sábado, julho 08, 2006
Figuras de estilo - Joaquim Paço d'Arcos
Todas as alternativas da guerra, os altos e baixos da tremenda aventura, as horas negras de Dunquerque e da capitulação da França, os momentos decisivos da batalha de Inglaterra, o vaivém dos exércitos no Norte de África, a rendição de Tobruk, a queda de Singapura e o vertiginoso alastramento nipónico pelo Sudeste Asiático, os dias e noites sombrios da batalha do Atlântico, a manhã luminosa de Al-Alamein, o desembarque na Sicília e a campanha de Itália, os golpes de tragédia renascentista da política italiana, o desembarque na Normandia e o estabelecimento da Segunda Frente, a libertação de Paris e a travessia do Reno, a Guerra com G grande, a guerra total, no mar, na terra, no ar, nas cidades e no deserto, na selva da Birmânia, nos bancos de coral da Oceania e nas planícies da Europa, na Câmara dos Comuns destruída pelas bombas inimigas ou à mesa das Conferências secretas, toda essa película, terrífica e alucinante, passa a nossos olhos e a nosso espírito nas páginas das volumosas Memórias do guerreiro e do estadista que, como César, forjou a História e escreveu-a.Churchill -- O Estadista e o Escritor
(fotografia de Churchill
por Yussuf Karsh, 1941)
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sexta-feira, julho 07, 2006
Saúte
Parece que anda por aí um novo excelente cronista. (Os bons cronistas contam-se pelos dedos de uma mão.) A prosa de Nelson Saúte no último JL vale muitíssimo a pena.
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Quero ser muçulmano,
se o Salazar e o Franco, porque combatentes do comunismo, foram também defensores estrénuos dos valores católicos, como quis esta semana um deputado polaco ao Parlamento Europeu.
quinta-feira, julho 06, 2006
Antologia Improvável #144 - Alfredo Guisado
O BALOIÇO
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
A Lenda do Rei Boneco / Líricas Portuguesas - 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
A Lenda do Rei Boneco / Líricas Portuguesas - 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)
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quarta-feira, julho 05, 2006

No indigente circo norte-coreano, o palhaço de hoje pode, amanhã, transformar-se em fera, se os espectadores se distraírem. O potencial domador, a China, remete-se agora para o papel que mais lhe convém, o de mestre-de-cerimónias. Há, a sul, um espinho encravado chamado Formosa e outro a norte, o Tibete, que bem podem ser uma tentação para Pequim deles se servir como moeda de troca: compreensão por parte da América & aliados no tratamento destes assuntos internos (que no caso do país do Dalai-Lama é uma mera ocupação ilegítima), em troca da domesticação de Kim Jong Il.
Porque, a meu ver, nada que Pyongyang faça em matéria de política externa se processa sem, pelo menos, a condescendência do seu mastodôntico vizinho setentrional.
Cartoon
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Caracteres móveis - José Bettencourt da Câmara

Remotos fundos étnicos diferentes a explicar a diversidade de patrimónios culturais em comunidades às vezes muito próximas no espaço? Não custa admiti-lo, considerando, por um lado, a diversidade de estratos populacionais, por assim dizer, que até ao período medieval se acumulam no território medieval e, pelo outro, o grau de autarcia em que subsistiram as nossas comunidades rurais até há pouco.
O Essencial sobre a Música Tradicional Portuguesa
Logotipo da Brigada Victor Jara
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terça-feira, julho 04, 2006
segunda-feira, julho 03, 2006
Antologia Improvável #143 - Armando Cortes-Rodrigues
(SONETILHO 3.º. DE VIOLANTE DE CISNEIROS)
Quando a paisagem recolhe
Seus olhos, na tarde calma,
É como alguém que se olhe
Com olhos de alma p'ra alma.
Se a paisagem esmorece,
Fechando os olhos doridos,
É como alguém que perdesse
A noção dos seus sentidos.
Não vê... não ouve... não fala...
Paisagem de si ausente,
Fico-me ausente de olhá-la.
Caminho! Noite cerrada!
Sou a Paisagem de ausente
Toda em mim transfigurada.
Cantares da Noite / Líricas Portuguesas, 2ª. Série
(edição de Cabral do Nascimento)
Quando a paisagem recolhe
Seus olhos, na tarde calma,
É como alguém que se olhe
Com olhos de alma p'ra alma.
Se a paisagem esmorece,
Fechando os olhos doridos,
É como alguém que perdesse
A noção dos seus sentidos.
Não vê... não ouve... não fala...
Paisagem de si ausente,
Fico-me ausente de olhá-la.
Caminho! Noite cerrada!
Sou a Paisagem de ausente
Toda em mim transfigurada.
Cantares da Noite / Líricas Portuguesas, 2ª. Série
(edição de Cabral do Nascimento)
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domingo, julho 02, 2006
Correspondências #50 - Aleister Crowley a Fernando Pessoa
Ivy Cottage
Knockholt, Kent,
Dec. 22nd, 1929
Knockholt, Kent,
Dec. 22nd, 1929
Care Frater:
Do what thou wilt shall be the whole of the Law.
Thank you very much for the three little books. I think they are really very remarkable for excellence.
In the Sonnets, or rather Quatorzaines, you seem to have recaptured the original Elizabethan impulse -- wich is magnificent.
I like the other poems, too, very much indeed.
Love is the law, love under will.
Yours fraternally,
Aleister Crowley
In Marco Pasi, Aleister Crowley: tra trasgressione e tentazione politica
apud Victor Belém, O Mistério da Boca-do-Inferno -- O Encontro Entre o Poeta Fernando Pessoa e o Mago Aleister Crowley
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sábado, junho 24, 2006
Ouvindo Waine Shorter, de pé
O Parque rebenta pelas costuras.
Alegría.
De joelhos e de cócoras,
as fotógrafas procuram ângulo.
Alegría.
Waine despeja notas
com ar de executivo em férias.
Alegría.
Engasgado o soprano,
a secção rítmica arranca-nos
inesperadas flexões
de joelhos. De joelhos
as fotógrafas continuam
à procura do melhor ângulo.
Alegría.
O tempo estava incerto.
Chuva no final do concerto.
Alegría.
De joelhos e de cócoras,
as fotógrafas procuram ângulo.
Alegría.
Waine despeja notas
com ar de executivo em férias.
Alegría.
Engasgado o soprano,
a secção rítmica arranca-nos
inesperadas flexões
de joelhos. De joelhos
as fotógrafas continuam
à procura do melhor ângulo.
Alegría.
O tempo estava incerto.
Chuva no final do concerto.
Cascais, 12-VIII-2003
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sexta-feira, junho 23, 2006
Antologia Improvável #142 - Martins Fontes (2)
O INDIFERENTE
Ao Poeta Luís Edmundo, no dia da nossa
visita ao Salão La Case, no Louvre.
Les donneurs de sérénades
Et les belles écouteuses
Échangent des propos fades...
Watteau-Verlaine-Samain
Fêtes Galantes
No azulor do silêncio o parque se edulcora...
Luarizam-se os cetins, afinando os corpetes...
Desprendem-se os roclós, soltam-se os manteletes...
Sons de viola de amor, mandolina ou mandora...
Vinhos de Asti e Tokay... Granadinas de Angora...
Confeitilhos. Bombons. Caramelos. Sorvetes.
Ruge-ruges... A ouvir-lhe o flautim dos falsetes,
Da canção de Damis Climène se enamora...
Ré... mi... sol... si... lá... lá... Afectadas, fictícias,
Fluidicamente, as mãos arpejam as carícias...
-- Ui! que frívola eu sou! -- Oh! tão frágil não és...
E o indiferente, a sós, na pelúcia da brisa,
Violeta azul que em tons de opala se arcoirisa,
Gracilmente desfolha o coração de Agnès!
Schahrazade / Poesias Completas
Ao Poeta Luís Edmundo, no dia da nossa
visita ao Salão La Case, no Louvre.
Les donneurs de sérénades
Et les belles écouteuses
Échangent des propos fades...
Watteau-Verlaine-Samain
Fêtes Galantes
No azulor do silêncio o parque se edulcora...
Luarizam-se os cetins, afinando os corpetes...
Desprendem-se os roclós, soltam-se os manteletes...
Sons de viola de amor, mandolina ou mandora...
Vinhos de Asti e Tokay... Granadinas de Angora...
Confeitilhos. Bombons. Caramelos. Sorvetes.
Ruge-ruges... A ouvir-lhe o flautim dos falsetes,
Da canção de Damis Climène se enamora...
Ré... mi... sol... si... lá... lá... Afectadas, fictícias,
Fluidicamente, as mãos arpejam as carícias...
-- Ui! que frívola eu sou! -- Oh! tão frágil não és...
E o indiferente, a sós, na pelúcia da brisa,
Violeta azul que em tons de opala se arcoirisa,
Gracilmente desfolha o coração de Agnès!
Schahrazade / Poesias Completas
quarta-feira, junho 21, 2006
Caracteres móveis #79 - Antoine de Saint-Exupéry
A infância, esse grande território donde todos saímos! Pois donde sou eu? Sou da minha infância como se é de um país...
Piloto de Guerra
(tradução de Ruy Belo)
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terça-feira, junho 20, 2006
Ressentidos
com o mundo, com a vida, com eles próprios -- são assim os extremistas, a coberto da máscara de fortaleza com que querem enganar(-se).
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segunda-feira, junho 19, 2006
Antologia Improvável #141 - Júlio Dantas (2)
FEIA
Não te amei. E porquê? Porque não há em ti
A graça que perturba, o sorriso que enleia:
Porque eu sou cego, filha, e porque tu és feia;
Porque te olhei, amor, e porque não te vi.
Foste minha e -- vê lá! -- nunca te conheci.
A tua alma, tão bela e tão nobre, -- ignorei-a.
Quis beleza, frescura, -- e contruí na areia:
Só comecei a amar-te, hoje, que te perdi.
Amor espiritual, amor sem esperança,
Amor que não deseja e, por isso, não cansa,
Amor contrito e puro, arrependido e triste...
Hoje estou convencido, ó minha gloriosa:
A paixão sem beleza é a mais perigosa;
O amor por uma feia é o maior que existe.
Sonetos
Não te amei. E porquê? Porque não há em ti
A graça que perturba, o sorriso que enleia:
Porque eu sou cego, filha, e porque tu és feia;
Porque te olhei, amor, e porque não te vi.
Foste minha e -- vê lá! -- nunca te conheci.
A tua alma, tão bela e tão nobre, -- ignorei-a.
Quis beleza, frescura, -- e contruí na areia:
Só comecei a amar-te, hoje, que te perdi.
Amor espiritual, amor sem esperança,
Amor que não deseja e, por isso, não cansa,
Amor contrito e puro, arrependido e triste...
Hoje estou convencido, ó minha gloriosa:
A paixão sem beleza é a mais perigosa;
O amor por uma feia é o maior que existe.
Sonetos
domingo, junho 18, 2006
Correspondências #49 - Alexandre Herculano a Oliveira Martins
[1869]
Il.mo Snr.
V. S.ª teve a bondade de me remeter o seu opúsculo acerca de Teófilo Braga e do Romanceiro e Cancioneiro Português, acompanhando a dádiva de uma carta recheada de expressões tão exageradamente benévolas que não sei se as agradeça, se me limite a esconder a mesma carta para que ninguém a veja.
Sempre tive grandes dúvidas sobre a doutrina da superioridade das inteligências; isto é, da diferença de inteligência a inteligência, quando estas são completas. No que acreditava, na época em que pensava nessas cousas, era na superioridade das vontades. O querer é que é raro; e tenho a consciência de que fui um homem que quis nas cousas literárias. Desde que perdi o querer, caí na vulgaridade. Hoje não passo de um homem vulgar.
Aqui tem V. S.ª a verdade da minha apoteose.
Quando profundos desgostos me forçaram a descrer das letras, e ainda mais do país, as tendências da actual mocidade estudiosa apenas despontavam no horizonte, se despontavam. V. S.ª faz-me, ou o favor, ou a justiça, no seu opúsculo, de me supor homem de análise. Não há-de, pois, de admirar-se que lhe diga que me parecem perigosas, para não dizer outra cousa, essas tendências. A generalização, a síntese, são, em absoluto, cousas excelentes: são a ciência na sua forma definitiva e aplicável. Mas, para generalizar e sintetizar, é necessário haver que. Ora, a história, na significação mais ampla da palavra, ainda não possui elementos suficientes para a generalização. Desde a paleontologia e a etnografia, até à história das sociedades modernas, há muitos factos adquiridos indubitável e indisputadamente para a ciência; mas há muitos mais ignorados, incompletamente conhecidos, ou disputados; e isto não só na história política e na social, mas também na do desenvolvimento intelectual do género humano, na das letras e da ciência. Que síntese séria é possível assim? Enquanto a análise não tiver subministrado uma extensa série de monografias definitivas, as sínteses que andam por aí correndo não passam de romances pouco divertidos, quando não são piores do que isso: uma geringonça absurda.
No tempo em que eu andava peregrinando por esse mundo literário, antes de me acolher ao mundo tranquilo de santa rudeza, conversei um pouco com Vico e Herder, com Vico e Herder como a Itália e a Alemanha os geraram, e não como os aleijaram e embaiucaram os cabeleireiros franceses (todo o francês, com raras excepções, tem um pedacinho de cabeleireiro). Sempre me pareceu que tinham nascido muito antes do seu tempo. Deus ter-lhes-á de certo perdoado o mal que fizeram. Sem o quererem, nem pensarem, deram origem a uma cousa em história que eu só sei comparar ao gongorismo da poesia e da prosa literária do século XVII.
Desculpe V. S.ª esta franqueza de um homem do campo. Tenho-a, porque o seu opúsculo revela um escritor, e, posto que hoje eu não passe de um profano, far-me-ia pena se o visse perdido por esse desvios das simbólicas, das estéticas, das sintéticas, das dogmáticas, das heróicas, das harmónicas, etc..
Teófilo Braga é uma inteligência completa e uma grande vocação literária, mas uma fraca vontade: gosta de fazer ruído; deseja adquirir reputação; não possui, porém, o querer robusto que vai até o sacrifício, que vai até o martírio, e que é preciso para se tornar um homem verdadeiramente superior. Achou a porta do abstruso sintético e simbólico engrinaldada de maravalhas francesas: meteu-se por ela; e, em resultado, aí temos, não direi a Visão, as Tempestades e a Ondina, porque não quero que V. S.ª fique mal comigo, mas direi a História da Poesia Popular e os Forais que V. S.ª mesmo trata desapiedadamente.
Nestas matérias, peço a V. S.ª que se volte um pouco para a análise. Há tanto que fazer por esta parte! Relendo o seu folheto daqui a anos, há-de conhecer que o conselho era sincero e amigável. Dir-me-á porque não o dou a Teófilo Braga? Porque não o aceita. Aquele, ou já se não cura, ou há-de curar-se a si mesmo. É o que, sem lho dizer, eu do coração desejo. Disponha V. S.ª da inutilidade deste aldeão que é, de V. S.ª V.or e C.
In Oliveira Martins, Alexandre Herculano
(edição de Joel Serrão)
sábado, junho 17, 2006
Caracteres móveis #78 - Edgar Allan Poe
Nada mais vago que as impressões da identidade dos indivíduos.
O Mistério de Maria Roget
(tradução de Jorge de Sena)
O Mistério de Maria Roget
(tradução de Jorge de Sena)
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sexta-feira, junho 16, 2006
Dubcek

O episódio de ontem do interessantíssimo documentário sobre Álvaro Cunhal recordou-me o rosto humano de Alexandre Dubcek, um dos meus heróis da adolescência.
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Antologia Improvável #140 - João de Barros (4)
RENÚNCIA
Esta é a hora de renunciar...
Antes que venham mais desilusões,
Ensina o teu orgulho a desprezar
Sonhos inúteis e banais paixões.
Beijos que deste -- ensinam-te a chorar...
Alma em que viste ocultas perfeições
Soube apenas mentir ou duvidar:
Nunca entendeu as tuas ambições!
Esquece tudo, esquece e renuncia!
-- Maior do que essa, fora a covardia
De viver de um amor desiludido.
Ah! desejar o encanto das estrelas!...
-- Tão longe estão que a gente, só de vê-las,
Quase imagina tê-las possuído!
Humilde Plenitude
Esta é a hora de renunciar...
Antes que venham mais desilusões,
Ensina o teu orgulho a desprezar
Sonhos inúteis e banais paixões.
Beijos que deste -- ensinam-te a chorar...
Alma em que viste ocultas perfeições
Soube apenas mentir ou duvidar:
Nunca entendeu as tuas ambições!
Esquece tudo, esquece e renuncia!
-- Maior do que essa, fora a covardia
De viver de um amor desiludido.
Ah! desejar o encanto das estrelas!...
-- Tão longe estão que a gente, só de vê-las,
Quase imagina tê-las possuído!
Humilde Plenitude
Fastio
A cerveja «Sagres» encheu de cores nacionais o restaurante onde costumo almoçar: a bandeira com o nome do estabelecimento, além de garridas tarjas e tarjetas. Os empregados de mesa envergavam patrióticas camisolas com a esfera armilar. Para ajudar, o ecrã gigante sintonizado na sport tv vomitava portugaaaaaaall com estrilho, seguindo-se o respectivo patrocinador. Perde-se logo a vontade de apoiar.
quinta-feira, junho 15, 2006
Espera
A noite fechada trouxe-me cá fora, ao alto portão de ferro. Agarro-me às grades como um escravo da luz de breu. Passo o portão e em dois passos estou na abadia que parecia distar léguas. Um cheiro fétido a suor e burel revelam-me um monge que me fita silencioso. Trespassa-me uma ventania de claustro e o piso, antes terroso, é agora de pedra. Não consigo articular uma palavra, apenas sons abafados pelos sinos que me ensurdecem. Os olhos, de dentro do capuz, indicam-me agora um rectângulo na laje. Gravado está o meu nome, o dia do meu nascimento, e o desta noite.
Agosto de 2000
Seis Composições Outonais
quarta-feira, junho 14, 2006
Caracteres móveis #77 - Aurélio Buarque de Hollanda
As qualidades dominantes do estilo de Eça parecem-me o resultado destes três factores:
uma requintadíssima percepção sensorial, que ia quase à volúpia;
um agudo senso do pitoresco;
e a ironia.
«Linguagem e estilo de Eça de Queiroz»,
Livro do Centenário de Eça de Queiroz
(edição de Lúcia Miguel Pereira e Câmara Reys)
Caricatura de Eça de Queirós, por Rafael Bordalo Pinheiro, para o Álbum das Glórias
terça-feira, junho 13, 2006
Antologia Improvável #139 - Carlos Nejar (3)
A MATÉRIA FELIZ
Toda a matéria pesa
quando acordada e é leve
se adormecida. Raro
o instante que nos serve.
Da alma tudo é breve
por ser tudo infinito.
A matéria é feliz,
quando sonhada.
E amada, então
toda a matéria
pausa.
Livro de Gazéis / Antologia Poética
(edição de António Osório)
Toda a matéria pesa
quando acordada e é leve
se adormecida. Raro
o instante que nos serve.
Da alma tudo é breve
por ser tudo infinito.
A matéria é feliz,
quando sonhada.
E amada, então
toda a matéria
pausa.
Livro de Gazéis / Antologia Poética
(edição de António Osório)
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segunda-feira, junho 12, 2006
domingo, junho 11, 2006
Proxenetismo social
A propósito de um brinde do saudoso Expresso -- a bandeira nacional patrocinada pelo Banco Espírito Santo --, Alexandre Dias Pinto, n'O Tonel de Diógenes, elabora certeiramente a propósito dos principios que os nossos queridos capitalistas em geral põem alegremente entre parênteses quando se trata do dinheirinho. Veio-me logo à ideia gente como o Pais do Amaral ou o próprio Balsemão, que não têm escrúpulos em despejar em casa dos seus pobres concidadãos todo o lixo de que podem lançar mão -- lixo televisivo que, obviamente, eles, pessoas educadas, não vêem. A esta mentalidade chamou certa vez Assis Esperança, numa carta a Ferreira de Castro, a avidez da ganhuça. E quem ganha dinheiro a degradar espiritualmente os outros, só merece para a sua sórdida actividade o qualificativo com que intitulo este post: o de proxenetismo social.
Correspondências #48 - Fernando Pessoa a Armando Cortes-Rodrigues
28-6-1914
Irmão em Além!
Eu vos saúdo e vos peço que amanhã, entre o soar duplo das duas e o soar simples das duas e mais metade de uma hora, surjais com a vossa presença carnal -- sem prolongamento gesticulante de bengala agressiva -- à vil cova ou jazigo de inutilidades e propósitos artísticos que dá pelo nome humando de «Brasileira do Rossio». Da vossa tese vos falarei, insciente ainda se então pronta, mas pronta de certo, se não a essa, ora marcada, hora, ao cair lento e morno do crepúsculo de amanhã. Não vos aflijais! Os deuses têm tempo para tudo. E no dia 30 entregareis, se antes o Destino a não telegrafar de pronta.
Guarde-vos Deus; e que a futura Divindade Tutelar das Estranhezas Irritantes vos assente à sua mão direita.
Fernando Pessoa
Cartas a Armando Cortes-Rodrigues
(edição de Joel Serrão)
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sábado, junho 10, 2006
Antologia Improvável #138 - Pedro Tamen
Tendo chegado ao fim da rua, vês de longe
que o princípio da rua não existe. O que tu vês
não é calçada ou casa, sequer esquina,
o que tu vês não é alegre ou triste,
o que tu vês arrasa os próprios olhos
porque os vês vazios.
E apenas há quem julgue que chegaste
porque pesas um peso que soltaste
pelo caminho por onde nunca andaste.
Guião de Caronte
que o princípio da rua não existe. O que tu vês
não é calçada ou casa, sequer esquina,
o que tu vês não é alegre ou triste,
o que tu vês arrasa os próprios olhos
porque os vês vazios.
E apenas há quem julgue que chegaste
porque pesas um peso que soltaste
pelo caminho por onde nunca andaste.
Guião de Caronte
sexta-feira, junho 09, 2006
E porque não?
E porque não, um dia do cão? Tudo que contribua para ajudar a civilizar um país ajavardado como o nosso querido Portugal é positivo e tem o meu apoio. Eu gosto de cães e aprecio o civismo. Os cães já nós temos...
quinta-feira, junho 08, 2006
Caracteres móveis #76 - Edmundo de Bettencourt

-- O nome de «presença» é um achado. [...] Como lhe ocorreu esse nome, que é a mais bela síntese, que conheço, de um programa tão vasto?
-- [...] Encontrei-o por intuição, digamos [...] uma ideia latente em quase todos os presencistas [...] ela me parece obedecer a uma noção da vida nas suas relações com o tempo, segundo a qual a consciência de existir, na maior plenitude, nos é dada pelo momento presente que vivermos em intensidade. Só esse valerá para a aspiração de eternidade que não abandona o homem, porque será antecipação, futuro já, por conseguinte. Aquele futuro de que o homem não se pode desprender por estar na raiz do seu próprio instinto de conservação, e que é desejo obscuro de continuar.
In João de Brito Câmara, O Modernismo em Portugal (Entrevista com Edmundo de Bettencourt)
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quarta-feira, junho 07, 2006
Antologia Improvável #137 - Ed. Bramão de Almeida (2)
AMOR-METEORO
Encontrei-a no cais, ao embarcar,
E, após um curto olhar retribuído,
Tão preso me senti, tão seduzido,
Que até como isto foi nem sei contar.
Só sei que agradeceu o meu olhar
Com outro mais gentil e enternecido,
E que fiquei em terra possuído
De um ódio torvo e estranho contra o mar.
Não mais em minha face inconsolável
Demorará seus olhos de veludo!
Não mais aquele instante inolvidável!
Um protesto de amor ardente e mudo,
Um sorriso, uma dor incomportável,
Um triste volver de olhos... e foi tudo.
Maré Alta
Encontrei-a no cais, ao embarcar,
E, após um curto olhar retribuído,
Tão preso me senti, tão seduzido,
Que até como isto foi nem sei contar.
Só sei que agradeceu o meu olhar
Com outro mais gentil e enternecido,
E que fiquei em terra possuído
De um ódio torvo e estranho contra o mar.
Não mais em minha face inconsolável
Demorará seus olhos de veludo!
Não mais aquele instante inolvidável!
Um protesto de amor ardente e mudo,
Um sorriso, uma dor incomportável,
Um triste volver de olhos... e foi tudo.
Maré Alta
segunda-feira, junho 05, 2006
Figuras de estilo #31 - Trindade Coelho
Tinham andado à azeitona todo o santo dia, e estavam a cear, de ranchada, em casa do amo. Prosseguiu a conversa em grande galhofa enquanto durou o caldo, e enquanto, depois do caldo, comeram as batatas guisadas. Era na cozinha, a grande cozinha escura do lavrador -- com o lume a arder além, o armário acantoado acolá, ali a cantareira, além a boca do forno, a masseira logo ao pé, a banca daquela banda, onde a moça, mais a ama, despachavam as refeições, e em cima, pingando, as varas do fumeiro. A um lado, ao pé da porta que dava saída para o quintal, as azeitoneiras comiam, alumiadas por uma candeia.
«Luzia»,
Antologia do Conto Português
domingo, junho 04, 2006
Antologia Improvável #136 - Francisco Alves da Costa
MARASMO
Nenhum grito desperta o silêncio de agora;
Cavalga sobre o mar um turbilhão de medos;
Perderam as marés o ímpeto de outrora;
Já não franjam de espuma a crista dos penedos.
Crocitam pelo espaço, em bandos, as gaivotas
E os capitães, no cais, dormitam, insensíveis;
Sob as águas do porto, as âncoras ignotas
Sonham cada vez mais com viagens impossíveis.
Viagem Dentro de Mim
Nenhum grito desperta o silêncio de agora;
Cavalga sobre o mar um turbilhão de medos;
Perderam as marés o ímpeto de outrora;
Já não franjam de espuma a crista dos penedos.
Crocitam pelo espaço, em bandos, as gaivotas
E os capitães, no cais, dormitam, insensíveis;
Sob as águas do porto, as âncoras ignotas
Sonham cada vez mais com viagens impossíveis.
Viagem Dentro de Mim
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Francisco Alves da Costa
sábado, junho 03, 2006
Correspondências #47 - Camilo Castelo Branco a João de Deus
[1887]
Meu prezado João de Deus
Meu prezado João de Deus
Nas onze dúzias de livros que fabriquei, não há uma elegia. As minhas elegias são tristezas incomunicáveis.
Lida a sua estimada carta, escrevi isso que remeto. Consulte T. Braga. Fomos inveterados inimigos em letras. Que não vá a minha intervenção na sua dor causar-lhe desgosto. Aqui estou quási cego, paralytico; ao lado de um filho querido e mentecapto que já tentou matar-me. Haverá grandes desgraçados, que comparados comigo, se considerem quási felizes.
Abraça-o o seu velho amigo
C. CASTELLO BRANCO
In Moreira das Neves, Camilo Tal Qual
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Teófilo Braga
sexta-feira, junho 02, 2006
quinta-feira, junho 01, 2006
Antologia Improvável #135 - Afonso de Castro (2)
SONETO DO OUTONO
A CORREIA DA COSTA
Enquanto o Outono lacrimoso tece
Seus claros véus de chuvas e de bruma,
E o prado de esmeralda empalidece,
E as folhas de âmbar tombam uma a uma...
Enquanto o vento, em cânticos de prece,
Com afagos de seda me perfuma,
E a tarde exangue, em êxtase, esmorece
Num céu morno de etéria sumaúma...
É que me sinto amar com mais ardor
Tua beleza de ave, estrela e flor,
-- Beijo que rezo e sonho que murmuro...
E num deslumbramento prodigioso,
Noivo, comungo, em plenitude e gozo,
Teu destino de sombra, que procuro.
Antifonário Pagão
A CORREIA DA COSTA
Enquanto o Outono lacrimoso tece
Seus claros véus de chuvas e de bruma,
E o prado de esmeralda empalidece,
E as folhas de âmbar tombam uma a uma...
Enquanto o vento, em cânticos de prece,
Com afagos de seda me perfuma,
E a tarde exangue, em êxtase, esmorece
Num céu morno de etéria sumaúma...
É que me sinto amar com mais ardor
Tua beleza de ave, estrela e flor,
-- Beijo que rezo e sonho que murmuro...
E num deslumbramento prodigioso,
Noivo, comungo, em plenitude e gozo,
Teu destino de sombra, que procuro.
Antifonário Pagão
Etiquetas:
Afonso de Castro,
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