quinta-feira, novembro 29, 2018
vozes da biblioteca
«Como sempre que batem à porta daquele seu gabinete de trabalho, eleva muito a voz, a simular a irritação de quem vê as suas tarefas e lucubrações de dirigente intempestivamente interrompidas.» Assis Esperança, Trinta Dinheiros (1958)
«E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, envolta na treva glacial, parece lavada em lágrimas...» Raul Brandão, A Farsa (1903)
«E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, envolta na treva glacial, parece lavada em lágrimas...» Raul Brandão, A Farsa (1903)
«Um vaporzito, com graciosidade de gaivota e calentura de forno, largou de ao pé da Kars-en-Nil e, apitando aqui e ali, que o tráfego fluvial era grande em frente da cidade, começou a subir o rio sagrado.» Ferreira de Castro, do «Pórtico» de A Tempestade (1940)
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quarta-feira, novembro 28, 2018
feias, porcas e más: as televisões privadas como retretes públicas, das antigas, ou saudades da RTP do tempo do fascismo
A sic e a tvi são detentoras de uma concessão, por parte do Estado, ou seja, de todos nós, do sinal de emissão do serviço de televisão. Mais de 90% da programação daquelas estações é má ou muito má. A informação da tvi é superior à da sic; esta tem um grande momento aos sábados, ao fim da manhã, com a transmissão dos documentários da BBC sobre vida selvagem. Quanto ao resto, concursos, telenovelas, parvoíces. Mesmo os canais informativos são pobres, salvam-se alguns programas de debate ("Quadratura do Círculo" e "O Eixo do Mal" na sic; "Prova dos Nove" e "Governo Sombra" na tvi). É muito pouco.
Mas o que me espanta, perante a indiferença geral, é o à-vontade e a impunidade com que ambas as estações generalistas poluem o espaço público com inanidades e badalhoquices, dos talk shows matinais, em que apresentadores idiotas expõem ao voyeurismo mais grosseiro os infortúnios deste e daquela, até à promoção da mais vulgar boçalidade com os "Casados de Fresco" ou o "Love on Top", -- enfim o esterco despejado em casa das pessoas, quantas vezes com a justificação cínica e vigarista de que é daquilo de que elas gostam (ou até precisam...).
Não falo na cm-tv, a mais ampla cloaca comunicacional, pois está no cabo, e aqui, outros problemas se levantam. O que mais me incomoda, embora não me espante, é a passividade do Estado diante do oportunismo descarado dos operadores, da falta de ética e doutro critério que não seja o de gerar lucro, lançando mão de tudo o que lhe for permitido.
E pergunto: mas por que diabo devemos nós, e connosco o estado português, que atribuiu as concessões a estes operadores, contribuir para encher os bolsos aos donos e accionistas da sic e da tvi, cuja contrapartida pelo bem público de que se servem é o de espalhar os seus dejectos comunicacionais pelas casas dos portugueses e pelas nossas ruas, através dos painéis publicitários?
E pergunto: mas por que diabo devemos nós, e connosco o estado português, que atribuiu as concessões a estes operadores, contribuir para encher os bolsos aos donos e accionistas da sic e da tvi, cuja contrapartida pelo bem público de que se servem é o de espalhar os seus dejectos comunicacionais pelas casas dos portugueses e pelas nossas ruas, através dos painéis publicitários?
Ainda sou do tempo em que as casas de banho públicas das estações da CP do Cais do Sodré e do Rossio eram um antro de porcaria, iam para lá os que gostavam de chafurdar ou os incautos que desconheciam o ambiente. Que haja quem queira fazer televisão com o nível de wc público de país incivilizado, é um problema seu; mas que beneficie do Estado, para o fazer, e que o mesmo Estado contribua, pela inacção, inconsciência, cobardia, para esta caca, isso é que é indesculpável.
Não sei quando se extinguem os prazos das respectivas concessões, mas aqui é que era uma boa oportunidade para a ministra Graça Fonseca introduzir um bocado de civilização, civilidade e civismo nestas pocilgas, ou retirar-lhes a licença para degradar.
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terça-feira, novembro 27, 2018
vozes da biblioteca
«Exceptuando a mulher que tinha recebido o velho junto ao portão e com a qual ele conversava nesse momento, não tinha dado pela presença de qualquer alma viva; mas Eguchi, que ali ia pela primeira vez, não tinha conseguido aperceber-se se era a patroa ou uma empregada.» Yasunari Kawabata, A Casa das Belas Adormecidas (1961) (tradução de Luís Pignatelli)
«Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto.» Franz Kafka, A Metamorfose (1915) (tradução de Breno Silveira)
«Wilson estava sentado na varanda do Hotel Bedford com os rosados joelhos nus encostados à balaustrada de ferro.» Graham Greene, O Nó do Problema (1948) (tradução de J. P. de Barreto-Mendonça)
«Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto.» Franz Kafka, A Metamorfose (1915) (tradução de Breno Silveira)
«Wilson estava sentado na varanda do Hotel Bedford com os rosados joelhos nus encostados à balaustrada de ferro.» Graham Greene, O Nó do Problema (1948) (tradução de J. P. de Barreto-Mendonça)
vozes da biblioteca
«Abriu muito os olhos o abade e só então se apercebeu duma mocinha -- corpo que acaba de espigar na adolescência -- que às mãos ambas cobria o rosto e soluçava.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)
«No espaço quadrangular, entre o claustro e a ábside, tinham talhado, num período recente de desobstruções, um adorável jardim com os clássicos arruamentos de buxo enquadrando modestos canteiros de rosas e gerânios.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1919)
«Residências a caírem de velhas ou de mal-construídas, rebocos a cobrirem-lhes as fendas e rugas, as suas janelículas, a metros do solo, ostentam-lhes a presunção de inexpugnáveis.» Assis Esperança, Pão Incerto (1964)
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no LEFFest #19
Diários de Che Guevara, de Walter Salles. Argentina, EUA, Brasil, Reino Unido, Chile, Peru, 2004). «Homenagem Walter Salles». A génese do Che.
no LEFFest #18
Bleak Moments, de Mike Leigh, Reino Unido, 1971 («Retrospectiva Mike Leigh»). Ainda estou para perceber o ponto de Mike Leigh neste seu filme inaugural: uma concentração improvável de pessoas quase zombies na sua solidão e inabilidade social, e em que a única que está bem é a atrasada mental. Todos os palpites são possíveis. Mas actores superiormente dirigidos, que não se esquecem.
segunda-feira, novembro 26, 2018
os ladrões cinéfilos
Em 1990, depois do nascimento da nossa primeira filha, deixámos temporariamente o minúsculo apartamento e assentámos arraiais em casa da minha avó, para que ela e a minha mãe (que hoje faria 82 anos) nos dessem competências puericulturais. Num dia em que tive de ir a casa, provavelmente buscar roupa limpa, dei com o canhão da porta arrombado e esperei o pior. Felizmente, não se confirmaram os meus receios de vandalismo: os larápios haviam aberto gavetas, mas deixaram tudo impecável. Em falta, apenas uma velha televisão, o leitor de vídeo e dois filmes que os ditos foram escolher criteriosamente à pequena videoteca: ambos do Bertolucci, La Luna e O Último Imperador, o primeiro em gravação manhosa feita em casa, a partir duma emissão da RTP, o outro, comprado na loja, bastante mais apresentável. Poderiam ter levado mais, gravados por mim ou em edição de mercado, mas não, negligenciaram o Howard Hawks, o John Ford, o Lawrence Kasdan ou o Woody Allen, só quiseram o Bertolucci. Critérios de ladrões cinéfilos e civilizados...
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no LEFFest #17
L'Homme Fidèle, de Louis Garrel, França, 2018 (Selecção oficial - Em competição). Muito melhor do que esperava, mais do mesmo com o Garrel. Mas o tipo tem substância e tem piada -- assim o demonstrou no Festival, assim pensaram Jean-Claude Carrière, com quem partilhou o argumento, e Laetitia Casta (oh, beleza!...), o papel e a vida real.
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no LEFFest #16
Este Obscuro Objecto do Desejo, de Luis Buñuel (1971) - «Sessões especiais». Sesões especiais, foi o que me saiu primeiro, e assim deveria ter ficado, pois o último do Buñuel é uma febre. Era para contar com a presença de Jean-Claudse Carrière, co-argumentista, que não ocorreu, por motivos de saúde, creio, mas aos oitenta e tal, continua em forma, como verifiquei no filme da noite, o #17.
no LEFFest #15
L'Amore Molesto [Vítma e Carrasco, no infeliz título português], de Mario Martone, Itália 1995 («Homenagem - Mario Martone). Acima de tudo, um filme em que Nápoles brilha,. cintila, esplende.
domingo, novembro 25, 2018
sábado, novembro 24, 2018
no LEFFest #14
Suspiria, de Luca Guadagnino, Itália, 2018 («Selecção oficial - Fora de Competição») O trailer não faz jus ao filme, esteticamente muito interessante, e que me suscitou inicialmente alguma desconfiança. Claro, dispensava algumas fracturas expostas, contorções de quebrar ossos, mas suponho que será o mesmo que querer que um western não tenha tiros. Mas bruxas, portanto, do imaginário tradicional, servas do Satanás, balizadas por expressões do mal absoluto, já não tão pitoresco (o filme passa-se em 1971): o nazismo e o terrorismo, sem aspas ou itálico, da Fracção do Exército Vermelho / Grupo Baader-Meinhof. Tilda Swinton, uma óbvia bruxa. Ainda melhor que o filme, a música do Thom Yorke.
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no LEFFest #13
Piazzollla, los Años del Tiburón, de Daniel Rosenfeld, Agentina e França, 2018. «Sessões especiais». Um gigante como Astor Piazzolla tinha de ter um percurso incomum. Revelador, principalmente para os não-argentinos.
sexta-feira, novembro 23, 2018
no LEFFest #12
The House That Jack Buillt, de Lars von Trier - Suécia, Alemanha, Dinamarca, França, 2018 («Selecção oficial -- Fora de competição»). O Lars von Trier é apanhado do clima, mas é outra coisa, está lá em cima, no Olimpo do Cinema.
no LEFFest #11
Vox Lux, de Brady Corbet, EUA, 2018 (Selecção oficial -- Em competição). Junto-me àqueles que se têm referido ao extraordinário papel de Natalie Portman. "Um retrato do século XXI", é o subtítulo deste filme, que nos põe a assistir à transformação da borboleta em crisálida.
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quinta-feira, novembro 22, 2018
no LEFFest #10
Double Vies (Non-Fiction), de Olivier Assayas, França, 2018 («Selecção oficial - Fora de competição»). O registo da comédia para falar das questões do nosso tempo é uma abordagem possível, e muitas vezes desejável, desde que não evidencie o encantamento do realizador por si próprio, perigo em que por vezes este incorre, com tanta profundidade a vir ao de cima, e que, por exemplo em Woody Allen, não. Mas nada a apontar, e Juliette Binoche, rapariga da minha idade, continua a ver-se muito bem -- que é uma das coisas que sempre me interessa nos filmes: grandes actrizes -- que ela é (e os outros também) --, de preferência mulheraçamente bonitas, que é uma definição cá minha.
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