sábado, setembro 15, 2018

os amores inúteis #9

Os ângulos da escultura do António Duarte.

12 sinfonias. 10. Mahler, SINFONIA #1 (1889) -- II Scherzo, Kraeftig bewegt

«Ao longo das madrugadas um frémito de frescura vem fundir-se com a seca quietação da terra e agitar levemente a superfície parada das águas represadas. » Orlando da Costa, O Signo da Ira (1960)

«Mas nós tolerávamos a sua displicência, o condado de Barcelona, a alma do gafanhoto, os mistérios, em troca de uma fascinante simpatia que afinal, sem que antes tivéssemos notado, irradiava dele, num misto de alegria infantil e acaciana gravidade, iluminando-lhe o rosto quadrado e vago, quando dissertava sobre o que lhe vinha à cabeça.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póstumo, 1978)

«Nem alto, nem baixo, mas tão forte que o Dr. Cardoso, cacique em Montalegre, vira-se em dificuldades para o livrar do serviço militar, as pernas, se se arqueassem mais, tocariam calcanhar com calcanhar sob o ventre do cavalo.» Ferreira de Castro, Terra Fria (1934)

sexta-feira, setembro 14, 2018

«The Celtic Soul Brothers

os amores inúteis #8

Serra do Caldeirão atravessada de Rolls nos idos de setenta.

quinta-feira, setembro 13, 2018

criador & criatura

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Peyo e Benoît Brisefer / Kim Kebranoz

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https://www.writeups.org/benoit-brisefer-benny-breakiron/

os amores inúteis #7


A safadeza não-erótica do Carlos Drummond de Andrade.

quarta-feira, setembro 12, 2018

Serena Williams, touradas, clima, folclore, patetices, o politicamente correcto

Ser anti-racista não significa ser estúpido. A caricatura vive da deformação propositada. Serena Williams parece ter tido um comportamento lamentável. O cartoonista australiano Mark Knight fez um desenho alusivo. Se a protagonista do episódio é negra, como querem que se faça a caricatura? Eliminando os traços fisionómicos negróides (lábio grosso, nariz achatado, carapinha)? Isso sim, seria racismo, particularmente boçal e doloso: o branqueamento do tipo étnico da atleta.
Mais censura e policiamento fascistóide. Não há diferença de natureza, apenas de grau, entre a 'indignação' destes talibãs ocidentais e, por exemplo, a selvajaria do caso dos cartoons do Maomé. 
 

Ocorrem-me agora outros dois casos recentes, que, por razões diferentes, me suscitam ora dúvida, ora perplexidade: o das touradas e o do colóquio na Universidade do Porto sobre o clima.
 

Sobre a tourada, teria muito a dizer, até porque estou entalado entre a minha posição de princípio desfavorável do ponto de vista ético (apesar de incoerente, porque bife com batatas fritas será sempre o meu prato favorito) e o inegável significado cultural e histórico das corridas -- ao qual não consigo ser insensível --, para já não falar da incrível beleza plástica da lide a cavalo ou a vertiginosa insanidade duma pega de caras.


A propósito da conferência do Porto, só tenho a minha ignorância a evidenciar e perguntas a fazer: estes tipos são cientistas e académicos que defendem uma posição minoritária, ou não passam de mercenários e prostitutos a soldo do lóbi das fósseis? Se são cientistas, como aceitar a pressão e os insultos que vieram a público e um protesto assinado por alguns cientistas portugueses eminentes?; se não passam de vigaristas, como nos é dado a entender, como pode a Universidade do Porto acolhê-los, ainda por cima com uma sua catedrática à cabeça da organização? A universidade é para debater inter pares;  se não são pares, não têm nada a fazer ali, arrendem uma sala num hotel para se entreterem; se o são, o que assistimos na semana passada precisa de ser analisado nos seus contornos políticos.

terça-feira, setembro 11, 2018

os amores inúteis #6

A memória celta da minha avó Celeste.
«Isso a que tu chamas raça é apenas um grande amontoado de tipos como eu, remelosos, cheios de pulgas, transidos de frio que aqui vieram arribar, perseguidos pela fome, a peste, os tumores e o frio, vencidos vindos dos quatro cantos do mundo.» Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao Fim da Noite (1932) (trad. Campos Lima)

«Logo que o seu transtorno mental o afastou do serviço, a esposa de quem se separara, havia quinze anos, julgou-se com direito à pensão do Estado e para fazer valer tal direito, levou a quesão para o tribunal; mas perdeu a causa e o dinheiro reverteu para o enfermo.» Leonid Andreiev, Os Espectros (1904) (trad. Manuel do Nascimento)

«O ar estava sombrio acima de Gravesend, e mais longe parecia condensar-se numa treva desolada que pesava, imóvel, sobre a mais vasta e grandiosa cidade do mundo.» Joseph Conrad, O Coração das Trevas (1899) (trad. Aníbal Fernandes)

os amores inúteis #5

A loucura do Antero de Quental, da viagem à América ao banco de jardim em Ponta Delgada.

segunda-feira, setembro 10, 2018

«Dia de Folga»

«Pertencia ele ao ramo da família que do capitalismo ascendera ao posto imediato da intelectualidade e nisso fixara uma aristocracia.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954)

«Que diria Juca Tristão, que o tinha por esperto e exemplar, quando ele lhe aparecesse com três homens a menos no rebanho que vinha pastoreando desde Fortaleza?» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Se não recebesse da madrinha a reprimenda de lhe recordar, a propósito de tudo, as responsabilidades da sua idade, mulher já feita, circunspecta, tão precoce saíra -- pediria uma boneca.» Assis Esperança, Servidão (1946)

domingo, setembro 09, 2018

sábado, setembro 08, 2018

12 sinfonias : 5. Mendelssohn, SINFONIA #4 (1833) - II Andante con moto

de novo os Descobrimentos, e acabando com a questão

Durante as minhas férias, Luís Filipe Thomaz publicou um artigo sobre a questão dos Descobrimentos. Como escrevera que era a sua visão do problema a que me interessava, deixo aqui o registo. 

Historiador, e não um sócio-coiso em estudos pós-coloniais -- não devo errar se disser tratar-se do maior historiador português vivo daquele período. Aliás, basta comparar o seu texto com a indigência pateta do abaixo-assinado, ou lá o que é, para ver a desproporção da qualidade e a diferente natureza de entre historiografia e activismo.

Repito que não me pronuncio sobre a pertinência de um museu (mas digo já que não sou a favor, e estou, neste particular, mais próximo da posição de João Paulo Oliveira e Costa), mas apenas sobre o acerto da palavra Descobrimentos, que remeto para aqui, verificando, com agrado, que temos posições semelhantes quanto ao fundo da questão, ressalvando as óbvias distâncias do cabedal de cada um no que respeita à História da Expansão e Descobrimentos Portugueses.

Mais do que o atrevimento da ignorância, irrita-me o sectarismo ideológico e pior, a glossolalia impostora, a vassalagem aos bonzos e o espírito de manada. 

«Re-make / Re-model»

sexta-feira, setembro 07, 2018

Adélio, pá, Deus não existe!

Alguém que explique ao Adélio: se Deus existisse, ele não teria falhado, e o mundo seria menos pocilga sem o Bolçonaro (e ainda por cima, deste-lhe gás, pá...). 

os amores inúteis #2

A casa centenária que foi da minha avó Zé, no Estoril.

quinta-feira, setembro 06, 2018

estampa CCCXXIX - Ilya Repin


Retrato de Leonid Andreiev (1905)

os amores inúteis #1

A abertura interminável do primeiro concerto para piano do Brahms, à época mal recebido.

quarta-feira, setembro 05, 2018

50 discos: 4. LITTLE GIRL BLUE (1958) - #6- «He Needs Me»



«Ainda bem que de mui pouco me apoquenta o arrependimento» Camilo Castelo Branco, prefácio à segunda edição das Memórias do Cárcere (1862)

«Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra.» Raul Brandão, Memórias I (1919)

«Pareceu-me, mãe, que nunca a tinha visto tão bonita: muito bem vestida, muito bem penteada, com aquele seu perfume que, apesar de tão suave, tão subtil, anunciava a sua presença onde quer que estivesse.» Fernanda de Castro, Cartas para Além do Tempo (1990)

agora é tarde

terça-feira, setembro 04, 2018

estampa CCCXXVIII - Igor Samsonov


Susana e os Anciãos

segunda-feira, setembro 03, 2018

«Estão ambas junto da lareira apagada, sentadas nos mochos, sumidas nos vestidos pretos.» Manuel da Fonseca, Seara de Vento (1958)

«Lá no fundo, namorando o mistério das águas, uma francesa linda como as coisas mais lindas, aventureira viajada, da qual se fazia conhecer todos os países e todas as raças, o que equivale a dizer que conhecia toda a espécie de homem, tolera, com um sorriso condescendente, o galanteio juliodantesco de uma dúzia de filhos-família brasileiros e argentinos:» Jorge Amado, O País do Carnaval (1931)

«Sou equilibrado, robusto, gosto imensamente de cavalgar, viver a vida em liberdade, e Noémia, ainda como uma rígida moralista, -- jamais deixou de ser o que é: mirrada, abstinente, horrìvelmente feia.» José Marmelo e Silva, Sedução (1937)

12 sinfonias: 9. Dvorák, SINFONIA #8 (1890) - II Adagio

«E a selva densa, onde bandos de faunos gargalhavam nas tardes tropicais, dir-se-ia, no silêncio matinal, suspensa numa expectativa: -- paralisada por uma interrogação milenária.» Ferreira de Castro, Carne Faminta (1922)

«Eu, há hoje dez anos, vi abrir os alicerces daquela casa.» Camilo Castelo Branco, «Aquela casa triste...», Noites de Insónia (1874)

«Os deuses curam que os homens não rompam proibições, ainda que reis sejam.» Mário de Carvalho, «Agade e Nimur», Contos da Sétima Esfera (1981)

domingo, setembro 02, 2018

do domínio do milagre

Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa (1956), é um livro miraculoso, daqueles que nos acompanham pela vida fora, por cada linha, cada parágrafo ou página. É uma obra-prima da literatura universal, embora o Mundo que não lê o português o desconheça, posto que virtualmente intraduzível. E talvez o único que, na nossa língua, se confronta com as grandes narrativas dos últimos dois séculos, por exemplo, Guerra e Paz, de Tólstoi, ou Crime e Castigo, de Dostoievski.

sábado, setembro 01, 2018

12 sinfonias: 6. Bruckner SINFONIA #4 (1874) - II Andante quasi allegretto

«A miséria constitui talvez o mais poderoso de todos os laços.» Balzac, A Vendetta (1830) (tradução de Artur Soares Filho)

«Amo os lobos, nascidos para a solidão e para a fome.» Raymond Léopold Bruckberger, O Lobo Milagreiro (1971) (trad. Jorge de Sena)

«Nas enormes camaratas, junto às janelas abarrotadas, por onde entrava o ar fresco da manhã renovando o ambiente carregado pelo respirar do amontoado de carne, formavam-se os grupos, as tertúlias da desgraça, procurando-se os homens pela identidade dos seus feitos: os delinquentes por crimes de sangue eram os mais numerosos, inspirando confiança e simpatia com os seus rostos enérgicos, os seus gestos resolutos e a sua expressão de selvagem pundonor; os ladrões, receosos e assolapados, com sorriso hipócrita; e entre uns e outros, cabeças com todos os sinais de loucura ou imbecilidade, criminosos instintivos, de olhar vago e incerto, fronte deprimida e lábios delgados, franzidos por certa expressão de desdém; testas de labrego extremamente rapadas, com as enormes orelhas despegadas do crânio; madeixas sebosas com com caracóis até às sobrancelhas; enormes mandíbulas, dessas que só se encontram nas espécies inferiores ao homem; blusas rotas e remendadas; calças no fio, e muitos pés, gastando a pele dura nos ladrilhos vermelhos.» Vicente Blasco Ibañez, «Casa de correcção», Contos Valencianos (1896) (tradução de Manuel do Nascimento)

«Rattlesnake Shake»

sexta-feira, agosto 31, 2018

criador & criatura


Morris e Rantanplan


quinta-feira, agosto 30, 2018

quarta-feira, agosto 29, 2018

«A angústia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que recâmaras de asiática opulência se lamentava ele!» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

«Artur olhou as árvores que se estendiam por detrás da casa-grande, os galhos docemente agitados pela brisa, e sorriu imaginando que as árvores estavam satisfeitas após a chuva tão esperada.» Jorge Amado, Seara Vermelha (1946)

«E a noite cerrava-se, quando para além de uma ponte de tabuado que tremia sobre uma torrente, seca por aquele lento Agosto, o povoado apareceu entre o arvoredo do vale, com a capela branca e toda nova que o Senhor do Castelo andava erguendo a S. Cosme.» Eça de Queirós, S. Cristóvão (póstumo, 1911)   

terça-feira, agosto 28, 2018

50 discos: 28. COMES A TIME (1978) - 6# «Human Highway»



«Como uma rapariga descalça a noite caminhava leve e lenta sobre a relva do jardim.» Sophia de Mello Breyner Andresen, «História da Gata Borralheira» (1965), Histórias da Terra e do Mar (1984)

«E o pânico crescia e ela procurava a alça do soutien com uma mão e a caixinha dos comprimidos com a outra.» Sarah Adamopoulos, «A Marylin», A Vida Alcatifada (1997)

«O rodar do comboio, áspero e monocórdico, chegava-lhe aos ouvidos que nem som de fanfarra vitoriosa.» Maria Archer, «Ida e volta duma caixa de cigarros» (1937), Ida e Volta duma Caixa de Cigarros (1938)

segunda-feira, agosto 06, 2018

12 sinfonias: 12. Prokofiev, SINFONIA #1 (1918) - i. Allegro

«Ainda não estavam acesas as luzes do cais, no Farol das Estrelas não brilhavam ainda as lâmpadas pobres que iluminavam os copos de cachaça, muitos saveiros ainda cortavam as águas do mar, quando o vento trouxe a noite de nuvens pretas.» Jorge Amado, Mar Morto (1936)

«Escapara por uma unha negra a que o engenheiro do 2.º direito, como sempre furibundo por ter de esperar por alguém, batesse na porta do elevador, a exigir ligeireza, disponibilidade, espaço vital.» Fernando Namora, O Rio Triste (1982)

«Estas qualidades, juntas a uma longa experiência adquiridas à custa de muito sol e muita chuva em campo descoberto, faziam dele um lavrador consumado, o que, diga-se a verdade, era confessado por todos sem estorvo de malquerenças e murmurações.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1868)

quinta-feira, agosto 02, 2018

«Black Night»

«Como saltar dos meus versos / para os teus braços?» Ana Hatherly, Fibrilações (2005)

«Escrevo como quem da mágoa / se despede e é outra cor» Fernando Jorge Fabião, Nascente da Sede (2000)

«Seu descuido em seu fogo desculpava; / Que mal feria o sol tão penetrante, / Onde maior incêndio a alma abrasava.» Cláudio Manuel da Costa, in José Valle de Figueiredo, Antologia da Poesia Brasileira (s.d.)

quarta-feira, agosto 01, 2018

terça-feira, julho 31, 2018

«Nesse dia, a 6 de Janeiro, o que mettait en émotion tout le populaire de Paris, como diz Jehan de Troyes, era a dupla solenidade dos Reis e da festa dos Loucos, celebradas juntamente desde tempos imemoriais.» Victor Hugo, Nossa Senhora de Paris (1831) (trad. Jorge Reis)

«Surpreendidos pelo aguaceiro, os espectadores dispersos pela escadaria regressavam ao vestíbulo, rindo e empurrando os que como sardinha em lata se chamavam em altos berros por entre os ombros nus, rodeados por uma chuva que se detinha no berçário dos toldos, para desabar, a potes, sobre os degraus de granito.» Alejo Carpentier, A Perseguição (1956) (trad. Margarida Santiago)

«Tapada a sepultura, Rollo Martins afastou-se ràpidamente a largos passos das suas compridas pernas de aranha, enquanto pelo seu rosto de homem de trinta e cinco anos deslizavam lágrimas de criança.» Graham Greene, O Terceiro Homem (1949) (trad. Baptista de Carvalho)


segunda-feira, julho 30, 2018

CCCXXVI - Heinrich Lossow


Leda e o Cisne

domingo, julho 29, 2018

«If I Ever Recall Your Face»

Van The Man

Um dos que tinha de ver quando por cá passasse; e este  foi muito perto de chez moi.


sexta-feira, julho 27, 2018

«Com os remos a chapejarem surdamente, cautelosos como os dos ladrões, nas proas um ruído fino, menor ainda que os dos botos cortando a tona da água, as canoas meteram a terra.» Ferreira de Castro, O Instinto Supremo (1968)

«E a chuva começa, o ruído doce da chuva que faz sonhar em tantas coisas idas e tristes!» Raul Brandão, Os Pobres (1906)

«Era em Julho, um domingo; fazia um grande calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silêncio recolhido e sonolento de manhã de missa; uma vaga quebreira amolentava, trazia desejos de sestas, ou de sombras fofas debaixo de arvoredos, no campo, ao pé da água; nas duas gaiolas, entre bambinelas de cretone azulado, os canários dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chávenas sobre o açúcar mal derretido, enchia toda a sala de um rumor dormente.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

«Swing That Music»

quinta-feira, julho 26, 2018

o activismo da idiotia, ou a História pensada como 'talkshow'

Chamaram-me a atenção para uma entrevista de Nicholas Mirzoeff, um activista visual. Nem tudo o que o homem diz é estúpido, por certo. Faz-me, no entanto, lembrar a conversa  do Marcelo Caetano, creio, para um aluno que lhe apresentara uma tese, e em relação à qual o professor terá dito: "a sua tese tem coisas boas e originais; as que são originais não são boas e as que são boas não são originais."
Assim a conversa do activista, que, em relação ao que lhe será original, provoca mais do que um simples esgar de enjoo: a evidência da propagação, já não dos "conhecimentos úteis", como queriam as sociedades operárias do século XIX, mas do insidioso e mais do que larvar pensamento totalitário.   
«A corda tensa que eu sou, / o Senhor Deus é quem / a faz vibrar...» Sebastião da Gama, Serra-Mãe (1945

Por enquanto mais nada, senão / o torvo tinir dos talheres / no banquete da morte impossível.» Rui Knopfli, «Lírica para uma ave», O País dos Outros (1959)

«Uma rapariga tem sempre a sua música / leva o dinheiro apertado num saco bordado / o retrato da amada na outra mão.» João Miguel Fernandes Jorge, O Regresso dos Remadores (1982)

terça-feira, julho 24, 2018

criadores & criatura

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Jean-Michel Charlier, Victor Hubinon e Barbe Rouge / Barba Ruiva

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«Os homens se apertavam nos bancos, suados, os olhos puxados para o tablado onde o negro Antônio Balduíno lutava com Ergin, o alemão.» Jorge Amado, Jubiabá (1935)

«Um silêncio súbito, silêncio da terra.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«Estes ensinamentos foram-me inoculados sem especial zelo pela minha família, transmitidos quase como um ruído de fundo que acaba por se integrar no nosso pensamento, o rumor que se ouve quando tudo está em silêncio.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

segunda-feira, julho 23, 2018

domingo, julho 22, 2018

«Promovido a oficial, Giovanni Drogo deixou a cidade numa manhã de Setembro para se dirigir à Fortaleza Bastiani, seu primeiro destino.» Dino Buzzati, O Deserto dos Tártaros (1940) (trad. Margarida Periquito)

«Havia algo numa quermesse que atraía irresistivelmente Arthur Rowe, que o tornava vítima indefesa das longínquas estridências de uma banda de música e do entrechocar dos cocos com as bolas de madeira.» Graham Greene, Ministério do Medo (1943) (trad. Marília de Vasconcelos)

«Era um velho que pescava sòzinho na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe.» Ernest Hemingway, O Velho e o Mar (1952) (trad. Jorge de Sena) 

12 sinfonias: 6. Tchaikovsky, Sinfonia #4 (1878) - 1. Andante sostenuto. Moderato con anima

estampa CCCXXV - George Clausen


Estudante (1889)

sábado, julho 21, 2018

4x4



Herdeiro sem honraria
Casa, bens materiais,
Eu por nada trocaria
O legado de meus pais.
                               
                                    José Correia Tavares

Ó mães de fala amorosa,
Arrulhos do nosso ninho,
Dai-nos bênção piedosa,
Que nos proteja o caminho!

                                           Júlio Brandão

Peço às altas competências
perdão, porque mal sei ler,
p'ra aquelas deficiências
que os meus versos possam ter.

                                                 António Aleixo

Cantigas de portugueses
São como barcos no mar --
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.
                             Fernando Pessoa

sexta-feira, julho 20, 2018

«Carry On»

«Quem tem janelas / que fique a espiar o mundo» Francisco Alvim, «Com ansiedade», in Heloisa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1975)

«Ela, a pequenina infância, andará aí sentada com / um velho nas nádegas e / o crucifixo saltando no pescoço, a negra mão do talismã / buscando o brinquedo na vitrina / já contemplado.» José Emílio-Nelson , O Anjo Relicário (1999).

«Um torpe e estafado gramofone / cansou os meus ouvidos que queriam / agudezas de vértice de cone / ou maciezas de novelo de lã.» Saul Dias, ...Mais e Mais... (1932)

«Innocent Travels»

quinta-feira, julho 19, 2018

estampa CCCXXIV - Natalia Gontcharova


Colunas de Sal (1908)

estou a ler


«Pela falaceira do "Lagarto" soubemos, porém, que a parte central de Lisboa estava ocupada por densas forças; Chiado abaixo passavam, a todo o momento, camionetas transportando guardas-republicanos e, de quando em quando, descia da Avenida da Liberdade pesado tanque, com atitude de anfíbio cauteloso.» Ferreira de Castro, O Intervalo (póstumo, 1974)

«Com o sol a pino, ardendo por cima das árvores sem folhas, os soldados, atrás uns dos outros, na "bicha de pirilau", viam à sua frente apenas dois ou três homens da companhia de comandos e sentiam os passos dos que os seguiam, afastavam os ramos carregados de espinhos que lhes rasgavam os camuflados e a pele.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«"Há muito mais", disse Austin, "havia um amigo da família que tinha o Rato Mickey tatuado no peito e que pedia ao rapaz para bater na tatuagem, bate com força, com mais força, agora uma esquerda, agora uma direita, mete um crochet, mete um uppercut.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

quarta-feira, julho 18, 2018

«Asimbonanga»

cacarejos sobre a cimeira Putin-Trump

No meio do cacarejar geral, ainda não li ou ouvi nada a respeito da declaração de Putin e Trump sobre a necessidade da defesa do estado de Israel. Declaração que se conjuga  com a questão da Palestina e, mais premente ainda, o problema do Irão. Putin poderá ser essencial para travar os ímpetos belicistas da administração americana e do seu instável presidente e do governo de Netanyahu, pois é no Médio Oriente que se joga a segurança mundial, muito mais do que nas Coreias. Enfim, coisas de somenos; o que interessa é o folclore do Trump e a nada inocente diabolização do Putin, mais do que suficiente para desviar as atenções do essencial.

terça-feira, julho 17, 2018

segunda-feira, julho 16, 2018

«Supervixen»

ainda os Descobrimentos: os historiadores, os activistas e os outros

Só historiadores dum tempo relativamente longo e complexo, que compreende os séculos XIV, XV e XVI, estão habilitados a aspirar ver todo o quadro em que se processou a navegação e conquista dos portugueses, ou seja o que designamos por Descobrimentos e Expansão; são os que põem as mãos na massa dos arquivos, dos documentos, dos livros quem tem em cima da mesa as questões políticas, económicas, sociais, culturais, mentais, científicas, geopolíticas, e por aí fora. O resto é opinião.

Sobre a questão interessa-me saber o que pensa, por exemplo, Luís Filipe Thomaz (não sei se já se pronunciou sobre o assunto); já o que defende Fernando Rosas (que, aliás, fez um extraordinário programa sobre o colonialismo português, que elogiei aqui), é, para o caso, irrelevante.

Uma das tácticas dos activistas consiste em amalgamar os que se opõem ou manifestam reservas à eliminação da palavra Descobrimentos naquele período histórico como um conjunto de indivíduos que têm uma visão glorificadora da História. Daí à sugestão subliminar de nacionalismo ou protofascismo vai um passo. Ora bem, é preciso desmontar essa vigarice intelectual

A historiografia não se compadece com activismo, para o qual, o rigor é um detalhe. Por isso a embrulhada a que recorrem, uns propositadamente, outros por psitacismo, trazendo à liça o império colonial e outros anacronismos e distorções.

No fundo, trata-se de um debate desigual: por um lado, os que pensam a História; do outro, as palavras-de-ordem, a ideologia, as estruturas mentais semelhantes àqueles que procuram censurar ou reescrever os livros do Mark Twain, nos Estados Unidos, ou do Monteiro Lobato, no Brasil. Em suma, o politicamente correcto, designação que tanto os irrita.

(Acrescentando ao que já escrevi):

sábado, julho 14, 2018

12 sinfonias: 6. Bruckner Sinfonia #4 (1874) - 1. Bewegt, nicht zu schnell

«Para o fim do Verão daquele ano vivíamos numa aldeia que, para lá do rio e das planície, confrontava as montanhas.» Ernest Hemingway, O Adeus às Armas (1929) (trad. Adolfo Casais Monteiro)

«Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar.» Ray Bradbury, Fahrenheit 451 (1953) (trad. Mário-Henrique Leiria)

«Uma história não tem princípio ou fim: escolhemos arbitrariamente um momento da experiência, de onde olhar para trás, ou olhar para diante.» Graham Greene, O Fim da Aventura (1951) (trad. Jorge de Sena)

sexta-feira, julho 13, 2018

estampa CCCXXII - Ferdinand Hodler


Auto-Retrato (1891)

«Blueberry Hill»

ela tem o toque

O David Byrne pertence àquela estirpe de músicos que não anda cá para ver passar os comboios. E ontem viu-se, talvez até alguns dos que andavam por lá em maré de nostalgias. Ele e mais uma dúzia de instrumentistas extraordinários fizeram um concerto memorável, com um espectáculo de palco contido na parafernália luminotécnica, porém de assinalável mestria; bastava a energia exuberante de cada um dos elementos em palco, a começar por Byrne, nos seus 65.
Muito mais nova é, Sara Tavares, mas com tanto já dito e feito. A música dela é a sério


À chegada, porém, a verdadeira surpresa: Jéssica Pina. Na trompete ou no fliscórnio, ela tem o toque.



E um grande obrigado ao Observador pela foto, minha e da Teresa, a acompanhar a Jéssica Pina:


quinta-feira, julho 12, 2018

terça-feira, julho 10, 2018

tudo bem feito


Chris Roy Taylor

«I'm So Glad»



(1968)


(2005)

segunda-feira, julho 09, 2018

estampa CCCXXII - Eastman Johnson


Mulher Lendo (1874)

sexta-feira, julho 06, 2018

quinta-feira, julho 05, 2018

criador & criaturas


Jean Roba e Boule & Bill


quarta-feira, julho 04, 2018

"Não sei o teu nome para além"

Não sei o teu nome para além
De árvore podes ser carvalho
Olmo ou choupo bravio pinheiro torcido
Pelo vento atlântico causticado sobreiro
pelo suão há entre nós um destino
comum: sou só porque existes.

50 discos: 1. LOUIS ARMSTRONG PLAYS W. C. HANDY, (1954) - #6 «Memphis Blues»



terça-feira, julho 03, 2018

estampa CCCXXI - Arthur Fischer



Ninfa e Sátiro (1900)


segunda-feira, julho 02, 2018

lido


«As coisas são a sua morada / e há entre mim e mim um escuro limbo / mas é nessa disjunção o istmo da poesia / com suas grutas sinfónicas / no mar.»     Sebastião Alba, «Como os outros», A Noite Dividida (1996)

«A tarde cai, por demais / Erma, úmida e silente...»     Manuel Bandeira, «Cartas de meu avô», A Cinza das Horas (1917) / Os Mehores Poemas de Manuel Bandeira (1984)

«Na suave trepidação das ruas / mansamente tocado pelo vento de Janeiro / penso que tudo vale mais do que qualquer palavra.»     Fernando Cabrita, «Na suave trepidação das ruas», O Portão das Colinas do Nada (Poemas da Cidade de Londres) (1988)