«Só pelo preço de muitas jornadas se compra o hábito de ficar impassível no meio dos episódios destas pequenas odisseias, que atormentam e exaurem o ânimo dos Ulisses novatos; mas ai, quando se adquire esse hábito, também nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as comoções do belo.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
«Porém, e este ponto de doutrina só raros o desconhecem, sobretudo se pertencerem à geração veterana, o cão Cérbero, que assim em nossa portuguesa língua se escreve e deve dizer, guardava terrivelmente a entrada do inferno, para que dele não ousassem sair as almas, e então, quiçá por misericórdia final de deuses já moribundos, calaram-se os cães futuros para toda a restante eternidade, a ver se com o silêncio se apagava da memória a ínfera região.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)
«Ao ver a expressão da irmã, Soriano julgou adivinhar nela uma discordância que se continha por falta de tempo para discutir. / -- Há muitas excepções, é claro, e tu és uma delas... -- acrescentou ele a sorrir. / Não é isso o que me importa -- interrompeu Mercedes, pousando a chávena.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)
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1 comentário:
«Faria e Sousa extractou do Registo da Casa da Índia, que não se pode deixar de admitir como havendo-o tido em sua mão, o seguinte assento:
«Fernando Casado, hijo de Manoel Casado y de Blanca Queymada, moradores em Lisboa, Escudero. Fué en su lugar Luis de Camões, hijo de Simon Vaz y Ana de Sa, Escudero; y recebió 2400 reis como los demas.» Os Casados não figuram no nobiliário. Por consonância, aqueles que se sentiram pungidos pela comichão da fidalguia foram levados a adoptar as armas dos Quesadas. Sem embargo, o filho era escudeiro, como se vê.
Deviam-no ser todos aqueles que em Lisboa afivelavam uma espada, viviam sem se saber de quê, não mostravam calos nas mãos.
A fidalguia de Luís de Camões, medida por este côvado, era tudo o que há de mais meia-tigela. No alvará de privilégio para imprimir os Lusíadas, não se acrescenta ao nome, como era de uso, a sua qualidade de escudeiro, ou cavaleiro-fidalgo da casa real. Lê-se, sim, na carta de perdão, embora ali o denominativo de cavaleiro-fidalgo da casa real seja ambíguo e muito provavelmente, a inferir da sua omissão no alvará de privilégio e na censura da primeira edição, se deva explicar antes ao pai de Camões. É certo que no alvará da tença se encontra, determinado o nome, o designativo de «cavaleiro-fidalgo de minha casa», mas não em nenhum outro instrumento. No alvará que manda reverter a tença de Luís de Camões em sua mãe, Ana de Sá, o poeta é qualificado de cavaleiro da minha casa, o tal título nobilitador de plebeios. Nestes instrumentos, para justificar a largueza, não se dissesse que era gastar cera com ruins defuntos ou porventura não criar maus precedentes, compreendia-se a menção honorífica a título meramente gracioso, admitindo que não houvesse para isso a razão imperiosa da sua legitimidade.
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
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