«Moram as Teles, e as Teles odeiam as Sousas. Moram as Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer cortesias. Moram as Albergarias, e as Albergarias só têm um fim na existência: estrear todos os semestres um vestido no jardim.» Raul Brandão, Húmus (1917)
«Eu vou à frente, que esse aí está às escuras, tem as janelas de dentro trancadas. Dá como este para o caminho. A cama é alta. É um leito. Antiga, sim. A senhora conhece que é de cana! Pois será, será. Deitaram-lhe esse verniz, também mo disseram.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)
«E a história. E história assim poderá ouvi-la a olhos enxutos a mulher, a criatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por vezes traz consigo do céu um reflexo da divina misericórdia: essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdera honra, reabilitação, pátria, liberdade, irmãs, mãe, vida, tudo, por amor da mulher que o despertou do seu dormir de inocentes desejos?!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)
«Não havendo em Portugal classe intermediária, ou ralé ou nobreza, tenhamos por oportuno dar Correia ao seu comentado a boa extracção. Acrescenta o mesmo: "Pelas armas foi na Índia muito conhecido e estimado, como testemunham muitas pessoas de qualidade que o conheceram naquelas partes e hoje vivem nelas". O licenciado não esteve na Índia; que o inventasse ou ouvisse, é peco o seu testemunho. Camões admirava, mas não prezava a profissão das armas. Se tivesse dado brado na milícia, os vizo-reis tê-lo-iam distinguido. Pelo menos tê-lo-ia assinalado Couto, que se deu com ele e foi seu matalote.»
ResponderEliminarAquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)