliciosa aventura, em que os livros necessários -- os mais necessários, pelo menos -- foram «vindo pelo ar», sponte sua aparentemente, dos vários pontos cardiais, e as várias-das-peças do puzzle se foram também encaixando por si mesmas nos seus devidos lugares... Mas o que eu pretendia agora é obra de mais vulto: terei eu tempo, forças, paciência e elementos para a levar a cabo?
Mas não abuso mais da sua bondade -- e até Outubro. Renovo os meus mais rendidos agradecimentos, e sou sempre
o de VEx.ª
admirador e amigo muito reconhecido
Luiz Cardim
«Sete Cartas de Luís Cardim a Roberto Nobre»,
Boca do Inferno, n.º 1
(edição de Ricardo António Alves)

Roberto Nobre

sábado, dezembro 09, 2006

vistos de baixo somos grandes / sobre a terra.
Vítor Oliveira Jorge

estampa LXXXIV

Henrique Pousão, Cabeça de Rapaz Napolitano
Museu Nacional Soares dos Reis, Porto

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Antologia Improvável #185 - Luís Brito Pedroso

PEIXE

Pelas ruas curvilíneas
sentes que pertences a algo
Tudo será montanha ou colina,
guitarra portuguesa
e sardinha a assar, processos de vida
A dado momento estalam os dedos
a vida e a percepção
De certo modo sentes que pertences -- a algo

O chão de pedra -- percebes?
Há sol e sombra, touros
Transístores ao longe sintonizados na distância
Guitarras ao alcance das mãos, fadistas
Vinhos e casas
Processos de vida, coisas mais que antigas
Palavras e gestos.
Rio mar sal abismos promontórios
muito longe naus encalhando
Ondas areias sal.
E o crepúsculo visita-nos a cidade
entornando o seu canto pelos cantos das casas
Indumentárias negras enfim
Guitarras vinho e gritos.
Rixas becos e linchamentos
Linchamentos emocionais
Nada a questionar
sejam cigarros ou canecos ou apenas inchaços
Pátios barulhentos na época do calor
O chão de pedra derrete e quase que fala
Derrete tudo quanto é carne nas colinas
Na encosta do castelo
estoiros de motorizada falésia abaixo
Braços no ar vento na cara cara na rocha
Guitarras quebrando cabeças
e a indumentária negra
manchada de sangue ou vinho
(não se percebe)

Poema Seis

O Vale do Riff - Ben Webster e Gerry Mulligan, «Who's Got Rhythm»

A Rainha

Esta Helen Mirren é magnífica. Já a admirara quando da outra Isabel, a Tudor (muito bem servida por esplêndidas actrizes ao longo da história do Cinema), que há pouco tempo passou na RTP. Mas fazer a Windsor deve puxar muito pelo canastro de dentro... E que bem que ela se sai. Aliás, Helen Mirren salva o filme de Frears da banalidade quase televisiva. E se Mirren se desempenhou superiormente, com ela ganhou também a imagem (detestável conceito...) da própria Isabel II, que surge como a única personagem com grandeza, acolitada por um ou outro servidor fiel, no meio da comoção geral que foi a morte trágica da princesa Diana.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

terça-feira, dezembro 05, 2006

Caracteres móveis - Adolfo Casais Monteiro

A arte não é senão vida, não é senão o supremo esforço do homem para não morrer!
Prefácio a Versos

O Vale do Riff - Pink Floyd, «Wish You Were Here»

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Antologia Improvável #184 - Vergílio Alberto Vieira

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES

De tanto bater à porta
Da noite que à noite cai,
Ninguém com ele se importa
Nas ruas por onde vai.

De volta a casa, não diz
Como aprendeu a acender
Estrelas que o fazem feliz
Porque não querem morrer.

Para Chegar a uma Estrela

Vergílio Alberto Vieira

O Vale do Riff - Talking Heads, «Once in a Lifetime»

domingo, dezembro 03, 2006

Luciano Pereira da Silva

Correspondências #70 - Luciano Pereira da Silva a Joaquim de Carvalho

Meu m.to presado Amigo:

Remeto-lhe junto as informações que Malheiro Dias me manda a respeito das 2 cópias do Archivo de Indias. Constam da carta inclusa que peço para me devolver. A respeito das edições da Imprensa da Universidade que ele quer, disse-lhe que se entendesse consigo directamente. Ele mora no Porto, na R. João de Deus, 201. Vai amanhã, ou depois, para Tanger, com o Antero de Figueiredo, que quer ir ver o campo de batalha de Alcacerquibir. Voltam no princípio de outubro.
A respeito da astronomia dos Lusiadas, parece-me que se deverá começar a impressão logo que eu tenha redigidas as emendas e acrescentos dos primeiros 5 capítulos. O livro tem X capítulos, e ficará com XI; o novo capítulo é fundado num artigo que escrevi na Águia, A estrela Venus nos Lusiadas, fácil de aprontar. Os primeiros capítulos são os de maior alteração. Assim creio que poderia começar-se a impressão em novembro, impressão ou composição. Eu, se não termino isso mais depressa, é por causa das constantes visitas que aqui tenhos. Mas, depois, se for preciso, até peço licença.
Tive aqui agora, como hópede o prof. Max Leopold Wagner, prof. da Universidade de Berlim. Seguiu ontem para Viana (veio de Vigo por aqui), onde o esperava o Dr. J. Providência.
Na próxima semana devo ter aqui também o prof. Schädel, da Universidade de Hamburgo, que vem também de Vigo, e segue para Viana, para o Dr. Providência. São ambos de Filologia românica. O Wagner, em que me parece q. já me falou, é um bávaro, de cabelo negro, mas que não pode passar por meridional, cá da terra, pois é um braquicéfalo, com um crâneo largo e curto, bem acentuado da sua raça. M.to simpático e inteligente e trabalhador.
E não continuo. Desejo-lhe saúde e a todos os Seus.
Manda o
Seu amigo certo e dedicado e obrig.do
Luciano Pereira da Silva
Caminha, 21.IX.23
P.S. -- Eu tenciono ir a Coimbra nos princípios de outubro.
Poderemos então falar lá?
Correspondência de Luciano Pereira da Silva para Joaquim de Carvalho
(edição de José Barbosa)

sábado, dezembro 02, 2006

estampa LXXXIII

Edgard Degas, Retrato da Menina Dobigny
Centro de Artes de Hamburgo

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Bento XVI e a Turquia

A última viagem papal foi um êxito assinalável, não só para o Vaticano como para o mundo islâmico moderado e também para o Estado turco.
A visita, que decorreu num tom de grande cordialidade (a irrelevância dos extremistas islamo-nacionalistas (!) foi notória), revelou a possibilidade de um diálogo assente no mútuo respeito e consideração.
A Santa Sé conseguiu aligeirar a pressão orquestrada por aqueles que no Islão estão interessados na destruição do Ocidente, da laicidade, das sociedades liberais e das influências destas nos territórios que consideram dever estar sob os seus ditames. Neste particular, o exemplo das autoridades religiosas turcas veio mostrar à chamada «rua muçulmana» (não propriamente a rua turca, antes algumas ruelas árabes) que nem tudo passa obrigatoriamente pelos «morras» ao que lá é percepcionado por Ocidente.
O inteligente sinal político que o Papa deu a respeito da adesão da Turquia à UE teve o benefício de atenuar o desastre que é a ausência de uma política de Bruxelas em face dessa adesão que está em cima da mesa, e que não se compadecerá com muito mais manobras dilatórias, sob pena de, perante uma humilhação estúpida, a Turquia voltar as costas à UE, o que seria trágico. Entre os receios alemães (até certo ponto compreensíveis dada a enorme colónia emigrante turca existente no seu território), a abjecção francesa, que tem o caos instalado em casa, e que não quer turcos nem polacos e se pudesse despachava expeditamente os bons dos portugueses no sud-express, e a atitude construtiva de Blair, o gesto de Bento XVI foi de grande agudeza, e com a possibilidade de um mais positivo desenvolvimento futuro desta questão.

O Vale do Riff - Supertramp, «Fool's Overture»

Antologia Improvável #183 - Jorge Gomes Miranda

LINHA DE FOGO

Digamos o que dissermos
estamos sempre na linha de fogo.
Círculos de fogueiras breves
os poemas que escreveste
e onde não procuras hoje um entendimento,
antes da manhã, um qualquer fim.

Uns acreditam na pena de morte
para os crimes de sangue.
Outros na vida depois desta morte
a que chamam vida.

A poesia? Gangs organizados
dispostos a tudo para chegarem ao nada.
Escolhes o silêncio.
A salvação pelo esquecimento.
Mas já é tarde.
O teu nome consta da lista.
Faças tu o que fizeres.

Carregar, apontar, fogo!
Para alguns a vida é tão fácil.

Pontos Luminosos

quarta-feira, novembro 29, 2006

terça-feira, novembro 28, 2006

Caracteres móveis - Jean-Jacques Rousseau

[...] se não gosto de viver entre os homens, a culpa é menos minha do que deles.
Confissões
(tradução de Fernando Lopes-Graça)

J.J.

O Vale do Riff - Albert Collins, «Iceman»

segunda-feira, novembro 27, 2006

Antologia Improvável #182 - Isabel de Sá

JÁ ERA QUASE NOITE

De novo o calor da lareira
e ouvindo uma sonata de Beethoven
a memória impõe-me cenas
que não posso rasurar.

A perigosa linguagem do teu corpo,
a beleza das mãos sobre a página
de um livro onde aprendias
o ofício, a fascinante química
dos produtos que ajudam a viver.

Depois já era quase noite
e tarde demais para recuar.
Tudo estava perdido; a nossa honra,
o dia de estudo, o conceito de amor.

Erosão de Sentimentos / Repetir o Poema

Isabel de Sá




















foto: Graça Sarsfield

O Vale do Riff - Stan Getz e Donald Byrd, «Fontessa»

domingo, novembro 26, 2006

uma vinheta de Paul Cuvelier
Corentin -- Le Royaume des Eaux Noires

Domício da Gama

Correspondências #69 - Domício da Gama a Jaime Batalha Reis

Bruxelas, 1.º de Março de 1902
7, rue Zinner
Meu caro Batalha
Você não respondeu à minha carta pedindo-lhe conta dos seus fornecimentos à Gazeta, sem dúvida por não ter tido tempo de descobri-la entre a sua imensa papelada. Não suponho que a sua conferência sobre V. H.* lhe tenha tomado mais tempo do que o necessário para escrevê-la (tive um [?] que facilitava assim estas coisas da escrita). Pela notícia demasiado resumida do Daily Chronicle vi que V. coloca o maior lírico dos tempos todos acima de Shakespeare e de Goethe. Hombre!... Não imagina o gosto que tive em vê-lo assim diante de Ingleses como aos vinte anos diante da Opinião. Se vivesse o nosso pobre Queiroz escrevia-lhe decerto uma carta de quarenta páginas, à pena solta.
Sabe que só agora li o Ramires? E com que ternura acompanhei a formação daquela figura e o processo da escrita, descobri movendo-se por entre as almas tipos, a alma do nosso saudoso amigo. Notou V. como nos seus últimos livros entra a paisagem como elemento de emoção, a paisagem como fisionomia e expressão? Foi depois que ele inventou os adjectivos abstractivos e morais, subjectivos, para as coisas sem alma, a que ele emprestava a sua imaginativa. Dez anos mais e saúde, e o Queiroz romperia as barreiras da língua portuguesa, poeta de peregrina inspiração, ainda mais do que artista, que era o que ele queria ser...
Tinha muita coisa para lhe dizer e de repente secou-se-me tudo. Interrompi-me para receber uma visita, que me ensurdeceu. Fica para outra vez.
Escreva-me. Dê as minhas saudades aos seus e receba um abraço do seu amigo do coração
Domício
In Beatriz Berrini, Brasil e Portugal: a Geração de 70
*Victor Hugo

Jaime Batalha Reis

sábado, novembro 25, 2006

I am what is around me
Wallace Stevens

estampa LXXXII

Leonardo Da Vinci, A Virgem e o Menino com Santa Ana
Museu do Louvre, Paris
Que pensarei eu amanhã?

sexta-feira, novembro 24, 2006

Antologia Improvável #181 - Joseia de Matos Mira

RELÂMPAGO

Parir um poema,
máscara nas ventas,
anestesia nas veias,
arfando...

Parir um poema
como pari meus filhos...
Alucinação dos sentidos...

Criar sem saber
estar criando.

Parir sem saber
que estou parindo.

Lugar Solitário

O Vale do Riff - Woody Herman, «La Fiesta»

quinta-feira, novembro 23, 2006

Figuras de estilo - Campos Monteiro

Qual o esfomeado, por cujas mãos passem vitualhas, que tenha a hombridade bastante para lhes não cravar os dentes?
Saúde e Fraternidade

Campos Monteiro

O Vale do Riff - Ornette Coleman, «Times Square»

quarta-feira, novembro 22, 2006

E

E de elegante
E de elaborado
E de espasmódico, de efluente, de ejaculatório, de electrizante e de electromagneto, de entusiamante e de espectaculoso
E de eia!
E de edificante, de egrégio, de emérito, de engrandecido
E de egipciano e de eleusínico
E do espanto
E de de enobrecido, de efes-e-erres, de elanguescente, de envolvente e estiloso
E de escol
E de esmerilhado e também de elemental, de escandido e de escorrente
E de etnológico, de ebanítico, de eldorado, de escarlate, de ele e de ella
E de ecuménico
E de espalhado
E de estuário
E de edénico, de espiritual e de espiritoso, de enigmático, de evanescente
E de eficaz, de estremecido e de excelente
E de «Duke»
E de Ellington

foto

O Vale do Riff - Rory Gallagher, «Hands Off»

estampa LXXXI

Salvador Dalí, Alucinação Parcial. Seis Aparições de Lenine num Piano
Centro Pompidu, Paris

terça-feira, novembro 21, 2006

Antologia Improvável #180 - Luís Quintais

BÉTULA

Serás a humílima árvore.
A árvore a tinta
da china desenhada.
A árvore de papel.
Serás a bétula do Nepal.
A que não existe
senão na linguagem.
Serás a que sonha os dias,
as noites, as lembranças.
A que protege
da ira inclemente.
A que protege
do sopro do tempo.
A da sombra feliz.

Angst

Luís Quintais

O Vale do Riff - Led Zeppelin, «Whole Lotta Love»

domingo, novembro 19, 2006

Correspondências #68 - António Nobre a Oliveira Martins

Segunda-feira, 27-XI-1893.
18-- rue de la Sorbonne -- Paris
Ex.mo Senhor,
Há já alguns dias que cheguei a Paris e, se agora só venho ao pé de V. Ex.ª dar-lhe parte da minha chegada, é por só agora me achar restabelecido da minha dolorosa viagem. Levado pelo meu imprudente e herdado amor pelo mar, segui num pequeno vapor do Porto para o Havre, e no Canal da Mancha estive quase a ir ao fundo com uma tempestade do século XVI, como os seus olhos de historiador tantas têm visto. Sofri imenso. Hoje, tranquilo, venho dar a V. Ex.ª a minha adresse, como me disse da última vez que o visitei para pedir a V. Ex.ª a sua intervenção junto do Dr. Eduardo Prado: pedido que tomei a liberdade de lhe fazer sem que as nossas relações mo consentissem, é verdade, mas tendo apenas o estímulo da amizade que V. Ex.ª tem aos meus versos, o que me comove excepcionalmente por vir dum espírito que amo do coração e a que devo tanto. Espero me desculpará.
O Sr. Oliveira Martins, desse querido Portugal, disponha de mim, se dalguma coisa posso ser-lhe agradável neste País, agora tão lúgubre, sob a neve que está a cair.
Sou de V. Ex.ª, com a maior simpatia, muito admirador e dedicado criado,
António Nobre
In F. A. Oliveira Martins, Oliveira Martins e os Seus Contemporâneos

António Nobre

Oliveira Martins

sábado, novembro 18, 2006

Ando com vontade de ler o Gorki.

Antologia Improvável #179 - Isabel Meyrelles

Como sempre,
passas inexorável e distante
em me veres.
Como sempre,
olho aquele ponto vago
acima do teu rosto
e, como sempre,
penso: amanhã... talvez amanhã
e olho as tuas costas que se afastam
como sempre.

Em Voz Baixa / Poesia

Isabel Meyrelles

uma vinheta de Stuf
Passe-Moi Le Ciel

sexta-feira, novembro 17, 2006

Rip Kirby


Uma visita ao regabofe veio lembrar-me o good old Rip Kirby, fleumático detective auxiliado pelo não menos circunspecto mordomo Desmond, criaturas ambas duma divindade chamada Alex Raymond. Kirby (que entre nós também deu pelo nome de Luís Euripo) é a minha personagem preferida dentre todas as que lhe saíram dos aparos (Agente Secreto X-9, Flash Gordon, Jim da Selva) -- porventura mais conspícuos, mas decerto menos palpáveis.

cantadura

vejo na 6.ª do DN que os X-Ray Spex chegaram finalmente aos CDs
(e também vejo que os Who ainda não os largaram)

provérbio

mais vale uma maria josé nogueira pinto sem pelouros que um executivo psd no poder

estampa LXXX

Hans Holbein, o Jovem, Henrique VIII
Galeria Nacional, Roma

O Vale do Riff - Queen, «Under Pressure»



quinta-feira, novembro 16, 2006

Novas mutilações

Adelino Faria (João)
Adelino Maltez (José)
César das Neves (João)
César Monteiro (João)
Deus Pinheiro (João de)
Fátima Bonifácio (Maria de)
Filipe Vieira (Luís)
Filomena Mónica (Maria)
João Jardim (Alberto)
Lúcio de Azevedo (João)
Luís Goucha (Manuel)
Miguel Júdice (José)
Óscar Fragoso Carmona (António)
Paulo Cotrim (João)
Pedro Aguiar Branco (José)
Pedro Gomes (José)
Raul dos Santos (José)
Rita Lopes (Teresa)

António Alves (Ricardo)

O Vale do Riff - King Crimson, «Frame by Frame»



quarta-feira, novembro 15, 2006

Figuras de estilo - Júlio Dantas

Uma mulher bonita a dizer insolências
É a coisa mais galante e mais deliciosa
Que pode imaginar-se. É como se uma rosa
Soltasse imprecações, vermelha e melindrada,
Contra as asas de sol duma abelha doirada...

A Ceia dos Cardeais

Júlio Dantas

O Vale do Riff - Peter Gabriel, feat. Youssou NDour, «In Your Eyes»

'

terça-feira, novembro 14, 2006

segunda-feira, novembro 13, 2006

domingo, novembro 12, 2006

Joaquim Bensaúde

Correspondências #67 - Joaquim Bensaúde a Joaquim de Carvalho

76 Rua do Possolo
27 de Março. 924
Exmo Sr.
Para quem vive como eu uma vida intensa em epocas longinquas do passado, tem sido uma surpreza e um prazer ver a orientação nova e fecunda que nos ultimos tempos tem produzido entre nós um grande numero de benemeritos trabalhadores. É uma esperança n'este chaos politico tragico e lugubre em que vivêmos. Serão as andorinhas annunciadoras de tempos de primavera? Se assim é, bem poderei morrer em paz e contentamento.
Ponho aqui a VEx. as ideas e a impressão de surpreza que tive q.do recebi o bello livro de VEx. sobre Leão Hebreo.
Passaram-me tantos autores judaicos pelas mãos durante as minhas longas pesquizas da historia da mathematica e astronomia da Peninsula que agora só tenho verdadeiro prazer quando pesco algum mathematico ou astrologo christão desconhecido e ignorado.
As decantadas trevas peninsulares na edade media apregoadas por esse mundo fora por quem quis expoliar a cultura peninsular, foram uma lenda cujo alcance ainda se não pode medir. Estou hoje profundamente convencido de que as trevas na Peninsula começaram com os desmandos inquisitoriaes -- e que nas queimas de livros dos autos de fé, não foi só a sciencia judaica que desappareceu mas tanta ou quasi tanta sciencia christã.
Em mathematica e astronomia, em medicina, e em philosophia ha uma grande obra a fazer para por em evidencia o que foi a herança scientifica dos Arabes na Penísula e o que foi este grande centro irradiador que assimilava e divulgava pela Europa o que os invasores aqui deixaram.
Agradeço a VEx. o seu primoroso trabalho que como pode fazer idea vou ler com o mais vivo interesse.
De VEx.
mt. admirador e grato
Joaquim Bensaude
A Historiografia dos Descobrimentos -- Através da Correspondência Entre Alguns dos Seus Vultos
(edição de João Marinho dos Santos e José Manuel Azevedo e Silva)

Joaquim de Carvalho

sábado, novembro 11, 2006

estampa LXXIX

Edvard Munch, Irmã Inger
Galeria Nacional, Oslo

Caracteres móveis - Jorge de Sena

A melhor poesia tem sempre um tom de conversa intelectual, que é inimigo da brilhante e má retórica.
Régio, Casais, a «presença» e Outros Afins

Sena

Boas maneiras

Sinead O'Connor