quinta-feira, maio 31, 2018

criador & criatura

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Johnny Hart e B. C.

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«Debalde muitos homens de génio revestidos da autoridade suprema tentaram evitar a ruína que viam no futuro; debalde o clero espanhol, incomparavelmente o mais alumiado da Europa naquelas eras tenebrosas e cuja influência nos negócios públicos era maior que a de todas as outras classes juntas, procurou nas severas leis dos concílios, que eram ao mesmo tempo verdadeiros parlamentos políticos, reter a nação que se despenhava.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«Ela tinha a mão esquerda escorrida no regaço, com os dedos engelhados e aduncos como um pé de perua morta; o braço direito estava no ar, hirto como um ramalho de flores que parecia uma vassoura de hidrângeas.» Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário (1879)

«O pastor, dado que a ovelha não fosse do seu rebanho, defendeu-a dos lobos, arcabuzando-os donosamente.» Camilo Castelo Branco, O Retrato de Ricardina (1868)

terça-feira, maio 29, 2018

estampa CCCXV - Camille Pissarro


Cabelo de Jovem de Perfil (dita A Rosa) (1896)

«Bela! como um perdão ao pé do cadafalso, / Bela como o luzir do orvalho nas searas, / Nevada como um pé, curto, branco, descalço / Fugitivo através das grandes ervas claras.» Gomes Leal, «Nevrose nocturna» Edoi Lelia Doura -- Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa, edição de Herberto Hélder (1985)


«Era tudo tão pequeno / Que o meu coração sereno / Era o meu cais outonal.» Fernando de Paços, «Poesia» As Folhas de Poesia Távola Redonda, edição de António Manuel Couto Viana (1988)


«Empregados públicos virginais / Deslumbrados com o jazz dos automóveis.» Mário de Andrade, «Rondó do tempo presente» Poesias Completas (1976) / Poezz -- Jazz na Poesia em Língua Portuguesa, edição de José Duarte e Ricardo António Alves (2004) 

eutanásia: há reservas respeitáveis e conversa fiada de catequista

Ao contrário do que escreveu uma moralista de serviço, o PCP não se juntou ao CDS contra os projectos para a despenalização da eutanásia; ao contrário, os dois partidos distinguem-se muito bem.
Apesar de discordar da posição do PCP, que, como é seu timbre, secundariza (para dizer o mínimo) a liberdade individual, percebe-se que há ali um receio sério pelas consequências que, para os mais desprotegidos, adviria da legalização daquela prática; receio que só tem razão de ser  no caso de incompetência do legislador (não seria a primeira vez) ou duma permissividade que não passará pela cabeça da maioria dos proponentes. As reservas do PCP são, no entanto, respeitáveis, quando a ética social chafurda na lama do mercantilismo do quotidiano.
Já o CDS, tal como sucedeu no caso dos colégio privados, não passa do berloque da quinquilharia religiosa que pretende impor aos cidadãos o atraso de vida das suas estúpidas crendices.

domingo, maio 27, 2018

criador e criaturas



F. Ibañez e Mortadelo e Salaminho (Mortadelo y Filemón)


«O velho Marley estava mais morto do que um prego de porta!» Charles Dickens, O Natal do Sr. Scrooge [A Christmas Carol] (1843) (tradução de Lucília Filipe)

«Eu não sabia o que procurava o frade Guilherme, e, para dizer a verdade, ainda hoje o não sei, e presumo que nem sequer ele o soubesse, movido como era pelo único desejo da verdade e pela suspeita -- que sempre lhe vi nutrir -- de que a verdade não era aquela que lhe aparecia no tempo presente.» Umberto Eco, O Nome da Rosa (1980) (tradução de Maria Celeste Pinto)

«Somos os homens mais bem informados sobre tudo o que de mentiras se imprime pelo mundo.» Raymond Abellio, Os Olhos de Ezequiel Estão Abertos (1949) (tradução de Rafael Gomes Filipe)

«Cirice»

sábado, maio 26, 2018

«Euskal Herrian Euskaraz»

«Papai, quando vinha da fábrica. me fazia sentar sobre os seus joelhos e me ensinava o abc com a sua bela voz.» Jorge Amado, Cacau (1933)

«Nunca fora querido das devotas: arrotava no confessionário, e tendo sempre vivido em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera, por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia!» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875)

«Mas não era necessário ler o papel que o polícia trazia no bolso: Januário de Sousa, filho de Ana Maria e de pai incógnito, etc.; bastava deitar o rabo do olho à sua pele morena, lisa e macia, que nem a água passada a ferro na popa dos barcos, para se ver que ele não tinha mais de vinte anos, apesar de os seus olhos parecerem exaustos por não se sabia quantas madrugadas do princípio do mundo.» Ferreira de Castro, A Experiência (1954)


sexta-feira, maio 25, 2018

estou a ler


«Tão pequenas / a infância, a terra.» Carlos de Oliveira, «Infância», Turismo (1942) / Trabalho Poético (1978)

«E o luar, o luar magnífico e sereno, / Só ele compreende a minha dor / Porque me beija o rosto nazareno;» Duarte de Viveiros. «Parada dos ângulos agudos» Obra Poética (1960, póstumo)

«Nós, meninos, paralisados de medo / e espanto.» Rui Knopfli, «O monhé das cobras», O Monhé das Cobras (1997)  

quinta-feira, maio 24, 2018

Descobrimentos Portugueses: o #metoo da historiografia

«Museu das Descobertas». A designação é obviamente simplória. Não pelas razões que aduzem aqueles que sacrificam ao politicamente correcto, como pela pobreza do conceito para caracterizar um complexo movimento político, social, económico, cultural, religioso, científico por detrás da expansão e dos descobrimentos portugueses. A ideia, aliás, inscrita em programa eleitoral, tem todos os contornos dum típico coelho tirado da cartola da politquice barata, para efeitos de pirotecnia de campanha, sem cuidar do como e do porquê.

Costumo dizer que graças aos Descobrimentos e à Expansão, os portugueses  garantiram a sua presença na história da Humanidade; somos uma espécie de fenícios dos tempos modernos, quando poderíamos ficar-nos pela dimensão duns quaisquer túrdulos da cultura castreja... Não vou, porém, falar da pertinência ou da oportunidade da criação de uma grande museu dos descobrimentos, quando o património cultural do país está na miséria que se sabe. Para já, interessa-me a questão levantada em torno do nome.

A discussão e o debate de ideias é sempre excelente, porém, quando, a coberto duma cientificidade de analfabetos se pretende distorcer a História, não me apetece ter grande contemplações para um texto  indigente, assinado por algumas figuras estimáveis. Felizmente, não tenho vocação de discípulo nem gosto de rebanhos. E, nessa perspectiva, também não me deixarei condicionar pelos arremedos autoritários, para não escrever 'totalitários', que lançam o labéu de fascistas ou fascizantes àqueles que deploram um embuste e um esquema mental que dá origem a idiotices como esta.

Em primeiro lugar, a haver um museu com esta temática, o seu interesse para a comunidade só se justifica se partir duma perspectiva portuguesa; caso contrário, é melhor tratar do merchadising com os americanos e pô-los a fazer uma espécie de Disneylândia inspirada nos tempos do Gama e do Albuquerque. Por que diabo um museu português não deveria ter uma perspectiva portuguesa, integrando numa visão planetária, essa mesma que contribuíram decisivamente para alcançar, gostemos ou não? Claro que uma abordagem objectiva e sem patriotinheirices, sem escamotear o horror, a pilhagem, o domínio, o tráfico de escravos -- actividade que nos distinguiu durante demasiado tempo. De resto, como é que depois de Vitorino Magalhães Godinho, de Luís de Albuquerque, de tantos historiadores, portugueses e estrangeiros, que se debruçaram sobre aqueles séculos de história portuguesa, se admite que doutra forma pudesse ser? Falamos de museu ou dum evento, entre os jogos-sem-fronteiras e o festival-da-canção?...

Ao contrário dos que escrevem os guardiões do moralismo anacrónico, a palavra não "cristaliza uma incorrecção histórica", pelo contrário. Houve, de facto, descoberta de territórios desabitados, desconhecidos de toda a Humanidade; tal como aconteceu o desvendar de rotas nunca por outros singradas; e o evidente descobrimento de um mundo mais amplo que rompia com uma percepção que remontava à Antiguidade. Se isto não é descobrimento é o quê, então? E não deve este pioneirismo ser conhecido da comunidade portuguesa, sem a basófia antihistórica dos manuais da República e do Estado Novo? 

É verdade que os outros povos não foram "descobertos", por isso se recorre, com razão, ao acoplamento da palavra "Expansão". Ao contrário dos "Descobrimentos",  que remontam à Idade Média (as "Navegações", em bom rigor, recuam ao Neolítico...), o movimento expansionista e imperial português tem uma data delimitada e uma ocorrência definida: 1415, ano da conquista de Ceuta (e mesmo assim com algumas raízes político-económicas que não há espaço para abordar). A partir daqui Expansão e Descobrimentos são duas faces duma mesma moeda. E nela está inscrita o colonialismo português, particularmente vil, cuja libertação se deveu aos povos colonizados e aos seus movimentos de libertação: PAIGC, MPLA, FRELIMO, movimentos tão de libertação que até contribuíram decisivamente para libertar os portugueses.

Obliterar a noção de descoberta não é só uma parvoíce, como a tentativa, de resto inglória, de rasurar da História um processo que nos identifica como comunidade, com um lastro cultural avassalador (como se lê e vê e sente nestes versos da Sophia de Mello Breyner Andresen e do António Pedro) ; uma espécie de #metoo da historiografia, em nome dos bons sentimentos. Ora, se a exclusividade dos bons sentimentos em arte borram a pintura, na historiografia ainda fazem pior, chama-se vigarice.
«Toda a gente foi domingo / alguma vez.» A. M. Pires Cabral, «Degradação», Arado (2009)*

«Têm as mão brancas de sal / E os ombro vermelhos de sol.» Sophia de Mello Breyner Andresen, «Os navegadores», Mar Novo (1958)**

«Nas ondas sozinhas / Nem um navegante / Nem aves marinhas...» António Pedro, «Canção dum mar ao largo», Ledo Encanto (1927)***

* Resumo -- A Poesia em 2009 (edição de José Alberto oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, 2010)
** Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa (ed. Ana Hatherly, 1960)
*** No Reino de Caliban I (ed. Manuel Ferreira, 1977)

terça-feira, maio 22, 2018

estampa CCCXIV - Júlio Pomar


Ferreira de Castro (1974)

estou a ler


«Seu colo tem do lírio a rígida firmeza, / Seu amor é um céu católico e distante...» Gomes Leal, «O visionário ou Som e cor», Claridades do Sul (1875) *

«A filha do usineiro de Campos / Olha com repugnância / Para a crioula imoral.» Manuel Bandeira, «Não sei dançar» Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira (1984)**


* Edoi Lelia Doura -- Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (ed. Herberto Hélder, 1985)
** Poezz -- Jazz na Poesia em Língua Portuguesa (ed. José Duarte e Ricardo António Alves, 2004)

segunda-feira, maio 21, 2018

«No princípio de Julho, por um tempo extraordinariamente quente, ao anoitecer, saiu um rapaz do quarto modesto que ocupava na Rua de S...» Féodor Dostoievski, Crime e Castigo (1866) (trad. Maria Franco)

«Na minha opinião, não se podem criar personagens senão depois de ter estudado muito os homens, assim como não se pode falar uma língua senão depois de a ter aprendido a fundo.» Alexandre Dumas, Filho, A Dama das Camélias (1848) (trad. Sampaio Marinho)

«Isto só podia acontecer na Inglaterra, onde mar e homens se misturam, digamos -- onde o mar entra pela vida da maior parte dos homens e os homens sabem qualquer coisa ou tudo sobre o mar através do seu lazer, das viagens ou do pão de cada dia.»  Joseph Conrad, Mocidade -- Uma Narrativa  (1902) (trad. Aníbal Fernandes)

um verso de António Arnaut

«Só a linha recta ousa o infinito!» Nobre Arquitectura (2003)