sexta-feira, novembro 24, 2006

Antologia Improvável #181 - Joseia de Matos Mira

RELÂMPAGO

Parir um poema,
máscara nas ventas,
anestesia nas veias,
arfando...

Parir um poema
como pari meus filhos...
Alucinação dos sentidos...

Criar sem saber
estar criando.

Parir sem saber
que estou parindo.

Lugar Solitário

O Vale do Riff - Woody Herman, «La Fiesta»

quinta-feira, novembro 23, 2006

Figuras de estilo - Campos Monteiro

Qual o esfomeado, por cujas mãos passem vitualhas, que tenha a hombridade bastante para lhes não cravar os dentes?
Saúde e Fraternidade

Campos Monteiro

O Vale do Riff - Ornette Coleman, «Times Square»

quarta-feira, novembro 22, 2006

E

E de elegante
E de elaborado
E de espasmódico, de efluente, de ejaculatório, de electrizante e de electromagneto, de entusiamante e de espectaculoso
E de eia!
E de edificante, de egrégio, de emérito, de engrandecido
E de egipciano e de eleusínico
E do espanto
E de de enobrecido, de efes-e-erres, de elanguescente, de envolvente e estiloso
E de escol
E de esmerilhado e também de elemental, de escandido e de escorrente
E de etnológico, de ebanítico, de eldorado, de escarlate, de ele e de ella
E de ecuménico
E de espalhado
E de estuário
E de edénico, de espiritual e de espiritoso, de enigmático, de evanescente
E de eficaz, de estremecido e de excelente
E de «Duke»
E de Ellington

foto

O Vale do Riff - Rory Gallagher, «Hands Off»

estampa LXXXI

Salvador Dalí, Alucinação Parcial. Seis Aparições de Lenine num Piano
Centro Pompidu, Paris

terça-feira, novembro 21, 2006

Antologia Improvável #180 - Luís Quintais

BÉTULA

Serás a humílima árvore.
A árvore a tinta
da china desenhada.
A árvore de papel.
Serás a bétula do Nepal.
A que não existe
senão na linguagem.
Serás a que sonha os dias,
as noites, as lembranças.
A que protege
da ira inclemente.
A que protege
do sopro do tempo.
A da sombra feliz.

Angst

Luís Quintais

O Vale do Riff - Led Zeppelin, «Whole Lotta Love»

domingo, novembro 19, 2006

Correspondências #68 - António Nobre a Oliveira Martins

Segunda-feira, 27-XI-1893.
18-- rue de la Sorbonne -- Paris
Ex.mo Senhor,
Há já alguns dias que cheguei a Paris e, se agora só venho ao pé de V. Ex.ª dar-lhe parte da minha chegada, é por só agora me achar restabelecido da minha dolorosa viagem. Levado pelo meu imprudente e herdado amor pelo mar, segui num pequeno vapor do Porto para o Havre, e no Canal da Mancha estive quase a ir ao fundo com uma tempestade do século XVI, como os seus olhos de historiador tantas têm visto. Sofri imenso. Hoje, tranquilo, venho dar a V. Ex.ª a minha adresse, como me disse da última vez que o visitei para pedir a V. Ex.ª a sua intervenção junto do Dr. Eduardo Prado: pedido que tomei a liberdade de lhe fazer sem que as nossas relações mo consentissem, é verdade, mas tendo apenas o estímulo da amizade que V. Ex.ª tem aos meus versos, o que me comove excepcionalmente por vir dum espírito que amo do coração e a que devo tanto. Espero me desculpará.
O Sr. Oliveira Martins, desse querido Portugal, disponha de mim, se dalguma coisa posso ser-lhe agradável neste País, agora tão lúgubre, sob a neve que está a cair.
Sou de V. Ex.ª, com a maior simpatia, muito admirador e dedicado criado,
António Nobre
In F. A. Oliveira Martins, Oliveira Martins e os Seus Contemporâneos

António Nobre

Oliveira Martins

sábado, novembro 18, 2006

Ando com vontade de ler o Gorki.

Antologia Improvável #179 - Isabel Meyrelles

Como sempre,
passas inexorável e distante
em me veres.
Como sempre,
olho aquele ponto vago
acima do teu rosto
e, como sempre,
penso: amanhã... talvez amanhã
e olho as tuas costas que se afastam
como sempre.

Em Voz Baixa / Poesia

Isabel Meyrelles