sábado, fevereiro 21, 2026

o que está a acontecer

«No dia, entre todos bendito, em que a "Pérola" apareceu à barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de arcanjo, furava de cima do seu corcel de Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Mas, com o mar colérico ou tranquilo como agora, ventasse rijo ou corresse, à tona, ligeira brisa, o espectáculo seria sempre de surpreender e extasiar, após a viagem desoladora. / No convés lavado de fresco, Juvenal Gonçalves, o busto flectido sobre a amura, ressuscitava a pretérita visão, com tanta pureza emotiva como se, realmente, fosse a primeira vez que ali aproasse um navio.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Depois, já não é a praia nem o mar, é a serra, com os seus socalcos montanhosos, as escarpas verdes semeadas de xisto e de granito. Esvaíram-se as figuras de Natália, de Carolina, da pequena Laura, mas a montanha enche-se de outros vultos.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

1 comentário:

Manuel M Pinto disse...

«Quando se não tinha profissão própria, e ninguém de facto a tinha -- "neste país todos somos nobres e é uma grande desonra exercer publicamente uma profissão", lê-se numa das Cartas de Cleynarts -- dado que se não fosse grande do Reino, ou, o que estava já fora da perspectiva, se não cavasse a terra, era-se escudeiro. Não obrigava a nada. Em parte alguma se perguntava a outrem pelos pergaminhos. "Tutti marchesi", como na opereta. No prólogo do 'El-rei Seleuco', Camões chasqueia do mester e implicitamente da honraria: "E diz que quem dela (farsa) se não contentar, querendo outros novos acontecimentos, se vá aos soalheiros dos escudeiros da Castanheira ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do boticário, e não lhe faltará que comer..."»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)