quarta-feira, fevereiro 28, 2018

terça-feira, fevereiro 27, 2018

segunda-feira, fevereiro 26, 2018

50 discos: 5. AMÁLIA RODRIGUES (1962) - #6 «Abandono»



Festival II

Com excepção da que ganhou, pastosa e pífia, passaram as que gostei mais: David Pessoa (o piano e Francisco Rebelo são outra loiça, outra música) e Lili (estupenda), Peter Serrado (apesar de em inglês, com muita dádiva e vontade de que não acabasse) e Cláudia Pascoal (idem); uma alegria Minnie e Rahyra. Outra grande voz que ficou pelo caminho: Dora Fidalgo.

domingo, fevereiro 25, 2018

«Contaram-me que numa tarde de domingo, daquelas em que meu avô, seu criado e maioral das éguas, vinha aviar o alforge para quinze dias de Lezíria, o patrão Diogo nos viu juntos e se dignou, sem nojo, concretizar uma carícia nos cabelos encaracolados da minha cabeça de menino pobre.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Mas não tardou que argoladas fortes soassem à porta e Jesuíno, em tamancos, as calças presas no abdómen por um negalho, camisa de estopa deixando espreitar pelos bofes a pelúcia de cerdo à mistura com o alcobaça vermelho, cigarro nos beiços, toda a sua pachorra eclesiástica que cão dormido, foi ver.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Logo a seguir à revolução, em Abril do ano anterior, civis barbudos e soldados de cabelo comprido e camuflado em tiras vigiavam as estradas, revistavam automóveis, ou desfilavam lá em baixo, em bando, nas pracetas, comandados por um desses microfones incompreensíveis de sorteio de cegos que o marxismo-leninismo-maoismo reciclara.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

«Pedestrian At Best»

«Rodopiava no ar, a cada estocada de vento, um cheiro pelintra a iscas e a refogado.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«A podridão tinha chegado ao âmago da árvore, e ela devia secar.» Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero (1844)

«Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846) 

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

o Aborto Ortográfico?, só quando tiverem vergonha na cara

Talvez a pior atitude, ou pelo menos a mais lamentável em relação ao Aborto Ortográfico seja a do não quero saber, em especial quando evidenciada por quem faz da língua profissão: estou a pensar em alguns plumitivos à esquerda, que parece terem medo que lhes chamem conservadores, retrógrados ou reaccionários se disserem o que parecem pensar sobre este pântano em que se tornou a ortografia, mas, prudentemente defendem ser uma maçada este barulho constante. É preciso dizer que vários deles foram compelidos a escrever com as novas regras nos meios de comunicação em que trabalham, daí o desinteresse que aparentam manifestar sobre o assunto. Mas não têm grande sorte no disfarce, porque vê-se-lhes bem a cautela.

O PCP, com a seriedade prática que se lhe reconhece, propõe a desvinculação. ; o PSD considera a posição do PCP extemporânea, talvez esperando regressar ao governo para voltar a não fazer nada; o CDS diz que não, mas que também; o BE diz zero à esquerda; o PS, pior do que as inanidades que um tipo qualquer para lá vocalizou, como partido no poder, não quer agitar as águas.  

Com mais ou menos retórica, com mais ou menos convicções (ou falta delas), os quadros partidários ignoram olimpicamente os peticionários, como já haviam, a partir da sua pouca suficiência, ignorado Vitorino Magalhães Godinho, José Saramago, Vasco Graça Moura, para mencionar apenas pessoas que já morreram.

A actual situação da ortografia portuguesa encontra inúmeros paralelos na degradação do património histórico-cultural, ainda há pouco eloquentemente evidenciada por uma excelente reportagem da RTP (creio que no programa "Linha da Frente"). Essa peça jornalística mostra as fragilidades do país, com uma percentagem brutal de analfabetos (literais ou funcionais), que por sua vez é brutalizada por uma imprensa venal que serve à população o pasto que sabemos. Nesse aspecto, a Assembleia da República e os directórios partidários que lhe fornecem os quadros, são bem o espelho de um dos mais graves problemas estruturais que Portugal enfrenta: a falta de qualificações de grande parte da população, com evidentes reflexos na ausência de massa crítica nas chamadas elites, políticas e não só.

O Aborto Ortográfico não é politicamente mobilizador, não dá votos e está provavelmente capturado por interesses de algum sector editorial. Não é o AO, como não o é todo o património do país. Portanto, há que esperar por duas coisas: que os deputados do PS, PSD e CDS ganhem vergonha na cara e/ou mostrem que servem para alguma coisa para além deputismo de cu (levantar e sentar quando manda a direcção do grupo parlamentar); e, quanto ao BE, meter naquelas cabecinhas que cuidar da ortografia de uma língua não tem que ver com atitudes passadistas, conservadoras, reacionárias, mas antes com elementar bom senso. Aliás, a mítica lusofonia encobre, em muitos, casos, um neocolonialismo que certamente não subjaz à maioria dos que defendem a anulação do AO90, como é o meu caso.

em tempo: o artigo de Bagão Félix no Público deixa à mostra a mistela ortográfica que os parlamentares têm pejo em discutir

o Massacre de Batepá e as culpas de Portugal

O Presidente da República esteve bem quando abominou o Massacre de Batepá, mas não teria ficado mal um pedido de desculpas aos sãotomenses. Não especificamente pela actuação de um escroque que era governador da então colónia, chamado Carlos Gorgulho, cujo nome só deve ser referido para se acompanhar da abjecção que merece. Este indivíduo exorbitou criminosamente  as suas funções, tentando, inclusivamente, enganar o poder de Lisboa, inventando uma intentona revolucionária quando a população se revoltava apenas contra a arbitrariedade mais chula e reles. Foi, curiosamente, a pide que, chamada à ilha, percebeu que a insurreição não tinha que ver com motivações políticas independentistas, como lhe havia sido vendido, mas com a simples autodefesa de quem era capturado para trabalhar forçadamente em obras públicas, para glória do Gorgulho. As desculpas são devidas pela actuação do nosso Salazar, que alertado pela dita pide para as reais motivações dos insurgentes, manda recambiar o vigarista; e creio, com o cinismo e filhadaputice que eram seu apanágio, chega a dar-lhe um louvor ou a condecorá-lo, já não me recordo com exactidão. E fê-lo, não por simpatizar com o homúnculo Gorgulho, mas para que o Estado não perdesse a face, no seu entender. É por isso que  teria ficado bem a Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto presidente de Portugal um pedido de desculpas, já que um bandido é um bandido, e se enodoa o país, como sucedeu, o Estado tem de o sancionar. Como vimos, a penalização, bastante edulcorada, nem merece esse nome.

Ao contrário do que possam pensar alguns obtusos, um país e o seu povo só se honra se reconhecer e manifestar pesar pelos crimes que tenha cometido. Foi o que Soares fez, quando era PR, em Belmonte, pedindo desculpa aos judeus portugueses pelos crimes que o país cometera quinhentos anos atrás. Foi um gesto que nos enobreceu enquanto comunidade.
«Dum primeiro andar, com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas convidavam: -- Psiu! não sobes, ó catitinha? -- aos janotas que passavam.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«De mansinho (estou a vê-lo!), abriu a porta da rua, subiu no escuro os três degraus da entrada onde o próprio mau cheiro lhe agradava, e apalpando à esquerda, meteu sem ruído a chave na fechadura.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949).

«Já lá vão quase cinquenta anos, tempo suficiente para que um lago se torne num pântano ou uma estrela distante e misteriosa se transforme num mundo corriqueiro, ambos possíveis por obra dos homens.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

terça-feira, fevereiro 20, 2018

50 discos: 41. CAVALO DE PAU (1982) - #6 «Lava Mágoas»



A pressa -- a prece -- o estresse / Matam um poeta a cada minuto / Só no estado de São Paulo.
Rodrigo Tomé

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

o Festival, parte I

Desenterrado por Nuno Artur Silva no ano passado, o Festival da Canção mereceu voltar a ser ouvisto. Propriamente má, só uma, miseràvelzinha, apesar do aparato. Algumas, poucas, assim-assim, e uma meia dúzia de boas canções. Gostei bastante da Catarina Miranda, "Para Sorrir Eu não Preciso de Nada" (música de Júlio Resende, letra de Camila Ferraro), e "Alvoroço", de e por J. P. Simões, e também gosto sempre de ouvir a Anabela, uma cantora esplêndida. Mas quem me encheu as medidas, por igual, foram a Joana Barra Vaz "Anda Estragar-me os Planos" (de Francisca Cortesão e Afonso Cabral) e "Só por Ela", de Diogo Clemente, cantada por Peu Madureira. E ainda o vozeirão de Maria Amaral, embora acusando os nervos ou a inexperiência.

sábado, fevereiro 17, 2018

estampa CCXCV - Hans Maler


Rainha Ana da Hungria e Boémia (c.1519)

Darkest Hour


O problema com o filme é que ficamos tão subjugados e atentos ao desempenho do Gary Oldman como Churchill, que este acaba como que anular a própria trama, como uma espécie de auto-sabotagem.