quinta-feira, setembro 06, 2007

Antologia Improvável #250 - paulo da costa

GELO CANADIANO

uma década decorrida, a noite ainda prometedora e eu, mais delapidado, recordo os primeiros passos no gelo canadiano -- acácias da rússia à esquerda, árvore do lis dobrada ao vento -- subi os frios degraus de pedra, 238 avenida scarboro, números e letras mudos sob o xaile de dezembro ao pousar o saco verde no soalho de cerne; uma década a reiventar alento, esse saco vazio e desfalecido no canto obscuro, lágrimas a espalhar pedras preciosas, amigos, irmã, bolinhos de bacalhau, pai, mãe, um búzio, a língua abandonada num aeroporto de confusões, voltas intermináveis sem música no carrossel da bagagem, os dentes a apodrecer pela raiz, a dor de me exprimir, esta miragem de voar através de continentes e crenças, o caloroso braço erguido, uma asa que se estende do topo da figueira à árvore do lis, aterrando, acreditando que a terra chega tão longe, tão perto de algo sonhado


Notas de Rodapé

O Vale do Riff - Phil Woods, Clark Terry et allii, «Straight No Chaser»

quarta-feira, setembro 05, 2007

Caracteres móveis - Charles Baudelaire

A vida apenas possui um encanto verdadeiro: é o encanto do Jogo. Mas se nos for indiferente ganhar ou perder?


O Meu Coração a Nu precedido de Fogachos
(tradução de João Costa)

O Vale do Riff - Eric Clapton, «Cocaine»

estampa CXVII

Jean-Léon Gérôme, A Acendedora de Narguilé
Colecção particular, Genebra
tirado daqui

segunda-feira, setembro 03, 2007

Antologia Improvável #249 - Miguel Torga

VOZ

Era uma voz que doía
Mas ensinava.
Descobria
Mal o seu timbre se ouvia
No silêncio que escutava.

Paraísos, não havia.
Purgatórios, não mostrava.
Limbos, sim, é que dizia
Que os sentia,
Pesados de covardia
Lá na terra onde morava.

E morava neste mundo
Aquela voz.
Morava mesmo no fundo
Dum poço dentro de nós.


Libertação / Líricas Portuguesas. 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

O Vale do Riff - Fairport Convention, «Walk Awhile»

domingo, setembro 02, 2007

Figuras de estilo - Almeida Garrett

Não me lembra que Lord Byron celebrasse nunca o prazer de fumar a bordo. É notável esquecimento no poeta mais embarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o enjoo, a mais prosaica e nauseante das misérias da vida! Pois num dia destes, sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água, enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo.
Fumemos!


Viagens na Minha Terra
(retrato de Garrett por Columbano Bordalo Pinheiro, pormenor)

esta semana, de novo O Vale do Riff






óyeme oye / muchacha transeunte / bésame el alma
Mario Benedetti

sexta-feira, agosto 31, 2007

Na morte de Alberto de Lacerda

Do muito que se passou nestes dias de férias, a morte de Alberto de Lacerda foi o que mais me tocou. Era o meu poeta preferido, dos vivos, & agora um entre os mortos. Autor da palavra justa, precisa, essencial, musical, oficinal como encaixes perfeitos. As palavras, «quase todas a mais» no meio da adiposidade verbal contemporânea, da banalidade, do lugar-comum que carregamos, como um castigo. Tive a honra de o antologiar, com José Duarte, no Poezz ; e a desfaçatez de incluí-lo aqui, na «Antologia Improvável», onde continuará a aparecer, e um pouco por todo o blogue.

sexta-feira, agosto 17, 2007

()

(Fechado para parêntesis.)

sublime porta

Amolece-te a vontade
o vapor do banho turco.
A memória de há pouco
todo o querer já passou.

O Vale do Riff - Eagles, «New Kid In Town»

quinta-feira, agosto 16, 2007

A vida chega para me encher / o peito de tumulto e os olhos de lume
Armindo Rodrigues

O Vale do Riff - J. J. Cale, «Magnolia»